Não basta ter a intenção de voto, é necessário garantir o voto em si
Por Evelize Pacheco — Fundação Perseu Abramo
Neste artigo, retomamos um fenômeno ocorrido nas eleições de 2022, de forma a lançar luz a um tema essencial para a reta final do pleito atual. Após o primeiro turno das eleições gerais de 2022, um aparente novo fenômeno eleitoral foi observado: a discrepância entre a maioria das pesquisas feitas às vésperas do pleito e os resultados das urnas. Para buscar entender porque os resultados de pesquisas de diferentes institutos foram tão discrepantes do resultado, o NOPPE realizou um estudo complementar as hipóteses levantadas inicialmente que giravam em torno dos limites metodológicos que os institutos encontraram para medir o bolsonarismo, propondo uma abordagem que colocava em foco o percentual de abstenção e os votos inválidos (brancos/nulos) na contagem dos votos totais. Imediatamente após o pleito, a leitura corrente do fenômeno concentrou-se em um possível erro das pesquisas ao subestimar a quantidade de eleitores de Bolsonaro, por um lado, e de um possível desconhecimento das táticas de mobilização do eleitorado bolsonarista, por outro.
Nos mais variados institutos, Jair Bolsonaro oscilava entre 36% (Datafolha) e 41% (Atlas) dos votos válidos, enquanto Lula variava entre 44% (Quaest) e 49,8% (Atlas). No pleito, Lula se estabeleceu em primeiro lugar com 48,43% dos votos válidos, conforme esperado, entretanto Jair Bolsonaro obteve 43,20%, representando um gap de 7,2 pontos percentuais (p.p.) no Datafolha, 6,2 p.p. no IPEC, 5,2 p.p. na Quaest e 2,1 p.p. na Atlas. Entretanto, considerando o eleitorado como um todo – com a contabilização dos votos brancos e nulos –, Lula obteve 36,6% dos votos, enquanto Bolsonaro teve 32,64%, Tebet 3,14% e Ciro 2,3%.
Através dessa comparação foi possível testar os limites das principais interpretações correntes, já mencionadas, e levantar a hipótese alternativa: não houve mais votos em Bolsonaro do que as pesquisas previam, e sim uma dificuldade na conversão das intenções de voto em Lula, Ciro e Tebet em voto consumado nas urnas. Nominalmente, os votos de Lula foram 57.259.504 (de 4 a 11 p.p. abaixo da margem de erro da Quaest, IPEC, Datafolha e Atlas), de Bolsonaro foram 51.071.325 (dentro da margem de erro prevista pelo Datafolha, IPEC, Quaest e 6 p.p. abaixo da margem de erro da Atlas) enquanto Ciro e Tebet conjuntamente atingiram 8.514.710 votos (de 3 a 5 p.p. abaixo da margem de erro da Quest, Datafolha e IPEC e dentro da margem de erro da Atlas).
Ou seja, a hipótese levantada pelo NOPPE e por outros analistas a partir dos dados, foi a de que as intenções de votos de Bolsonaro teriam sido de fato realizadas por seus eleitores, em quase sua totalidade, enquanto entre os eleitores de Lula, Ciro e Tebet esse contingente foi significativamente menor. As pesquisas tiveram, portanto, dificuldade em captar os votos totais de forma realista com o mapeamento das abstenções, por conta do que chamamos de abstenção enviesada no eleitorado. Isso não significa, contudo, que os institutos de pesquisa tentam errado em suas projeções eleitorais, mas que as pesquisas registram as preferências declaradas pelos entrevistados no momento de sua realização, enquanto o comparecimento efetivo às urnas pode ser afetado por eventos imprevistos, o que dificulta o mapeamento das abstenções.
Na época, essa possível explicação também foi mobilizada pelo cientista político Antonio Lavareda, então presidente do Instituto Ipespe, através da análise de que o eleitor lulista, mais vulnerável socialmente, não possuiu a mesma realização da intenção do que os eleitores bolsonaristas ou da terceira via, devido principalmente aos custos relacionados ao próprio processo de votação, como o de deslocamento. Além de demonstrar que esse fenômeno também foi observável em pleitos anteriores.
Nesse contexto, a luta pelo comparecimento no segundo turno foi travada, e por todo o Brasil medidas foram tomadas com objetivo de incentivar o transporte público e gratuito, democratizando o acesso às urnas: de forma praticamente inédita, a abstenção no segundo turno presidencial de 2022 recuou se comparada aos índices do primeiro turno. Ainda, um movimento criminoso encabeçado pela Polícia Rodoviária Federal, capitaneada por Silvinei Vasques (posteriormente exonerado e processado pela tentativa de interferência nas eleições de 2022), pôs em marcha uma série de operações que dificultaram o deslocamento de eleitores – com mais de duas mil blitzes no Nordeste brasileiro (contra pouco mais de quinhentas realizadas no Sudeste) – com vistas, aparentemente, a aprofundar a abstenção assimétrica (concentrada no eleitorado lulista).
Caso as abstenções apresentem novamente um viés, ou seja, sejam desproporcionalmente concentradas em um segmento demográfico característico do voto de algum candidato (por exemplo, mulheres comparecerem menos que os homens prejudicaria a concretização da intenção de voto em Lula; no exemplo oposto, se a população evangélica comparecer menos que o previsto, há prejuízo para a candidatura de Flávio Bolsonaro), há risco de um resultado diferente do cenário apresentado pelas pesquisas de véspera/da reta final do primeiro turno.
Para evitar que tal quadro se repita, reforçamos que nessa reta final é necessário atentar-se não somente para as intenções de voto, mas também garantir que tal intenção se converta efetivamente em votos na urna – seja por meio da conquista do voto, seja para garantir que o direito das pessoas mais vulneráveis se deslocarem seja garantido. Assim, é desejável repetir os esforços e a mobilização vista no segundo turno presidencial de 2022 já nesse primeiro turno de 2026, possível de ser realizada em condições muito mais democráticas do que naquele ano, visando combater pressões de qualquer ordem contra o comparecimento.
Matheus Tancredo Toledo (coordenador), Veronica Guibu, Giovanna Marquesano Tabanes (analistas responsáveis pela nota) e Sofia Toledo formam a equipe do NOPPE (Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos) da Fundação Perseu Abramo.
Fonte: Fundação Perseu Abramo