Uma questão de moral
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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O cartunista britânico Darryl Cunningham diz que seu principal incômodo com a direita é a reiterada tentativa de opressão
O cartunista e escritor britânico Darryl Cunningham construiu uma trajetória singular ao combinar quadrinhos e não ficção para abordar temas como saúde mental, ciência, economia e política. Seu trabalho se destaca por sua capacidade de transformar assuntos complexos em narrativas visuais acessíveis, sempre atravessadas por uma perspectiva moral clara sobre desigualdade e concentração de poder.
Autor de obras como Psychiatric Tales (2010), Science Tales (2013) e Billionaires (2019), Cunningham consolidou-se como uma das principais referências dos quadrinhos jornalísticos contemporâneos.
Em 2022, seu trabalho chegou de forma mais direta aos leitores brasileiros com a publicação de A Rússia de Putin: A Ascensão de Um Ditador, pela QS Comics, obra que investiga a trajetória de Vladimir Putin e analisa os mecanismos de poder, violência e influência geopolítica associados ao seu governo.
Nesta entrevista, Cunningham discute de que forma a origem de classe moldou sua visão de mundo, sua crítica aos bilionários e à concentração de poder; analisa os limites da Inteligência Artificial na criação artística e reflete sobre os desafios de se representar politicamente o presente em um cenário de mudanças aceleradas.
“Sou contra bilionários porque, a partir de certo nível de riqueza, conseguem comprar meios de comunicação e influenciar a política de forma profunda. Podem, literalmente, reconstruir a realidade”
CartaCapital: Você vem da Grã-Bretanha, uma sociedade historicamente estruturada por classes. Como isso moldou o seu trabalho criativo?
Darryl Cunningham: Venho de uma família de classe trabalhadora. Meus pais trabalhavam em fábricas locais, em uma cidade que antes era centrada na indústria têxtil. Mas essa indústria entrou em declínio e esses empregos foram para o Extremo Oriente. Cresci em um período bastante turbulento. Havia as greves dos mineiros e, ainda, o conflito na Irlanda do Norte acontecendo ao fundo. Isso tudo me fez ter consciência política desde cedo. Eu percebia que havia um partido que representava os mais ricos e outro, o Partido Trabalhista, que representava a classe trabalhadora.
CC: O que fez você decidir escrever sobre essas questões e adotar uma visão mais coletiva? Que tipo de sensibilidade levou você a pensar essas questões de forma política e racional?
DC: Acho que sempre vi as coisas a partir de uma perspectiva moral. Quando olho para a direita política, vejo grupos que querem oprimir outros e isso me incomoda. Estamos em um cenário pós-Brexit, com partidos de extrema-direita crescendo e podendo chegar ao poder. Eles costumam ser anti-imigração, anti-LGBT, antimulheres, e isso vai contra o meu senso de decência. Eu gostaria de ver a decência sendo defendida pelos políticos, e sinto que isso está cada vez mais raro. Essa é a perspectiva moral que me acompanha desde a infância.
Histórias visuais. Cunningham combina quadrinhos e não ficção para abordar temas como saúde mental, ciência, economia e política. Sua perspectiva é sempre aquela de alguém que se posiciona firmemente contra a desigualdade e a concentração de poder – Imagem: Darryl Cunninghan e Redes Sociais
CC: No seu trabalho, há uma crítica a figuras como Jeff Bezos, Ayn Rand, Elon Musk ou até Vladimir Putin, personalidades que moldam a sociedade a partir da riqueza e da influência. O que elas despertam em você?
DC: Não sou contra as pessoas ficarem ricas, nem milionárias ou multimilionárias. Mas sou contra bilionários porque, a partir de certo nível de riqueza, essas pessoas conseguem comprar meios de comunicação e influenciar a política de forma profunda. Elas podem, literalmente, reconstruir a realidade para atender aos seus interesses. Isso é ruim para a sociedade. Ao se tornarem extremamente ricas, elas se afastam da realidade das pessoas comuns. Isso é muito visível nos bilionários do Vale do Silício. Eles parecem viver em uma espécie de bolha e passam a ver a maioria das pessoas como irrelevantes. É como se todos fossem figurantes em um filme no qual eles são os protagonistas. Às vezes, parecem até se enxergar como figuras quase divinas.
CC: Curiosamente, muitos desses mesmos empresários defendem ideias como renda básica universal, em parte porque acreditam que a Inteligência Artificial pode substituir o trabalho humano. Você vê a IA como um risco real?
DC: Quando os sintetizadores surgiram na música, muitos acharam que substituiriam os músicos. Mas eles apenas se tornaram mais um instrumento. A IA vai seguir um caminho parecido. Vai encontrar seu lugar, mas não vai substituir tudo. Também há uma questão econômica: não está claro como isso vai se sustentar no longo prazo. Já vimos outras tecnologias, como realidade virtual ou impressão 3D, que foram anunciadas como revolucionárias, mas acabaram ocupando nichos específicos. A IA pode acabar seguindo esse padrão. Além disso, há questões ambientais e de consumo de recursos. Não sei o quão sustentável esse setor será nos próximos anos.
“Pediram-me para escrever um livro sobre Donald Trump, mas eu não quis, porque já existem muitos. Então, decidi escrever sobre as figuras ao redor dele”
CC: Como artista, você se incomoda com o fato de a IA ser construída a partir do uso de conteúdos de outros criadores?
DC: Sim. Acho que esses sistemas basicamente pegam o trabalho de outras pessoas e reorganizam. Por isso não acredito que isso possa gerar algo realmente original. A originalidade vem da experiência humana, e a IA não tem isso. O que ela produz é mais como uma colagem. Pode ser interessante, mas não é original.
CC: Por que você escolheu os quadrinhos como linguagem?
DC: Eu gostava muito de quadrinhos quando era criança. Eles me ajudaram a aprender a ler. Escrever e desenhar sempre foram coisas naturais para mim. Juntar os dois foi, então, algo bastante óbvio.
CC: Como você percebe a recepção do seu trabalho?
DC: Os livros sobre saúde mental geraram respostas mais pessoais. As pessoas me escreviam contando suas histórias. Já os livros políticos são recebidos mais como obras de análise. Curiosamente, não recebo tanta crítica quanto se poderia imaginar. Acho que quem discorda simplesmente não lê. Nos meus livros sobre saúde mental, foquei na experiência individual, inclusive na minha própria. Não explorei tanto o contexto social ou econômico mais amplo, como nos quadrinhos de política.
“Inspirações”. Musk, Putin, Trump e Bezos são algumas das figuras criticadas no trabalho do cartunista. “É como se todos fossem figurantes em um filme no qual eles são protagonistas”, diz o autor – Imagem: Mikhail Metze/AFP, Mika Tsukamoto/Força Aérea dos EUA, Charly Triballeau/AFP e Ludovic Marin/AFP
CC: E como é o seu processo de pesquisa?
DC: Leio tudo que posso: biografias, reportagens e, às vezes, artigos científicos. Por exemplo, para escrever sobre Robert F. Kennedy Jr., precisei estudar questões relacionadas a vacinas para garantir que os fatos estivessem corretos.
CC: E no caso de seu novo trabalho?
DC: Pediram-me para escrever um livro sobre Donald Trump, mas eu não quis, porque já existem muitos. Então, decidi escrever sobre as figuras ao redor dele. Muitas vezes ouvimos os nomes, mas não sabemos quem realmente são. É um livro dividido em capítulos, cada um sobre uma figura diferente, como Steve Bannon e outros membros da administração. Curiosamente, algumas dessas pessoas, como Pam Bondi, foram demitidas desde que comecei a escrever. O livro está saindo na França, agora em outubro, e também próximo das eleições de meio de mandato (midterms), em novembro, nos Estados Unidos. Mas esse é sempre o problema de escrever sobre política contemporânea: tudo muda muito rápido, então o trabalho inevitavelmente fica um pouco desatualizado. •
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma questão de moral’
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Fonte: Carta Capital