A campanha de Lula está perdendo sua identidade histórica, por Lauro Mattei

0

Por RedaçãoGGN

A campanha de reeleição de Lula está perdendo sua identidade histórica, por Lauro Mattei

            Todos aqueles que acompanharam e/ou ainda acompanham a trajetória de Lula desde a memorável campanha eleitoral de 1989 devem estar percebendo uma mudança considerável no processo eleitoral de 2026. E isso não se deve apenas ao contexto político atual em que o debate sobre a eleição presidencial está cada vez mais condicionado à esfera jurídica, especialmente sobre os desdobramentos do caso Banco Master que tramita na Suprema Corte e que envolve – direta ou indiretamente – candidatos ao posto de Presidente da República.

            Apenas como recordação, cita-se os casos de 2018 – ano em que Lula era um forte candidato e foi impediu de concorrer naquele pleito devido à prisão fraudulenta determinada poucos meses antes pelos desdobramentos da operação lava jato – e de 2022 quando se sagrou vencedor do pleito eleitoral. Nesse pleito assistiu-se a um Lula extremamente conectado com os grandes problemas nacionais, ao mesmo tempo em que percorreu praticamente todo o país fazendo atos e manifestações políticas gigantescas que lhe garantiram a vitória, ainda que por uma margem percentual bem pequena.

            Estamos há três semanas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 e pouco está sendo discutido sobre os problemas reais do país. Reconhecemos que o debate está concentrado nos escândalos financeiros recentes relativos à falência do Banco Master, o qual acabou afetando segmentos políticos e envolvendo integrantes da Suprema Corte do país, cuja dimensão ainda não é inteiramente conhecida pelo conjunto da sociedade.

            É neste diapasão que se analisa a campanha atual de reeleição do Presidente Lula, a qual parece estar refém do chamado “Defeso Eleitoral”. O resultado concreto é que, diferentemente de outros candidatos, a campanha de Lula não ganha as ruas. Normalmente Lula tem ficado em Brasília e quando vai em alguma cidade para desempenhar a função presidencial (inaugurar obras, assinar convênios, etc.) ao final do dia faz pequenas atividades de campanha cuja dimensão está longe de ser comparada com as enormes manifestações populares ocorridas durante a campanha de 2022.

            Além disso, observa-se que a campanha atual não apresenta adequadamente os principais resultados obtidos ao longo dos quase 4 anos de mandato (as famosas entregas de cada governante), especialmente de programas e políticas que impactaram segmentos expressivos da população. Neste caso, poderíamos mencionar a aprovação da reforma tributária (tema que ficou paralisado por mais de 30 anos); a isenção do imposto de renda para quem tem renda inferior a R$ 5 mil; a retomada da política de valorização do salário mínimo que havia sido abandonada pelo governo anterior; os programas que aliviaram as dívidas de muitos segmentos sociais, especialmente das camadas mais vulneráveis da sociedade; o firme encaminhamento pelo fim da escala 6 x 1; a recuperação e retorno da política de segurança alimentar e nutricional que acabou retirando novamente o país do Mapa  da Fome da ONU; a recuperação das capacidades estatais com concursos públicos para diversas áreas específicas; a firme defesa da soberania nacional quando o país foi atacado pelo governo norte-americano, dentre outras ações.

            Registro aqui uma ação palaciana realizada em 10.09.2026 quando o governo buscou dar destaque ao fim da taxa de 20% do imposto de importação para compras no exterior de até 50 dólares, o que equivale ao câmbio atual a R$ 250,00. Tal imposto foi instituído pelo próprio Governo Lula em 2024 em mais uma daquelas políticas extemporâneas, uma vez que agora foi extinto apenas o imposto federal, dado que tais operações continuam sujeitas ao ICMS definido pelos governos estaduais.  Ao final da seção celebrou-se tal ação como um grande feito político do governo, mas que na verdade tem baixíssima repercussão junto à sociedade em geral.

            Essa postura defensiva do governo no processo eleitoral visando obter um novo mandato já apresenta alguns indicativos que colocam sérios riscos para a perspectiva de continuidade. E as últimas pesquisas sobre a intenção de voto em Lula nas eleições de outubro/26 já captaram cenários bastante complicados. Por um lado, parcelas expressivas da população que até recentemente era fiel ao atual presidente – particularmente os beneficiários das políticas sociais mais ativas – aos poucos estão deixando de apoiar explicitamente a reeleição do atual presidente. Por outro lado, essas mesmas pesquisa captaram um crescente movimento “antilulista” na faixa etária entre 25 e 44 anos, a qual representa a parcela mais expressiva do eleitorado do país. Embora a candidatura de Lula mantenha uma boa aceitação na faixa acima de 60 anos de idade, essa faixa não impacta tanto como no caso anteriormente mencionado.

            Outro ponto observado – e diferentemente das eleições anteriores – a campanha atual está altamente centralizada em um pequeno núcleo que eu denominaria de “palaciano”, sendo inclusive constatada uma baixa participação da própria executiva do partido de Lula. O que dirá então da participação dos demais partidos aliados, destacando-se a notória ausência do atual vice-presidente nas atividades de campanha. Em decorrência disso, verificou-se que a estratégia inicial da campanha parecia estar desfocada devido à insistência no tema da soberania nacional, o qual perdeu seu timing.

            Outro aspecto a ser considerado, conforme foi destacado pela pesquisa Arko Advice, diz respeito ao retrospecto nas duas vezes que Lula concorreu à reeleição de presidente, tomando-se como referência a aprovação de seu governo no mês de agosto quando a propagando eleitoral tem início oficial. Em agosto de 2006 o percentual de ótimo e bom do governo Lula I atingiu 52%, enquanto 31% consideravam regular e apenas 16% ruim ou péssimo. Já o Governo Lula III apresentou em agosto de 2026 os percentuais de 33%, 26% e 41%, respectivamente.

            Além disso, a tática de exaltar Lula como um líder experiente e conhecedor do país não parece ser no momento um fator relevante para a definição do voto dos eleitores. Tanto é assim que um dos candidatos da oposição – sem qualquer experiência em instâncias executivas de governo – está praticamente com as mesmas intenções de voto de Lula.

            Por fim, parece que o “salto alto e triunfalista” dos meses iniciais está dando lugar a uma campanha mais pé no chão, porém ainda com sérias dúvidas e limitações. Apenas lembrando que o governo Lula passou quase 4 anos com enormes dificuldades para se comunicar coma sociedade. Isso permite auscultar como pouco provável uma mudança de rota na escolha da campanha atual. Se isso ocorrer, as chances de vitória de um candidato da oposição estão cada dia mais claras.

Lauro Mattei – Professor de Economia da UFSC. Artigo escrito em 11.09.26

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Primeira semana de campanha: algumas pérolas, por Lauro Mattei

Novas pérolas dos presidenciáveis de 2026, por Lauro Mattei

Fonte: GGN

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *