A dez dias das urnas, esforço deve ser sobre os 33 milhões de ausentes no 1º turno; vira voto não funciona com bolsonaristas; sufrágio vermelho Lula já tem
Por Marco Damiani — Brasil 247
A dez dias das urnas, em uma campanha que agora conta com a presença de grandes massas nas ruas, a candidatura à reeleição precisa lembrar de chamar, convidar, convocar e insistir pela presença dos mais de 33 milhões eleitores que faltaram no primeiro turno. A decisão será deles, assim como é correta a avaliação segundo a qual a definição do resultado de 4 de outubro ficou nas mãos dos que não quiserem participar. O não voto definiu a vitória apertada de Flávio Bolsonaro sobre Lula.
Além de contraproducente, acreditar que pode dar certo, a esta altura do campeonato, uma estratégia de ‘vira voto’ chega a ser ingenuidade. A escolha bolsonarista é cristalizada desde o surgimento dessa nefasta corrente política. Quem já tentou em família, entre amigos ou com as pessoas com quem têm relações sociais sabe que se trata de uma missão impossível.
O que pode, deve e precisa ser disputado, com bem maiores chances positivas, é o sufrágio dos que não compareceram à primeira volta. Para esse grande contingente, motes de salvação nacional em razão dos planos de entrega de País aos interesses dos Estados Unidos, de alerta sobre o exemplo da empobrecida Argentina em que o candidato bolsonarista se mira e, especialmente, do esvaziamento dos programas sociais criados nos governos de Lula encerra grande potencial de convencimento.
Convencer quem não foi antes a ir votar agora também não é tarefa fácil, como se vê nos índices muito semelhantes de abstenção em primeiro e segundo turnos nas últimas eleições presidenciais. Trata-se, no entanto, da melhor, para não dizer única, chance do momento.
No plano ideal, candidatos de direita como Augusto Cury, do Avante, e a incógnita ideológica Renan Santos, do Missão, deveriam ter sido procurados pelos partidos da coligação que sustenta a chapa Lula-Alckmin. Eles poderiam conclamar suas bases para contribuir na defesa do Brasil tal qual o conhecemos, e até somar na próxima gestão de governo. Que ninguém se espante.
Conversar, articular e propor está na base da democracia. Formação de alianças em segundo turno ocorrem, com naturalidade, em todos os grandes regimes democráticos do mundo. Aqui, ao que se vê, é um tabu para a esquerda.
A pesquisa Quaest divulgada ontem, que apontou empate técnico entre Lula e o filho do capitão em vias de ser expulso do Exército também aferiu que 40% dos votos dados ao candidato do Missão migram, agora, para o nome da extrema-direita. Mesmo com o respaldo de ter obtido mais de 2,6 milhões de votos no primeiro turno, Renan foi tratado com desprezo. Nenhum emissário o procurou, ainda que ele tenha mostrado as cortinas vermelhas de seu apartamento em sinal de aproximação.
Ontem, o ex-candidato do Missão, declarou que não irá votar no segundo turno. Cury abraçou Bolsonaro, após ter manifestado incerteza sobre como se posicionaria. Renan e Cury poderiam sim ter sido cooptados, mas seria preciso, ao menos, tentar.
Lula está em ascensão, e ainda assim precisa de fatos novos para vencer. Quanto mais amplas forem as manifestações de massa que certamente deverão ocorrer até o final da campanha, mais chance existirá de virar o jogo. Se ficar parecendo que apenas o PT está interessado na vitória de Lula, talvez não seja suficiente.
Fonte: Brasil 247