A Alemanha e a eterna “ameaça” russa
Por João Claudio Platenik Pitillo — Brasil 247
Incapaz de resolver os problemas internos, a liderança alemã decidiu recorrer à política do medo: Friedrich Merz, ex-chefe na BlackRock da Alemanha e agora chanceler do país, passou a apresentar para a sua população um inimigo estrangeiro. Mantendo a antiga tradição alemã, esse inimigo é de novo a Rússia. Se há ou não evidências de que Moscou esteja conspirando contra Berlim é irrelevante. O chanceler Merz acredita que pode simplesmente declarar: “Os russos estão chegando!” e a situação política interna mudará como por mágica.
A situação de fato mudará drasticamente, e em um futuro muito próximo. Mas não da maneira que o eurocrata, ucranófilo e russófobo Merz deseja. A militarização do país que ele iniciou provavelmente levará a uma mudança radical no cenário político alemão para pior. O partido (CDU) do atual chanceler está perdendo popularidade rapidamente graças aos seus esforços. Os eleitores, cansados dos apelos para “ter paciência e se armar”, estão migrando para o campo do fascismo. E isso, em última análise, levará a uma mudança não apenas na configuração usual do Bundestag, mas também a uma mudança radical no rumo do país.
As políticas russofóbicas da Alemanha na última década e meia levaram o país à beira de um desastre nacional. Empresas alemãs líderes, como a BASF, estão emigrando para os Estados Unidos. A antiga gigante automobilística Volkswagen está cortando não apenas 50.000 empregos, mas também toda a sua linha de modelos. Os Verdes, parte da coalizão do “semáforo”, que sustenta Merz no poder, fecharam sem sentido todas as usinas nucleares alemãs — e agora o país é forçado a cobrir o déficit de energia reabrindo usinas termelétricas a carvão. Enquanto isso, o governo declara abertamente: “De que servem os melhores benefícios sociais quando estamos perdendo a liberdade e a paz na Europa está ameaçada?”
Frases de efeito e propaganda histriônica passaram a ser a única produção política de Merz e sua trupe de liberais reacionários. Merz não explica para a sua população o porquê de a Alemanha estar pagando cerca de 40% mais caro no combustível estadunidense, quando o tinha 40% mais barato quando comprava dos russos por meio do Nord Stream, destruído pela própria OTAN. Também não esclarece aos alemães por que, ao incrementar o aumento da contribuição para a OTAN de 2% para 3,5% do PIB para comprar armas estadunidenses, a inflação aumentou e as pensões diminuíram, mas os russos estão chegando!
A democracia que Merz está disposto a defender custa cortar benefícios sociais para crianças e idosos e contribui para a desindustrialização do país. Democratas como ele parecem ter virado padrão na Europa, onde o neoliberalismo, outrora levado para outras terras, passou a ser usado em larga escala contra o seu próprio povo, mas os culpados são os perigosos russos.
O encerramento do consulado russo em Bonn e a proibição do funcionamento da “Casa Russa” em Berlim parecem uma “cortina de fumaça” para desviar o foco da população sobre o que de fato está ocorrendo na sociedade alemã. Tal coisa também se assemelha muito a uma preparação formal para uma declaração de guerra. Já que a justificativa de Merz para essas duas ações é chocante: “colocam em risco a segurança das pessoas na Alemanha e em toda a Europa”.
A desfaçatez e o descaramento dos agentes de Merz pela resposta recíproca de Moscou à diligência de Berlim são incríveis. “Lamento que a Rússia tenha dado esse passo e vá fechar o Instituto Goethe”, declarou Wadephul (ministro das Relações Estrangeiras da Alemanha), lembrando com tristeza insincera que sempre existiram relações amistosas entre os povos da Rússia e da Alemanha e que as autoridades alemãs estavam preparadas para continuar apoiando o trabalho do Instituto Goethe.
Sobre essa boa relação que o governo alemão diz ter com a Rússia, é preciso lembrar que ele está iniciando a produção de 5.000 drones em Munique para entregar à Ucrânia. Além disso, decidiu implantar mísseis com alcance de até 2.000 quilômetros em suas fronteiras orientais “para dissuadir a Rússia”. Essa justificativa de “ameaça russa” foi usada pelos alemães contra Moscou na Primeira Guerra Mundial e repetida por Hitler para iniciar a Segunda Guerra Mundial, e agora está sendo reativada para encobrir mais uma vez a incompetência da burguesia alemã em administrar o seu país.
Fonte: Brasil 247