‘O Discord é pior que a rua’, alerta pai de uma vítima de abusos na plataforma

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Por Ana Luiza Basilio — Carta Capital

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Em livro lançado em 2025, Paulo Zsa Zsa narra a angustiante luta para salvar a filha de predadores que a induziam à automutilação e ao suicídio

Em julho deste ano, uma adolescente de 13 anos morreu em Naviraí, no Mato Grosso do Sul, após ser induzida ao suicídio por criminosos dentro de uma comunidade do Discord. A morte teria sido transmitida ao vivo em uma live da plataforma. O caso repercutiu e levou a Agência Nacional de Proteção de Dados, vinculada ao Ministério da Justiça, a suspender a funcionalidade de transmissão ao vivo da plataforma no Brasil.

O grave episódio fez Paulo Zsa Zsa reviver o gosto amargo de uma quase tragédia familiar envolvendo sua filha, com 12 anos à época. Júlia se automutilou em casa, incentivada por usuários de uma comunidade da plataforma. A situação desnudou ao pai um problema até então desconhecido, mas que convivia com a família intimamente, dentro de casa.

“Eu não fazia a menor ideia do que acontecia com a minha filha. Esse foi o meu primeiro erro, e é o erro da maioria dos pais. Na teoria, ela estava protegida, no quarto ao lado” , afirmou Paulo à reportagem de CartaCapital. O empresário, que usa pseudônonimos para preservar a imagem de sua família, narrou a história no livro Aconteceu com a Minha Filha, lançado em maio de 2025, pela Geração Editorial.

A obra nasceu com o intuito de alertar outras famílias para a questão, que tem como pano de fundo uma questão geracional. “Quando essas coisas começaram a acontecer com a minha filha, eu não sabia que existia o Discord. Não fazia a menor ideia do que era aquele ecossistema. Mesmo hoje, com o debate público e mais casos vindo à tona, muita gente ainda não conhece essa plataforma”, avalia.

Além da falta de compromisso da empresa em proteger crianças e adolescentes, o empresário observa que grande parte dos pais e responsáveis tiveram uma experiência de vida mais analógica, ao passo que as novas gerações já nascem conectadas às telas. “De alguma forma, essa incompreensão, ignorância mesmo, faz essas plataformas prosperarem. A sorte é que temos falado mais sobre essa problemática”. Hoje, consciente, o pai é taxativo: “O Discord tem que ser banido”.

O episódio de automutilação de Júlia*, clímax do livro, foi precedido de outros episódios igualmente preocupantes, entre eles uma simulação de overdose e uma tentativa de suicídio. A jovem elaborava, desde os cinco anos de idade, o luto pela mãe, que faleceu de câncer cerebral. A perda fez com que o pai se mudasse de Brasília para o Rio de Janeiro, na tentativa de um recomeço.

Ao retomar os estudos em uma nova escola, Júlia passou a enfrentar bullying e rejeição por parte dos colegas, já entrosados. Foi no contexto de difícil adaptação que Paulo deu um celular à filha, na esperança de que o aparelho pudesse contribuir com a sua interação. A entrada da adolescente no mundo digital, sem mediação, acabou se tornando motivo de culpa ao pai.

Paulo conta que a porta de entrada da adolescente ao Discord foi o Roblox, uma plataforma online de jogos, na qual os usuários também podem interagir em chats de conversa. “É um jogo altamente viciante, que envolve monetização, onde você gasta dinheiro para construir seu personagem. Só que o Roblox tem uma moderação, se você fala algo inapropriado é banido. Os aliciadores usam desses espaços para convidar aos grupos do Discord”, diz Paulo, que teve de lidar com um sentimento de culpa ao longo do processo.

“Há dois anos, ninguém falava de Discord, de ‘lulz’, nem sobre os desafios de internet e suas consequências. Isso ainda aparecia de maneira muito esporádica”, relembra. “Essas coisas apareciam de vez em quando, como o desafio da Baleia Azul [no qual as vítimas são incentivadas a praticar atos de automutilação] e o caso da menina que cheirou aerossol”.

Trecho do livro ‘Aconteceu com a Minha Filha’. Imagem: Divulgação/ Geração Editorial

Paulo diz não ter dúvidas de que ambientes como o Discord podem ser muito mais perigosos que a realidade das ruas. “Se sua filha sai, vai para uma praça e está em uma situação de risco, alguém pode ver e acionar a polícia. No computador, dentro do Discord, não tem quem lhe avise”, lamenta.

“Temos que superar o pudor, sabe? A maioria dos pais que eu converso se sentem invadindo a privacidade dos filhos ao fiscalizar os acessos na internet. Eu também não me sentia bem, mas temos de esquecer isso”, acrescenta o autor, que recomenda que os pais pesquisem sobre a plataforma nos meios de acesso dos filhos à internet, sejam computadores ou celulares.

“A minha orientação é a de que os pais acessem o Discord. Aparece um monte de grupos chamados servidores. Clique em um deles, com seu filho do lado, e comece a ler o que se fala ali. Bate desespero. O que se tem são crianças de 10, 12 anos em grupos que tratam de pedofilia, nazismo, maus tratos a animais, misoginia. É uma violência imputando a outra. É assustador! E ninguém me contou, eu vi”.

Para Paulo, a decisão da ANPD de banir as transmissões online da plataforma são insuficientes diante dos perigos aos quais crianças e adolescentes estão expostos. “Depois de um episódio como esse, a plataforma vem se justificar, alega que existe uma moderação, uma política de proteção. A minha opinião é: o Discord precisa ser banido, porque eles não querem resolver o problema”, avalia o autor.

“Não há uma ferramenta tecnológica disponível para evitar que crianças se mutilem ao vivo? Claro que eles têm tecnologia. A questão é que eles ganham com essas situações, porque elas dão cliques, engajamento”, criticou.

Imagem: Divulgação/ Geração Editorial

O caso de Júlia definitivamente não é isolado. Recentemente, CartaCapital entrevistou a delegada Lisandrea Colabuono, que integra o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad) da Polícia Civil de São Paulo, sobre o aliciamento de crianças e adolescentes em plataformas digitais, como o Telegram. Ela observa que as vítimas são, em 95% dos casos, meninas de 6 a 14 anos, cooptadas ou aliciadas em jogos online, ou redes sociais com possibilidade de interação. O Discord atua na transmissão dos crimes, alerta.

O autor defende a expansão da educação midiática aos diferentes públicos, sobretudo considerando a distância que há entre os mais jovens e os mais velhos diante das ferramentas digitais. “Acho que a gente já evoluiu nesse debate. Um marco foi a série Adolescência [lançada pela Netflix], que desmistificou uma questão importante: a de que problemas com a exposição de crianças e adolescentes nas redes acontece com qualquer família, não necessariamente com uma família disfuncional, entende?”.

Outro ponto positivo, na visão de Paulo, foi a proibição do uso de celulares nas escolas, mas ainda há muito por fazer. “É um problema mundial, não só do Brasil. Enfrentamos uma epidemia de crimes online, e ninguém sabe ao certo como lidar. E, nesse ponto, ainda persiste a questão geracional. Pais, professores, advogados, juízes… Muitos têm dificuldade de entender que mundo é esse”, observa.

“Fomos criados no mundo offline e essa geração praticamente nasceu com a tela na mão. Hoje estamos aqui falando de Discord, amanhã já tem outra coisa acontecendo. Desafio qualquer pessoa consciente a provar o que acontece naquela plataforma”.

Apesar dos desafios, Paulo conta que Júlia superou os graves episódios envolvendo a exposição no Discord. A adolescente continua a ter acesso ao celular, mas sob regras rígidas, como restrição de horários e ferramentas de controle parental. As plataformas de jogos seguem proibidas. “Júlia é uma pessoa em adição. Você não vai deixar sua filha beber se ela é alcoólatra, é a mesma coisa com as telas. Mas ela é consciente do que passou, sabe que aquilo não foi bom pra ela”, observa o pai.

“Julia hoje é uma menina de 15 para 16 anos, com os problemas típicos de qualquer adolescente no mundo offline: estudos, namorados, enfim. Ela tem amigos, é popular, faz teatro, pratica esportes… Mas foi um processo duro, doloroso e eu continuo atento. Por sorte, descobri a tempo o que estava acontecendo com ela”, comenta o autor, antes fazer um apelo:

“Pais, se informem, procurem saber. Eu sei que é uma tema difícil, que inclusive interpela famílias que têm outra realidade, pouco conhecimento tecnológico. Na dúvida, tirem o celular. E mais: não deixem seus filhos jogar online. Essas plataformas [Discord, Telegram] descortinam um mundo terrível que não serve a nós, adultos. Imaginem, então, para crianças e adolescentes.”


Ana Luiza Basilio

Repórter do site de CartaCapital

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Fonte: Carta Capital

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