Kassio “errou” ao suspender ‘Exército do Lula’ e Meta comete “atrocidade” nestas eleições, diz Edinho
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O coordenador-geral da campanha do presidente Lula (PT), Edinho Silva, afirmou que o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), “errou” ao ordenar a derrubada do canal “Exército de Lula”, que contava com mais de 4 milhões de participantes no WhatsApp, e acusou a empresa Meta de cometer uma das maiores “atrocidades” e violências da história eleitoral brasileira ao boicotar conteúdos do presidente em benefício de Flávio Bolsonaro (PL).
Em entrevista à Folha de São Paulo, o dirigente relatou ter levado uma queixa direta ao presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, sobre a suspensão do grupo “Exército do Lula”. Ao tratar da atuação da Justiça Eleitoral, Edinho apontou que o magistrado equivocou-se na decisão: “Ele [ministro] errou. Se formos tirar a autonomia da organização social nas redes, estaremos enfraquecendo a democracia. Uma coisa é o direito de a sociedade se organizar nas redes, outra coisa é fake news. Combater fake news é uma obrigação legal, mas isso não pode ser confundido com o direito de organização da sociedade”, declarou o coordenador-geral, em referência ao canal do deputado André Janones (Avante-MG) que havia sido vinculado e registrado pela campanha para manter seu funcionamento até o julgamento do recurso.
Sobre a conduta da Meta — empresa que controla o Instagram, WhatsApp e Facebook —, Edinho Silva adiantou que a campanha petista peticionou providências no TSE e vai acionar organismos internacionais para denunciar a ingerência da multinacional no pleito. “Entramos na Justiça. O que a Meta está fazendo é talvez uma das maiores atrocidades do ponto de vista da disputa eleitoral brasileira, uma ingerência. Essa manipulação, por exemplo, da inteligência artificial é de uma gravidade absurda. Tanto é que estamos denunciando aos organismos internacionais, além de pedir providência ao TSE”, pontuou.
Edinho denunciou que os algoritmos e ferramentas da big tech atuaram de forma direcionada para frear o alcance de conteúdos lulistas enquanto impulsionavam o adversário. “Já vimos registrado que ela estava cerceando o acesso aos nossos conteúdos e liberando os conteúdos do nosso adversário. Aquilo que a gente postava era retido. O que o nosso adversário postava era organicamente impulsionado”, afirmou o presidente nacional do PT. Ele destacou também que a assimetria prejudicou a isonomia da disputa e revelou o reconhecimento do problema por parte da empresa: “a própria Meta reconheceu, está documentado, que houve um erro em reter os nossos conteúdos, em ter uma postura totalmente oposta em relação ao nosso adversário”.
Questionado sobre os fatores que levaram Flávio Bolsonaro a liderar o primeiro turno e as pesquisas de intenção de voto, Edinho Silva atribuiu o resultado ao desgaste gerado pela crise no Poder Judiciário. “O que conduziu Flávio foi a crise do Supremo. Atingiu o incumbente. Por mais que Lula tenha se posicionado a favor das investigações, aos olhos da sociedade, Supremo, STJ, TJ, tribunais, Congresso Nacional, é tudo sistema. É tudo, entre muitas aspas, governo. Lula pagou o preço da crise do Judiciário”, explicou. Ele negou que o PT tenha perdido a batalha narrativa e reafirmou que o eleitorado agora passa a avaliar o que representaria um eventual mandato do rival: “a sociedade começa a prestar mais atenção em quem é Flávio Bolsonaro. O que o governo Bolsonaro fez, quem congelou salário e aposentadoria? Quem cortou BPC e recursos da Farmácia Popular e desorganizou o SUS? Não podemos esquecer as 714 mil covas que o Brasil abriu durante a pandemia”.
Para o segundo turno e os confrontos diretos nos debates da televisão, a estratégia da candidatura de Lula será cobrar explicações detalhadas sobre as propostas econômicas e os cortes do adversário. “Essa ideia do tesouraço do Flávio deixou a sociedade muito preocupada. Tesoura vai cortar o quê? Imediatamente as pessoas fazem uma comparação com a motosserra do Milei na Argentina. Essa mobilização Brasil afora vai refletir nas pesquisas”, disse o coordenador. Edinho complementou que o medo da população advém das próprias declarações da oposição: “o medo é despertado pelo que Flávio Bolsonaro fala. Ninguém tem medo de algo que não existe. Quem falou em tesouraço e em reforma constitucional foi o Flávio Bolsonaro e a assessoria dele. Quando você fala em cortar R$ 200 bi, as pessoas raciocinam: que corte é esse que se vai executar?”.
O dirigente também adiantou os pontos que Lula pretende explorar no embate direto com o candidato do PL: “o Flávio tem muito que se explicar. Tem que dizer o que é o tesouraço, de onde cortar e como ele pode falar em segurança pública se condecora integrante do crime organizado”. Edinho assegurou que, caso existisse a previsão de confronto direto entre os dois no primeiro turno, o presidente teria comparecido, ressaltando que participar dos debates no segundo turno sempre foi uma prioridade.
A respeito dos rumores de que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) poderia ser anunciado antecipadamente para comandar o Ministério da Fazenda, o presidente do PT rechaçou a ideia por motivos de tática eleitoral. “Alckmin tem cumprido um papel muito importante e a vice-presidência já é um espaço robusto. Seria muita ingenuidade anunciar ministro no meio de uma disputa, mesmo sendo vice-presidente. Abriria debate de ocupação de cargo no meio da campanha. Seria uma insensatez política”, argumentou.
Edinho elogiou o trabalho da primeira-dama, Janja Lula da Silva, rebatendo qualquer rivalidade entre a participação dela e a de outros integrantes do governo na propaganda política. “Essa contradição não existe. São tarefas distintas. A Janja tem cumprido um papel importante, principalmente no diálogo com as mulheres, na defesa das políticas de combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. Tem opiniões importantes em relação às redes”, enfatizou. Ele revelou ainda que partiu de Janja o incentivo decisivo para alterar o formato da comunicação digital do candidato: “Ela defendeu muito. E o presidente nunca falou ‘não’, o problema é que na agenda nunca foi priorizado. Sempre aparecia um encaixe. No segundo turno, Janja foi fundamental para que blindassem a agenda dele, tanto é que a primeira do dia hoje é a gravação de selfie. Ela foi fundamental nessa construção”.
Frente aos comentários de Lula sobre o fato de esta ter sido a campanha “menos organizada” da qual participou, Edinho afirmou não se sentir responsabilizado pessoalmente pela declaração. “Não. Todo mundo sabe da minha relação com o presidente, da confiança que ele tem comigo. Ele fez críticas duras a uma estratégia que tentamos construir e não funcionou. Imediatamente corrigimos”, pontuou.
O coordenador negou ter se sentido desautorizado com a entrada de ex-ministros e governadores na articulação da campanha, mencionando ter sido um dos principais defensores da integração de nomes como Camilo Santana, Rafael Fonteles e Rui Costa. “Ao contrário, quem mais defendeu o Camilo na coordenação fui eu. Disse ao Rafael e ao Rui que eles deveriam vir ajudar a gente”, frisou. Ele acrescentou que divergências pontuais, como no caso da proibição total das plataformas de apostas eletrônicas (bets), fazem parte da dinâmica de equipe: “nunca deixei de conversar com Sidônio [Palmeira]. Tivemos posicionamento diferente, mas é o que eu digo: a coordenação de campanha é coletiva. Eu acho que a gente acerta juntos e também erramos juntos”.
Por fim, ao responder se estaria preparado para uma eventual ida do partido para a oposição após o pleito, Edinho Silva descartou a hipótese: “não, não estou preparado. Estou preparado para ser base do governo do presidente Lula e fazer um governo histórico”.
Fonte: Brasil 247