A boa religião é a que prega a harmonia entre todos

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Por Makota Celinha Gonçalves — Brasil de Fato

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

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Nosso país vive hoje uma grande e perigosa crise institucional, na qual o que está em jogo é a tentativa de desestabilização e descredibilização das instituições e do Estado brasileiro, que se soma ao contexto eleitoral em que políticos da extrema direita fazem uso da religiosidade das pessoas para manipular, disseminar ódio, intolerância e desrespeito.

Vivemos a profunda ausência de limites e de regras capazes de bloquear a interferência do discurso de ódio em nome de Deus e da religião. No processo eleitoral que vivemos, a capacidade de humanizar Deus em nome de ideologias racistas, misóginas, machistas e homofóbicas é assustadora. É a utilização da religião buscando estabelecer um conceito de uma sociedade não plural, não democrática e muito menos humanizadora. Sem que as pessoas/eleitores percebam o quanto isso é perigoso e desleal para com os princípios religiosos cristãos, que tanto dizem pregar.

A busca de votos e do apoio do eleitorado cristão perpassa uma grave crise ética desse modelo cristão de ser na atualidade de alguns que se intitulam cristãos, é claro. A ideia e noção da comunhão entre os homens de bem, que deveriam, a partir da fé, construir o reino de Cristo na terra, inexistem. As pessoas perderam a noção da caridade, do amor ao próximo como a si mesmo, e não percebem que, ao apoiar ideias da extrema direita que desconhece limites entre ser e pensar, de liberdade e de livre-arbítrio, só corroboram para destruir humanidades.

Há uma instrumentalização da religiosidade, como se ela fosse a poderosa arma para ser usada com o propósito de acabar com a corrupção política estabelecida em nosso país, e não se medem esforços para, em nome de Deus, se entranharem nas mentes e cabeças dos fiéis. Deus passa a ser dissociado do “todo” que sempre foi o princípio básico da fé cristã, e aí se cria a tríade: Deus, Família e Pátria. A religião foi transformada no ápice da política, ocupando um espaço privilegiado de redenção e salvação da pátria.

Está em curso, nesse processo eleitoral, a tentativa de se eleger um projeto político de poder teocrático, em que a fé é instrumento de exercício do poder. A prepotência exercida a partir da fé e das práticas religiosas tem nos colocado em um lugar onde a violência toma o lugar de qualquer experiência da vivência racional e periférica entre os diferentes.

A proliferação das igrejas em locais de baixa renda e de pobreza absoluta, que trazem como lideranças pessoas de fácil comunicação, que utilizam recursos nada ortodoxos para atingir seus objetivos, manipulando ideias e desejos dos fiéis, são as principais ferramentas dos segmentos de direita para atingirem seus objetivos. Estas lideranças são, na maioria das vezes, homens e mulheres comuns, que vendem o conceito da vida eterna, do paraíso, como lugares de extrema felicidade coletiva, cujo preço para acessá-los é por meio da radicalidade da fé.

Ainda que esta fé seja preconceituosa, desequilibrada, sendo utilizada inclusive como ferramenta que pode promover a morte tanto física quanto subjetiva do outro. E é por meio desta fé que a direita se organiza para, em nome de Deus, pregar o desprezo e a prepotência, além de uma moral rígida baseada em textos fragmentados e desconectados da realidade, que para muitos expressam a vontade de Deus e, portanto, são leis. Há, por parte destas lideranças, a capacidade de transformar ideias de uma supremacia religiosa em atos de fé.

As igrejas cristãs de origem neopentecostais, que se organizam em grandes bases populares, nas periferias das cidades, se colocam no lugar vazio da razão, da formação, se proliferam com base no discurso da moral, do pecado original, da teologia da prosperidade e no medo da perdição eterna. E há candidatos que se aproveitam desse estado de comoção coletiva, vamos assim dizer, para colocarem, em seus discursos, bravatas perigosas, inconsequentes e inconstitucionais que agradam aos ouvidos de uma gente simples e altamente manipulável, como é o caso de se dizer que será decretado Jesus Cristo como verdadeiro e único dono do Brasil. Como se o Estado fosse o braço direito de fé. Outros usam dogmas cristãos como bandeira eleitoral, num verdadeiro estelionato de fé. E todas estas atitudes perpassam pela naturalidade hipócrita de toda uma sociedade.

Assistimos estarrecidos, nós que defendemos a laicidade do Estado, à cegueira de uma sociedade que não se atenta aos riscos que corremos quando se fortalece a ignorância “profética” de uma grande parcela da sociedade brasileira que usa da fé, da religiosidade e da boa-fé das pessoas para manipular.

A religião e toda temática que ela envolve sempre foram arma para manipular, oprimir e produzir riquezas. A história da humanidade traz consigo riquezas de detalhes sobre como a fé foi instrumentalizada no sentido de produzir sociedades opressoras. E o Brasil de hoje é palco para que a temática de fé, aliada ao momento político, retorne de forma a produzir espetáculos dantescos, nos quais proliferam o ódio, a prepotência e, principalmente, um sentimento de desprezo às humanidades.

Eles conseguiram polarizar e colocar em cheque uma das maiores ferramentas da democracia moderna: o voto, uma ferramenta legítima para fazer valer o desejo das cidadãs e cidadãos no que tange à organização social do Estado brasileiro. Criaram tanta controvérsia que hoje se fala mais em como se deve votar para exterminar ou não exterminar a laicidade do Estado do que propriamente em como assegurar um país democrático e de direito.

E, por isso, o processo eleitoral e a própria democracia nos colocam em lugar defensivo da laicidade e do direito. Hoje os ataques se ampliam também para a Igreja Católica; os mesmos, até então, tinham como alvo as tradições e religiosidade de matrizes africanas, e navegávamos sozinhos, sentindo a ausência de apoio e manifestações em defesa da liberdade religiosa e de nossos direitos. Havia um silêncio quando os perseguidos e discriminados eram um setor da sociedade brasileira historicamente violentado em sua humanidade e liberdade. Não nos ouviam quando dizíamos que o perigo estava à espreita e que, na primeira fragilidade da democracia a ser exposta, assumiria definitivamente o corpo de um projeto político pensado a partir da teocracia.

Mas o quadro muda quando se ataca o mundo católico, e as feridas que curtíamos solitariamente são hoje uma ferida coletiva, que nos exige uma resposta à altura de sua gravidade. Do contrário, incorreremos no risco de vermos o Brasil dividido e governado a partir de uma ideologia de extrema direita que não respeita e/ou desconhece limites do que é ter uma casa comum chamada Brasil.

*Makota Celinha Gonçalves é jornalista, empreendedora social da Rede Ashoka, coordenadora-geral do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira (Cenarab) e doutora honoris causa pela Universidade Estadual de Alagoas (Uneal).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Fonte: Brasil de Fato

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