Dependência externa de fertilizantes ameaça a soberania alimentar do Brasil

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Por Rodrigo Martins — Carta Capital

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Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis

Quase 90% dos insumos usados nas lavouras brasileiras vêm de fora, deixando o País vulnerável a choques no mercado e oscilações de preços

Por Francismar Ferreira, Mahatma Ramos dos Santos e Ticiana de Oliveira Alvares*

O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas sua agricultura permanece fortemente dependente de insumos produzidos no exterior. No caso dos fertilizantes, essa dependência externa ultrapassou 88% em 2025, representando uma grave vulnerabilidade. O País é o único grande produtor global de alimentos com elevada dependência externa de fertilizantes.

Em tempos de guerra, os riscos à nossa segurança alimentar e economia ficam ainda mais evidentes, sobretudo pelo fato das importações se concentrarem em poucos países. As guerras da Ucrânia e do Oriente Médio restringiram a oferta, impactaram o custo dos fretes e os preços dos insumos como o gás natural e o enxofre, gerando alta volatilidade nos preços dos fertilizantes.

Ademais, priorizando o abastecimento nacional, Rússia e China – dois dos três maiores produtores mundiais de fertilizantes – impuseram restrições às exportações, reduzindo ainda mais a oferta mundial.

A soberania de um país não se mede apenas pela capacidade de defender suas fronteiras ou de produzir energia. Ela também depende da capacidade de garantir os insumos essenciais ao funcionamento de sua economia e à segurança de sua população.

Nesse sentido, o Plano Nacional de Fertilizantes representa um avanço importante para o País, ao colocar como objetivo a redução de 50% da dependência externa desse insumo até 2050, mas é preciso avançar e acelerar sua implementação, fortalecer sua governança e criar mecanismos permanentes de monitoramento de seus resultados.

O retorno da Petrobras ao segmento de fertilizantes em 2023, por meio da reativação das três fábricas – Bahia, Sergipe e Paraná – foi fundamental. As três, somadas, têm capacidade para suprir 20% da demanda de nitrogenados e já estão em operação.

A conclusão das obras da fábrica de Três Lagoas (MS), prevista para 2029, suprirá mais 15% da demanda nacional desse insumo. Em relação aos fosfatados, há cinco novos projetos de iniciativa privada em andamento:  Uberaba (MG), Tapira (MG), Cajati (SP), Barbacena (PA) e Paranaguá (PR). Quando concluídos, poderão reduzir em 20% a dependência externa de fosfatados. Para os potássicos, não há previsão de aumento da produção no curto prazo.

Estes esforços representam um passo importante para ampliar a oferta interna. Além dessas iniciativas, o Ineep e a FUP defendem o fortalecimento da Petrobras na cadeia, com ampliação da capacidade produtiva sobretudo em fertilizantes de alta eficiência, mas também nos segmentos de fosfatados, potássicos e na inserção no mercado de misturas.

Outras medidas devem visar a redução dos preços domésticos e a ampliação da oferta à agricultura familiar, responsável pela segurança alimentar nacional. Além disso, o Brasil precisa diversificar a origem de suas importações e criar mecanismos de investimentos em cadeias emergentes e novas tecnologias, como os bioinsumos, remineralizadores e, no médio prazo, em fertilizantes sintéticos.

Reduzir a dependência externa em fertilizantes é questão de soberania nacional e segurança alimentar, além de política agrícola e industrial. Ademais, é uma oportunidade para promover uma agricultura de baixo carbono, ampliar a eficiência e a produtividade em áreas já utilizadas e, assim, contribuir para frear a expansão da fronteira agrícola sobre novas áreas.

*Francismar Ferreira é doutor em Geografia pela UFES, coordenador de pesquisas do Ineep e pesquisador do Instituto na área de Exploração e Produção. Mahatma Ramos dos Santos é mestre e doutor em Sociologia pela UFRJ, diretor técnico do Ineep e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (CDESS). Ticiana Alvares Oliveira é mestre e doutora em Economia Política Internacional pela UFRJ e diretora técnica do Ineep.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


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Fonte: Carta Capital

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