Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Paes descobre que na direita do rio de janeiro não há espaço para nada além do bolsonarismo

Ainda à espera da confirmação do Tribunal Superior Eleitoral sobre a realização de uma segunda rodada na disputa pelo governo do Rio de Janeiro, o candidato Eduardo Paes, do PSD, voltou a cumprir uma extensa agenda pelo interior do estado na terça 6. Passado o choque com a surpreendente vitória do adversário Douglas Ruas, do PL, que obteve 49,2% dos votos válidos no primeiro turno contra 42,7% do ex-prefeito, a ordem, segundo integrantes do núcleo de campanha de Paes, é trabalhar para virar o jogo em duas frentes.

A primeira é não deixar que a expectativa de poder relacionada a Ruas disperse o amplo grupo de prefeitos – muitos deles antigos aliados do ex-governador Cláudio Castro – que apoiou o candidato do PSD no primeiro turno, o que seria um golpe de misericórdia nas pretensões de Paes. A segunda é pressionar o TSE para que contabilize os votos sub judice do candidato do Republicanos, Anthony Garotinho, que chegou em terceiro lugar com 3,1% dos votos válidos. Se os votos do ex-governador forem desconsiderados pela Justiça Eleitoral, o recálculo elevaria a 50,6% o porcentual de votos válidos de Ruas, garantindo sua vitória em primeiro turno.

No campo de apoio a Paes, entretanto, o sentimento de urgência pela virada convive com a discussão sobre os eventuais erros que levaram o ex-prefeito do Rio a acabar atrás em uma disputa que, durante boa parte dos últimos meses, parecia ser uma das maiores barbadas nas eleições deste ano. A expectativa de vitória no primeiro turno era tão grande que levou o PSD a pedir a exclusão de Garotinho, no que agora, após a vitória de Ruas, virou um caso clássico de feitiço voltado contra o feiticeiro. “O arrependimento é grande pela entrada com a ação na Justiça Eleitoral”, diz uma fonte próxima a Paes a CartaCapital.

Outros eventuais erros de Paes estão sendo discutidos, com opiniões divergentes no comando de campanha sobre como corrigi-los. Um deles foi a opção por se descolar de Lula, que praticamente não foi visto ao lado do candidato do PSD, sobretudo na reta final. Outro foi tentar cortejar o eleitorado de direita sem se afirmar claramente como um candidato desse campo, estratégia que teve como principal exemplo o fracasso da dobradinha com ­Washington Reis, cacique maior da Baixada Fluminense, que apoia Flávio Bolsonaro. Embora Jane Reis, irmã de Washington, seja vice de Paes, ele perdeu para Ruas em toda a região. Cientista política e professora da UFRJ, Mayra Goulart afirma que a votação no estado deixou claro que “não existe espaço na direita para nada que não seja o bolsonarismo”. Ela ressalta que do Rio saiu boa parte da margem de Flávio que extrapolou as pesquisas, uma vez que sua votação no estado foi muito maior do que se esperava. “Paes se lançou como um candidato que, embora tivesse ligação com o governo federal, não se apresentava como de esquerda. Ele queria pegar os votos de uma direita não bolsonarista e foi trucidado. Teve apenas os votos da esquerda e a esquerda no Rio está com muita dificuldade de eleger um candidato majoritário”, explica.

O ex-prefeito adotou a estratégia de pairar acima da disputa entre flávio Bolsonaro e lula, mas acabou atropelado pela máquina extremista e pelo voto envergonhado

Indagado pela reportagem sobre como se dará a participação de Lula ao lado de Paes no segundo turno, o comando de campanha do PSD não respondeu. Em sua primeira declaração pública após a derrota no primeiro turno, Paes nem sequer mencionou o nome do presidente. “Tem muita gente se perguntando como a eleição para o governo do Rio, mais uma vez, traz o mesmo resultado de anos anteriores. Eu avisei que iam nacionalizar a eleição para governador, que iam enganar mais uma vez o eleitor, que iam surfar na onda da campanha presidencial. Foi o que aconteceu. Voto casado. Como se presidente e governador fossem uma coisa só, mas não são”, disse.

Procurados pela reportagem, integrantes da direção estadual do PT também não se posicionaram sobre a participação de Lula na campanha de Paes. Deputada estadual reeleita com 135 mil votos, a mais votada do PT, Elika Takimoto diz não ter dúvidas sobre a relevância de Paes no “processo de virada” de Lula sobre Flávio. “Espero que ele, juntamente com prefeitos, parlamentares, partidos e movimentos sociais de todo o campo progressista, esteja empenhado nessa tarefa. Não cabe cálculo individual, preservação de espaço ou campanha pela metade”, diz. Takimoto avalia ainda que é preciso “ampliar muito” a mobilização nas duas campanhas e conversar com quem não votou ou anulou o voto, com quem está frustrado e até com quem fez outra escolha no primeiro turno. “O segundo turno exige menos conversa entre nós mesmos e mais disposição para chegar a quem ainda não está convencido”, sugere.

A decisão do TSE sobre Garotinho está marcada para quinta-feira 8. Consultado, o Ministério Público Eleitoral recomendou que o tribunal opte pela anulação dos votos. No dia seguinte à votação do primeiro turno, o candidato do Republicanos desistiu de um recurso apresentado no TSE no qual tentava garantir a própria candidatura. O anúncio foi precedido por uma conversa entre Ruas e Wladimir Garotinho, filho do ex-governador, eleito deputado federal pelo PL. A movimentação foi denunciada como “armação” por Paes. “Falei desde o começo que Garotinho era um candidato laranja.” A não contabilização dos votos, diz Paes, é uma clara interferência no processo. “É um jogo ensaiado.”

Após a confirmação de que 204 mil eleitores fluminenses anularam o voto ao digitar 13 para governador, Paes denunciou Ruas na Justiça Eleitoral por espalhar material falso, o que configura crime eleitoral. Uma gráfica contratada pela campanha do PL teria sido responsável pela impressão de centenas de milhares de santinhos que associavam o nome do ex-prefeito aos números 13 e 22, além de panfletos nos quais Paes apresentava propostas em defesa do aborto e da legalização das drogas, bandeiras que jamais foram erguidas pelo candidato do PSD. Insistir em novas denúncias, no entanto, pode significar um novo erro. Para Mayra Goulart, a capacidade da direita de usar a Tecnologia da Informação é subdimensionada. “Todo esse caldo de cultura permite que eles informem o eleitor de maneira muito dissonante ao que os veículos de mídia tradicional fazem. Com isso, tornam invulneráveis às denúncias de corrupção e aos mais diversos escândalos aqueles candidatos que se amparam nessas bolhas”, conclui. •

Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Queda do muro’


Maurício Thuswohl

Repórter de CartaCapital no Rio de Janeiro

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Fonte: Carta Capital

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