A refundação da democracia passa por nós

0

Por Sara York — Brasil 247

A recente cobertura da imprensa internacional sobre o cenário político-econômico brasileiro insiste em diagnosticar o país através da lente do encravamento, uma democracia aprisionada entre o fantasma do patrimonialismo, a rigidez orçamentária e a polarização de elites que se alternam no poder sem rasgar o tecido das desigualdades estruturais. Contudo, ao olhar para a imagem do Cristo Redentor de olhos tapados — alegoria da cegueira institucional diante das nossas crises recorrentes a matéria do The Economist—, escapa à análise eurocêntrica o que realmente move a história nos momentos de penumbra e incerteza que é a emergência de novos sujeitos políticos.

A nossa jovem democracia, erguida sobre os escombros de um regime autoritário e sobre fundações nunca totalmente superadas da escravização e da eugenia social, vive sob o signo do risco contínuo. Não se trata apenas de uma fragilidade eleitoral ou fiscal, mas de uma crise ontológica de representação. As saídas desenhadas nas cúpulas de Brasília ou do mercado financeiro teimam em reproduzir o mesmo perfil de liderança — majoritariamente branca, masculina/masculinista, cisgênera e sem deficiência —, perpetuando uma cidadania de geometria variável.

O epicentro dessa vulnerabilidade estrutural que se afirma a nossa maior aposta histórica, a ocupação do espaço público e institucional por pessoas negras, trans e pessoas com deficiência, ainda que sejamos poucos. Um presidente sem um dos dedos é um sinal aberto sobre o corpo (d)eficiente. Estes grupos não representam meros “segmentos identitários” ou pautas secundárias a serem adicionadas às margens de um plano de governo. São, em si mesmos, portadores de uma episteme revolucionária sobre o que significa gerir o comum, o cuidado e a justiça.

A presença de mulheres e homens negros, de pessoas trans e de pessoas com deficiência na formulação de políticas públicas desestabiliza a arquitetura tradicional do poder. Enquanto o debate tradicional se reduz à disputa por tetos de gastos e alianças fisiológicas, estes atores introduzem a urgência da vida concreta. Falar sobre acessibilidade antivalidista, racismo ambiental, letramento de gênero e redistribuição orçamentária não é fragmentar a política, mas radicalizá-la, é exigir que o Estado funcione a partir da complexidade de quem habita as suas margens.

Historicamente relegados à condição de alvos da violência estatal ou de objetos de tutela assistencialista, os corpos negros, trans e com deficiência converteram as suas vivências de resistência em saber político. A trajetória de luta pela sobrevivência diária gera uma visão crítica sobre as falhas do aparelho de Estado que nenhum especialista de gabinete consegue sintetizar. Quando estes corpos ocupam a academia, o parlamento, o judiciário e a produção cultural, eles recusam o papel de coadjuvantes passivos para assumirem a condição de formuladores do futuro.

Uma democracia que exclui a neurodiversidade, a acessibilidade universal, a equidade racial e o direito à identidade de gênero é uma democracia incompleta, permanentemente ameaçada pelo fascismo e pelo autoritarismo. A verdadeira salvaguarda contra o retrocesso democrático não virá dos acordos de bastidor das elites políticas tradicionais, mas do fortalecimento institucional daqueles que sempre souberam o custo real da ausência de direitos.

Apostar nestes novos atores sociais não é uma concessão utópica; é um imperativo pragmático para a sobrevivência do pacto civilizatório brasileiro. Se a nossa jovem democracia está sempre em risco, a sua única possibilidade de amadurecimento e consolidação passa pela ampliação radical do seu sujeito político. É na travessia das margens para o centro que o Brasil deixará de ser o “país do futuro” congelado no tempo para se tornar, finalmente, um país do presente para todas, todos e todes.
O facto de contarmos com um homem com deficiência física, amputado, na presidência da República é um marco que exige permanente reflexão — sobretudo quando parte dele próprio a ampliação pública da imagem de quem atravessa a velhice sob novos registos de existência, subjetividade e linguagem.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *