“A campanha de Lula precisa sair da esparrela do STF”, diz Tarso Genro
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O ex-ministro da Justiça e ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro afirmou que a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não deve permitir que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) se transforme no eixo principal da disputa presidencial.
Em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247, Tarso avaliou que a campanha precisa concentrar sua comunicação na comparação entre os projetos políticos em disputa, na defesa da soberania nacional e nas realizações do governo Lula.
“O comando de campanha do Lula não pode aceitar a pauta. Ele tem que orientar a sua base, a sua militância e os seus porta-vozes públicos a tratar dos assuntos essenciais para o futuro do país”, afirmou.
Segundo Tarso, a disputa entre André Mendonça e Alexandre de Moraes ganhou uma dimensão eleitoral que, em sua avaliação, desloca o debate sobre os temas que deveriam definir a escolha dos eleitores.
Para o ex-ministro, a prioridade deve ser discutir o significado político das forças que apoiam Lula e Flávio Bolsonaro e suas diferentes posições sobre democracia, soberania e relações internacionais.
“A prioridade do debate político eleitoral é sobre quem está traindo o país, quem não está traindo, o que o presidente Lula fez pelo país até agora, o que era o país na época de Bolsonaro e o que eles representam politicamente para a ideia de nação”, declarou.
Tarso critica centralidade da crise do STF
O ex-governador afirmou que divergências entre ministros são parte do funcionamento de instituições compostas por diferentes posições jurídicas e políticas. Para ele, transformar esse conflito em tema central da eleição beneficia a extrema direita.
“O que está em jogo nesse processo eleitoral é a continuidade da ideia de nação e de democracia que foi construída até agora, com todas as suas grandezas e imperfeições, e não o destino do Mendonça ou o destino do Moraes”, afirmou.
Tarso criticou a cobertura da Rede Globo sobre a disputa no Supremo. Segundo ele, a emissora confere pesos diferentes às posições dos ministros envolvidos e estabelece uma agenda que acaba interferindo na hierarquia dos temas discutidos durante a campanha.
“Quando a Rede Globo não emplaca a sua visão da política, as pautas de escândalo são superestimadas, promovidas e transformadas em prioridades para discussão”, disse.
O ex-ministro também afirmou que a campanha de Lula não deve gastar sua capacidade de comunicação respondendo de forma permanente a essa agenda.
“A direção da campanha do Lula tem que compreender que não pode cair nessa esparrela e esgotar seus argumentos, suas ocupações na rede e suas entrevistas participando desta querela”, afirmou.
Vinculação entre Lula e Moraes
Tarso rejeitou a associação direta entre Lula e Alexandre de Moraes. Ele lembrou que o ministro do STF foi indicado por Michel Temer e afirmou que a tentativa de responsabilizar politicamente o presidente pelos atos de Moraes cria um vínculo que não corresponde à origem institucional do ministro.
“Ligar o Moraes ao presidente num momento como esse é dizer que o presidente é responsável pelo Moraes. Mas o presidente não é responsável pelo Moraes, nem pela sua entrada e nem pelos seus atos dentro da Suprema Corte”, disse.
Segundo Tarso, Lula deve manter uma relação institucional com o STF sem transformar a defesa de qualquer ministro em componente da campanha eleitoral.
Ele afirmou que encontros e negociações entre Executivo e Judiciário são parte do funcionamento regular das instituições e recordou que, quando esteve no Ministério da Justiça, participou de reuniões entre representantes dos Poderes para discutir temas que envolviam competências compartilhadas.
Campanha precisa reorganizar discurso
Tarso fez críticas à organização política da campanha de Lula na reta final do processo eleitoral. Segundo ele, falta uma orientação nacional capaz de organizar o discurso de candidatos, dirigentes partidários e integrantes do governo.
“Eu acredito que o comando de campanha do Lula não vem tratando isso de maneira adequada”, afirmou.
O ex-governador citou o Rio Grande do Sul como exemplo. Segundo ele, militantes e partidos aliados ainda enfrentam dificuldades para acessar material e orientações de campanha.
“Nós aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, não temos ainda nem material para distribuir da campanha do Lula. Temos poucas informações e poucas orientações políticas”, disse.
Para Tarso, a reta final exige uma coordenação que uniformize os principais argumentos apresentados ao eleitorado.
“Tem que dar uma direção firme para o discurso político dos nossos candidatos, para o discurso político dos nossos parlamentares e para o discurso político dos nossos quadros de partido que estão no governo”, afirmou.
Disputa pode mudar rapidamente
O ex-ministro reconheceu que a crise no STF pode ter produzido efeitos sobre o cenário eleitoral, mas considerou que esse impacto não é necessariamente permanente.
“Eu acho que afetou, mas é uma afetação fenomênica, não estrutural. Ela durou um certo tempo e pode ser substituída por uma outra decisão, por um outro fenômeno, por uma outra questão”, disse.
Tarso destacou que, na fase final da campanha, uma parcela maior do eleitorado passa a acompanhar com atenção o processo eleitoral. Por isso, decisões judiciais ou novos fatos relacionados às investigações podem alterar rapidamente o ambiente político.
Para ele, a campanha de Lula precisa estar preparada para responder a esses acontecimentos sem abandonar sua própria agenda.
“A nossa questão é a traição nacional, a nossa questão é a soberania, a nossa questão é observar qual é o papel que o Brasil tem hoje na geopolítica latino-americana e no mundo e o que o presidente Lula fez para melhorar a vida da população”, afirmou.
Tarso sustentou que a estratégia da campanha deve ser construída a partir dessa comparação política, evitando que conflitos internos do Judiciário determinem os temas discutidos até a votação.
Fonte: Brasil 247