Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Uma grande retrospectiva revela a amplitude da obra do artista paraense

A escolha da palavra “armadilha” para o título de Ismael Nery: Armadilha Moderna, na Pinacoteca de São Paulo, não é só precisa, mas também incisiva.

O curador Yuri Quevedo busca, a partir das 230 obras reunidas nesta retrospectiva, explicitar os equívocos abrigados nas muitas tentativas de se compreender o lugar do pintor na produção artística brasileira.

Nascido no Pará, em 1900, Nery formou-se na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e cultivou muitos talentos. Além de pintar e desenhar, dedicou-se à poesia, à arquitetura, à cenografia e ao balé.

Seus quadros foram frequentemente associados ao cubismo, ao surrealismo e ao modernismo. Mas, como observa Quevedo, seu traço não estilhaça os corpos em múltiplos ângulos, como o dos cubistas; no seu caso, é como se os remontasse, peça a peça. Nery, de toda forma, nunca se encaixou em nenhum desses movimentos. Isso, aliás, não parecia incomodá-lo. Avesso ao mercado, às vezes doava os quadros ou, simplesmente, os descartava.

Nery morreu aos 33 anos, de tuberculose, e talvez também por isso seu nome tenha levado tempo para se juntar àqueles considerados grandes. O olhar amplificado, e de certa forma livre, sobre sua obra torna esta exposição um feito.

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ismael Nery múltiplo’


Ana Paula Sousa

Editora de Cultura da edição impressa de CartaCapital. Doutora em Sociologia pela Unicamp.

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Fonte: Carta Capital

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