Brazil Journal e IstoÉ integraram rede de influência de Vorcaro sobre veículos de imprensa

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, construiu uma rede de influência sobre veículos de comunicação brasileiros por meio de investimentos, contratos publicitários e relações diretas com jornalistas e empresários do setor. Conversas obtidas pelo UOL revelam que o banqueiro interferia em conteúdos publicados pelo Brazil Journal e pela IstoÉ, além de atuar sobre reportagens do PlatôBR e negociar acordos com outros veículos para evitar notícias negativas sobre seus negócios.

Segundo reportagem publicada pelo UOL nesta quinta-feira (15), as mensagens mostram que Vorcaro não se limitava a financiar empresas de comunicação. Em determinadas situações, ele recebia textos antes da publicação, solicitava mudanças em reportagens, vetava referências a aliados políticos e determinava a retirada de conteúdos desfavoráveis ao Banco Master.

A atuação envolvia veículos de diferentes perfis editoriais, como Brazil Journal, IstoÉ, IstoÉ Dinheiro, PlatôBR, Diário do Centro do Mundo (DCM) e CartaCapital. As relações variavam entre participações societárias indiretas, patrocínios, negociações de investimentos e pagamentos que, segundo as mensagens, estavam associados ao controle de conteúdos.

Entre os principais interlocutores do banqueiro estavam o empresário Flávio Carneiro, seu amigo e assessor, e o jornalista Geraldo Samor, fundador do Brazil Journal. As conversas revelam uma dinâmica na qual decisões editoriais eram submetidas aos interesses de Vorcaro.

Brazil Journal submetia reportagens à avaliação de Vorcaro

No Brazil Journal, a influência do banqueiro se manifestava por meio de consultas feitas diretamente por Geraldo Samor antes da publicação de matérias relacionadas ao Banco Master.

A aproximação financeira ocorreu em 2023, quando Samor criou a BJ Conteúdo, empresa voltada à produção de vídeos e à realização de eventos. A Foone, pertencente a Flávio Carneiro, passou a deter 49,86% do negócio.

Em dezembro daquele ano, Vorcaro e Carneiro discutiram uma maneira de incluir Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro e proprietário da IstoÉ, na estrutura societária.

Carneiro demonstrou preocupação com a exposição pública dessa associação.

“Não dá pra ele aparecer como sócio do Geraldo no Brazil Journal. Vai sujar a água”, escreveu.

A alternativa discutida consistia em criar outra empresa para formalizar a participação. Carneiro sugeriu “fazer uma Foone 2 e pôr só o BJ lá”.

As mensagens posteriores mostram Samor encaminhando conteúdos para avaliação do banqueiro e atendendo a solicitações de mudanças.

Em fevereiro de 2024, o jornalista escreveu:

“Flávio acaba de me mandar o texto. Vou trabalhar. Você quer isso publicado amanhã cedo?”

Na manhã seguinte, Vorcaro solicitou uma alteração:

“A frase avenida pra agronegócio você pode tirar?”

Samor respondeu: “Atualizado”.

Em outra ocasião, durante a cobertura da aquisição do Will Bank, Vorcaro pediu que uma reportagem deixasse de mencionar o Voiter.

“Me faz um favor, tira o nome Voiter, vamos falar só que anunciamos reorganização societária”, escreveu.

A resposta do jornalista foi direta: “Mudei”.

Banqueiro também interferiu em cobertura de evento com ministros do STF

A relação entre Vorcaro e o Brazil Journal também aparece em conversas sobre um evento organizado pelo Banco Master em Londres, em abril de 2024, com a participação do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Samor encaminhou previamente o texto ao banqueiro e explicou:

“Flávio falou que você queria ver antes”.

Posteriormente, o jornalista enviou uma versão reduzida da reportagem e demonstrou discordância com os cortes realizados.

“Na nossa opinião, perdeu muito. Mas entendemos a limitação”, escreveu.

Na mesma conversa, Vorcaro solicitou que a matéria registrasse que três ministros do Supremo Tribunal Federal haviam se reunido privadamente com Blair antes do debate.

O banqueiro mencionou Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

Os diálogos mostram que Vorcaro procurava influenciar não apenas a abordagem das operações do Master, mas também a apresentação pública de seus contatos com autoridades.

Procurado pelo UOL para comentar as mensagens, Geraldo Samor não respondeu até a publicação da reportagem.

IstoÉ era considerada um veículo de maior controle pelo banqueiro

As mensagens também revelam a influência de Vorcaro sobre a IstoÉ e a IstoÉ Dinheiro, publicações controladas por Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro.

Flávio Carneiro mantinha investimentos nas revistas e funcionava como interlocutor entre o banqueiro e os veículos.

Em 2024, Vorcaro solicitou a Carneiro uma capa da IstoÉ Dinheiro dedicada à farmacêutica Biomm, empresa na qual havia investido.

Ao comentar a possibilidade de interferência na publicação, o dono do Master afirmou:

“Na IstoÉ é que controlamos mais”.

A declaração evidencia como o banqueiro avaliava sua capacidade de influenciar as decisões editoriais das publicações com as quais mantinha relações financeiras.

Em setembro daquele ano, Vorcaro também determinou que referências a determinados políticos fossem submetidas previamente à sua avaliação.

“Qualquer coisa de Ciro, Arthur, Hugo não pode sair nada sem me falar”, escreveu.

A mensagem fazia referência a Ciro Nogueira, Arthur Lira e Hugo Motta.

Carneiro respondeu:

“Vou colocar o Lira nessa lista agora”.

Os diálogos indicam que o interesse do banqueiro se estendia à cobertura de figuras influentes do Congresso Nacional, especialmente políticos com os quais mantinha relações ou sobre os quais desejava acompanhar o conteúdo publicado.

PlatôBR recebeu ordens para poupar políticos e atacar Cappelli

A interferência também alcançava o PlatôBR, veículo associado à atuação de Flávio Carneiro.

Em agosto de 2025, Vorcaro determinou que o site evitasse publicar conteúdos sobre os presidentes do PP e do União Brasil.

“Não deixa Platô falar de Ciro e Rueda”, escreveu, referindo-se a Ciro Nogueira e Antônio Rueda.

No mesmo mês, o banqueiro pediu uma atuação agressiva contra Ricardo Cappelli, então presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e pré-candidato ao governo do Distrito Federal.

“Tem que pegar o Platô e moer esse Cappelli”, ordenou Vorcaro.

Carneiro respondeu:

“Vamo desancar esse desgraçado”.

O empresário acrescentou que iria “alinhar isso no Platô e no Correio”.

As conversas mostram que o banqueiro procurava utilizar sua influência sobre os veículos tanto para proteger aliados quanto para atingir adversários.

Em outra troca de mensagens, Vorcaro reclamou da abordagem de uma entrevista concedida pelo então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, ao PlatôBR.

O banqueiro não gostou da referência aos precatórios no subtítulo.

“Colocar esse tema precatório no subtítulo também não é legal”, afirmou.

Mesmo depois de uma alteração na reportagem, voltou a reclamar da ênfase dada ao assunto. Carneiro respondeu: “Vamo alterar agora”.

Em abril de 2025, após o PlatôBR publicar notas negativas sobre o Banco Master, Carneiro também afirmou que pediria a retirada dos textos do ar.

O UOL procurou Flávio Carneiro para comentar suas relações com os veículos e as mensagens trocadas com Vorcaro, mas ainda aguardava manifestação.

DCM teria recebido pagamentos mensais para não criticar o Master

Outra frente da rede de influência envolvia o Diário do Centro do Mundo (DCM).

Segundo mensagens de Felipe Mourão, responsável pela reputação digital de Vorcaro, o site recebia pagamentos mensais em troca de não publicar críticas ao banqueiro ou ao Banco Master.

Em outubro de 2024, depois da publicação de uma nota desfavorável, Vorcaro determinou que Mourão estabelecesse “uma parceria direito” com o veículo, mediante “um valor mensal”.

A condição estabelecida pelo banqueiro era que não fosse publicada “uma frase com meu nome ou Master”.

De acordo com Mourão, um diretor do DCM quis conhecer os possíveis alvos de reportagens antes de concluir o acordo.

As mensagens indicam que a negociação também previa a possibilidade de publicar mensalmente “uma matéria positiva ou negativa de alguém”.

Em 21 de outubro, Mourão comunicou ao banqueiro que o acerto estava concluído:

“Dcm está pago e fechado”.

A interferência sobre o conteúdo teria continuado nos meses seguintes.

Em maio de 2025, após a publicação de um artigo crítico ao Banco Master, Vorcaro determinou que o material fosse retirado.

“Tirar isso imediato”, escreveu.

Segundo Mourão, o artigo foi apagado no mesmo dia.

As conversas também mostram que o banqueiro procurava impedir referências ao pai, Henrique Vorcaro, nas reportagens relacionadas a seus negócios.

CartaCapital manteve contratos e discutiu entrada de Vorcaro como sócio

A relação de Vorcaro com a CartaCapital começou antes dos episódios registrados nos demais veículos.

Em 2021, a revista firmou um contrato de patrocínio de cinco anos com o Banco Máxima, instituição que posteriormente passou a se chamar Banco Master.

Em dezembro de 2020, o banco já havia antecipado R$ 300 mil à publicação.

Os recursos contribuíam para o pagamento de despesas da revista, incluindo salários.

No início de 2021, a diretora Manuela Carta comunicou ao banqueiro que precisaria de “mais um recurso para a próxima folha de pagamentos”.

A relação comercial avançou para discussões sobre uma possível participação societária de Vorcaro na empresa.

Em agosto de 2023, a direção da revista e o banqueiro se reuniram para tratar da eventual entrada dele como sócio, possibilidade discutida havia aproximadamente um ano.

Três dias depois, Manuela encaminhou informações sobre as dívidas da publicação e indicou que aguardaria uma proposta.

Naquele mesmo período, segundo o UOL, a revista deixou a decisão sobre a publicação de uma reportagem em aberto para Vorcaro.

A negociação de compra, entretanto, não foi concluída.

Em 2024, Manuela voltou a procurar o banqueiro para solicitar um “adiantamento de publicidade”. Vorcaro se dispôs a oferecer ajuda “fora do banco”.

O UOL informou que não conseguiu contato com representantes do DCM e da CartaCapital para obter manifestações sobre os episódios.

Mensagens expõem relações entre financiamento e decisões editoriais

O conjunto de conversas revela diferentes mecanismos utilizados por Vorcaro para exercer influência sobre a cobertura jornalística de seus negócios e de personagens de seu interesse.

No Brazil Journal, as mensagens mostram a revisão de reportagens pelo banqueiro antes ou depois da publicação. Na IstoÉ, ele afirmava ter maior capacidade de controle. No PlatôBR, as ordens envolviam desde a retirada de notícias desfavoráveis até a orientação para atacar adversários.

Já no DCM, os diálogos apontam para pagamentos associados à ausência de críticas, enquanto a relação com a CartaCapital envolvia contratos publicitários, antecipações financeiras e negociações de participação societária.

Embora contratos de publicidade e investimentos em empresas jornalísticas não constituam, por si só, irregularidades, os diálogos divulgados pelo UOL levantam questionamentos sobre a independência editorial dos veículos mencionados e os limites entre relações comerciais e interferência na produção de notícias.

O material também mostra que os interesses do dono do Master ultrapassavam a imagem do banco. Vorcaro acompanhava a cobertura de políticos, ministros do STF, empresários e adversários, buscando influenciar a maneira como esses personagens apareciam na imprensa.

As revelações acrescentam uma dimensão ao caso Banco Master: além das operações financeiras sob investigação, as mensagens expõem uma estrutura de relacionamento com empresas de comunicação que, em diferentes episódios, teria sido utilizada para proteger a reputação do banqueiro e direcionar conteúdos jornalísticos.

Fonte: Brasil 247

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