Expedição revela 31 espécies potencialmente novas no Atlântico Sul
Por Christiane Cardoso — Revista Pesquisa Fapesp
Em apenas duas semanas, a expedição Designing the Future 3, realizada pelo Schmidt Ocean Institute, uma fundação privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos, a bordo do navio de pesquisa Falkor (too), identificou 31 novas espécies ainda não descritas ao largo da costa brasileira. A equipe — formada por 37 tripulantes (incluindo oficiais, técnicos navais e engenheiros), além de cerca de 30 cientistas de diversas áreas — utilizou tecnologias de ponta, como lasers, sistemas de escaneamento óptico em 3D e sequenciamento genético realizado a bordo, para caracterizar os organismos e acelerar sua identificação.
A missão, ocorrida em abril de 2026, entre Salvador e Fortaleza, foi coordenada por Karen Osborn, curadora do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian Institution (EUA), e teve como objetivo investigar a fauna que vive entre 200 e 1.200 metros de profundidade, nas zonas mesopelágica e batipelágica do Atlântico Sul tropical.
Essa faixa do oceano é palco da chamada migração vertical diária (MVD), considerada o maior movimento sincronizado de biomassa animal do planeta (confira no infográfico). Todas as noites — quando as águas da superfície estão escuras, dificultando a vida dos predadores —, bilhões de organismos deixam as profundezas e sobem para se alimentar. Ao amanhecer, fazem o caminho de volta. Nesse vaivém, ajudam a levar carbono das águas superficiais para o oceano profundo, contribuindo para regular o clima do planeta. É como se formassem um “elevador biológico” de carbono: ao se alimentar na superfície, esses animais incorporam carbono e, ao retornar às profundezas, o levam consigo, liberando-o pela respiração e pela excreção ou transferindo-o para outros organismos por meio da cadeia alimentar. Estudar esse processo, porém, não é tarefa fácil: essas regiões são de difícil acesso, e muitos dos organismos que vivem ali são extremamente frágeis.
Apesar dos avanços da oceanografia, o Atlântico Sul continua entre as regiões menos exploradas do planeta. “Nossa motivação foi estudar a diversidade desses organismos, suas adaptações e teias tróficas em uma área de águas internacionais ao largo do Nordeste brasileiro [entre Salvador e Fortaleza numa faixa distante entre 160 e 480 quilômetros da costa], onde o fundo do oceano está a 4.500 metros”, explica Marcelo Melo, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e integrante da expedição, cuja pesquisa conta com apoio da FAPESP.
Os resultados revelam o quanto ainda há para descobrir em águas abertas. “As grandes expedições dedicadas ao estudo da biodiversidade em mar aberto ocorreram ao longo do século 19, há cerca de dois séculos. Mesmo assim, seguimos encontrando novas espécies. Isso mostra que ainda existem vastas áreas dos oceanos que nunca foram exploradas cientificamente e guardam uma enorme diversidade desconhecida”, afirma Renato Nagata, professor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg).
Fonte: Revista Pesquisa Fapesp