O segredo da Vale (VALE3) não está mais tão bem guardado assim — e já aparece no preço da ação
Por Carolina Gama — Seu Dinheiro

Alguns segredos podem ter prazo de validade e o da Vale (VALE3) parece ter vencido. A mineradora segue sendo uma das preferidas do investidor que busca dividendos e exposição a commodities, só que o desconto que fazia da ação uma pechincha diminuiu. Ainda assim, a XP não vê motivo para se desfazer do papel.
A casa manteve a recomendação neutra para a Vale depois de atualizar as estimativas e revisitar a forma como mede o desconto da ação frente a outras mineradoras globais.
E aqui está o ponto central: a comparação mais simples, pelos múltiplos de mercado mais usados, ainda sugere um deságio relevante da Vale.
Só que, quando os analistas ajustam o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para refletir de forma mais fiel a geração de caixa da empresa — e somam passivos que funcionam, na prática, como dívida —, a conta muda.
Nessa versão mais criteriosa da análise, a Vale negocia a 5,9 vezes o EV/Ebitda (valor da firma sobre o Ebitda) estimado para 2027, o que representa um desconto de cerca de 10% em relação a mineradoras diversificadas globais. É um nível próximo da média observada desde a tragédia de Brumadinho.
Ou seja: o desconto não desapareceu, mas encolheu para perto do histórico — daí a leitura da XP de que a relação risco-retorno está equilibrada no preço atual.
O caixa da Vale ainda aperta no curto prazo
Os analistas Lucas Laghi, Guilherme Nippes e Fernanda Urbano explicam que a geração de caixa da Vale segue pressionada nos próximos anos.
A estimativa é de um rendimento de fluxo de caixa livre, o chamado FCF yield, de cerca de 6% em 2027 — abaixo do que o mercado, de forma geral, está projetando.
Os motivos vão além de uma eventual queda no preço do minério de ferro. A XP trabalha com premissas de US$ 100 por tonelada para o minério e US$ 14 mil por tonelada para o cobre em 2027.
A casa ainda aponta uma combinação de fatores puxando o resultado para baixo: fretes mais caros, real mais forte — o que reduz a receita em reais vinda de vendas em dólar —, despesas atreladas ao petróleo Brent pressionando custos, o capex (investimento) elevado destinado aos projetos de metais básicos e outras obrigações de caixa da companhia.
O lado positivo é que os custos ainda elevados devem, segundo a XP, dar algum alívio à frente — mas o investidor precisa entender que, no curto prazo, o fluxo de caixa não vai ser o grande atrativo da tese.
- Leia também: Vale (VALE3) segue blindada, mas outra mineradora brasileira está à deriva no mar mais caro dos últimos anos
Vale Base Metals: a aposta de longo prazo
É aqui que entra o braço da Vale dedicado a metais além do minério de ferro — cobre, níquel e afins —, batizado de Vale Base Metals (VBM). A XP reforça que essa divisão é o principal vetor de criação de valor da empresa no longo prazo, sustentada por volumes crescentes de cobre e por uma visão construtiva para essas commodities.
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da aposta: a XP projeta que o FCF yield da Vale pode subir de 6% em 2027 para uma faixa de 7% a 13% entre 2030 e 2035, em termos reais. E a participação da VBM nesse fluxo de caixa deve saltar de algo entre 0% e 10% em 2025-2026 para 30% a 50% até 2030-2035.
O detalhe importante — e que explica por que a XP não está mais empolgada com a ação — é que esse futuro promissor já está, em boa parte, precificado.
Na análise por soma das partes, a XP atribui um múltiplo em torno de 8 vezes EV/Ebitda para Metais Básicos, contra cerca de 5 vezes para o negócio de minério de ferro. Esse prêmio embutido mostra que o mercado — e a própria XP — já reconhece o valor da VBM.
O que isso significa para o seu bolso
Juntando os pedaços, a XP chega a um preço justo de US$ 14 a US$ 16 por ADR, e a uma faixa de R$ 70 a R$ 80 por ação Vale na B3.
O preço-alvo oficial é de R$ 83, o que implica um potencial de valorização de 6% em relação ao fechamento desta segunda-feira (14).
Na prática, o recado da XP para quem já tem Vale na carteira é de manter a posição, sem pressa para comprar mais nem para vender.
Segundo a casa, a ação não está mais tão descontada quanto antes, mas também não está cara a ponto de justificar uma saída.
E a Vale Base Metals segue como a carta na manga que pode reacelerar o crescimento da empresa lá na frente — só que essa expectativa já não é mais um segredo bem guardado.
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Fonte: Seu Dinheiro