A ascensão do PL
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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O partido faz as maiores bancadas na Câmara e no Senado desde 1988
O resultado da eleição para o Congresso apresentou um grande vencedor, o Partido Liberal, comandado por Valdemar Costa Neto, e casa política da família Bolsonaro, que contou com seis candidatos pela legenda, elegendo quatro.
O PL se transformou no principal partido tanto na Câmara quanto no Senado. Na primeira, elegeu 121 deputados (24%), e no segundo, 19 senadores, chegando a uma bancada de 28, equivalente a 35% da Casa. Para se ter uma ideia da dimensão do feito, são as maiores bancadas que uma legenda conseguiu fazer desde a Constituição de 1988.
Independentemente do que aconteça no segundo turno das eleições presidenciais, em que seu candidato é favorito, o partido tem garantido acesso privilegiado às esferas de poder no Congresso, como em ambas as mesas diretoras e nas principais comissões das duas casas. Isso sem contar com os crescentes recursos dos fundos partidário e eleitoral, assim como das emendas parlamentares, que servem para consolidar apoios e atrair políticos em nível local. Ou seja, o partido sai como forte candidato a fazer um número ainda maior de prefeitos e vereadores em 2028.
Após as eleições de 2014 e 2018, a legenda tinha em torno de 7% dos deputados e 5% e 2% dos senadores, respectivamente. Não era uma agremiação inexpressiva dada a fragmentação do Legislativo brasileiro, mas estava longe de ser uma força dominante nas duas casas. O primeiro grande salto acontece em 2022, quando passou a contar com 19% da Câmara e 15% do Senado. O segundo foi agora. Como entender o crescimento e a afirmação do partido como o mais forte no Congresso desde o PMDB em 1986?
Ao abrigar o clã Bolsonaro, a legenda controlada por Valdemar Costa Neto ganha musculatura e influência
Ao que parece, estamos diante de uma estratégia que aproveitou bem as conjunturas política e institucional. A reforma eleitoral de 2017 produziu incentivos à concentração partidária, com o fim das coligações e o estabelecimento de cláusula de desempenho para o acesso a recursos. Juntamente com o financiamento público de campanha, essas mudanças indicaram que os partidos que fossem cada vez mais bem-sucedidos a partir de 2022 teriam boa vantagem nas eleições subsequentes, dada a distribuição dos recursos públicos guardar relação com o tamanho das bancadas na Câmara e no Senado.
E aqui entra a conjuntura política. Jair Bolsonaro foi eleito, em 2018, pelo PSL, até então um partido inexpressivo de direita. Naquela eleição, arrastou consigo 52 deputados, fazendo a segunda maior bancada, e quatro senadores. Percebendo a força eleitoral que adquirira e em conflito com as lideranças partidárias sobre o controle de recursos, os Bolsonaro rompem com o PSL e tentam fundar um partido, o Aliança pelo Brasil, em 2019, que teria Jair como presidente e Flávio como vice. Faltou, porém, organização, estratégia e capacidade para que as lideranças bolsonaristas conseguissem atingir os requisitos mínimos estabelecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral para a fundação de uma legenda, mesmo ocupando o Palácio do Planalto.
Aqui entra o PL. Bolsonaro negocia com vários partidos a sua filiação e de seu grupo, chegando a um acordo final com o agrupamento comandado por Valdemar Costa Neto. O PL oferece uma estrutura organizativa nacional e palanques importantes nos estados para aliados do ex-presidente. Em troca, Jair leva seu enorme capital político e o de sua família para a legenda.

A partir daí, o PL passa a ser o partido do bolsonarismo, adotando uma postura política ainda mais marcada pelo conservadorismo. Com os Bolsonaro na equipe, fica muito mais fácil atrair bons candidatos e negociar bons acordos para a eleição de 2022, redundando no expressivo crescimento mencionado na Câmara e no Senado.
Aí a conjuntura institucional joga a sua parte. O bom desempenho em 2022 traz mais recursos dos fundos partidário e eleitoral, fazendo com que a legenda se torne ainda mais atrativa para lideranças políticas e influenciadores conservadores, permitindo a montagem de listas competitivas de candidatos ao Congresso. A avaliação ruim do governo Lula fornece o combustível final, dando ao partido ainda a chance de se colocar como alternativa ao atual governo.
Com o tempo, fica cada vez mais difícil a aliança entre os Bolsonaro e o PL se desfazer. Os incentivos para ambos parecem suficientes para que ela perdure, como mostraram os episódios do 8 de Janeiro de 2023 e a prisão do ex-presidente. Se isso acontecer, o PL poderá constituir-se, como partido, no eixo de gravidade à direita, em oposição ao PT. •
*Oswaldo E. do Amaral é cientista político e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros tanto no campo do financiamento quanto no campo da divulgação.
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A ascensão do PL’
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Fonte: Carta Capital