Memórias do cárcere
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Com quatro livros publicados em menos de uma década, Marcinho VP busca recontar a própria história e, de quebra, ter alguns anos descontados de sua extensa pena
Por que Marcinho VP escreve tanto? Quatro livros em menos de uma década. Uma obra que já ganhou dimensões bíblicas. Só A Cor da Lei, seu trabalho mais recente, publicado no ano passado, soma 498 páginas.
Considerando que ele está preso há três décadas, pode-se imaginar que escreva por necessidade de expressão. Talvez pelo desejo de disputar a própria imagem ou como forma de organizar psiquicamente o tempo no cárcere.
Para alguém que, na última década, passou a escrever compulsivamente de dentro da prisão, pode haver também a ambição intelectual e a busca por reconhecimento. Mas há uma consequência mais objetiva e mensurável nessa escrita: a remição da pena. Os títulos lançados já lhe renderam 384 dias a menos atrás das grades. E, no que depender dele, esse número vai aumentar. Já anunciou outro lançamento para breve e diz ter mais dois prontos.
Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, ficou conhecido nos anos 1990 como um dos principais nomes do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Apontado pela polícia como chefe do tráfico no Complexo do Alemão e liderança do Comando Vermelho, foi preso em agosto de 1996, aos 20 anos, e nunca mais deixou o sistema penitenciário.
Acumulou condenações por homicídio, tráfico e associação criminosa e, mesmo preso, seguiu apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças da facção. Em O Direito Penal do Inimigo: Verdades e Posições (Gramma), seu primeiro livro, de 2017, conta que foi jogado numa cela úmida do presídio de segurança máxima de Bangu I, junto aos fundadores do Comando Vermelho.
Talvez Márcio dos Santos Nepomuceno escreva justamente para disputar o personagem Marcinho VP. Durante décadas, sua imagem pública foi construída por policiais, promotores, juízes e jornalistas, que fizeram dele um dos nomes mais conhecidos do crime organizado carioca. Nos livros, o movimento se inverte. É ele quem escolhe o começo da história, seleciona as lembranças, apresenta seus mortos e tenta explicar suas escolhas.
No primeiro livro, Marcinho volta à Vila Norma, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, à escola que abandonou, aos desenhos animados, às brincadeiras de rua. Vendia limão e verdura na feira, sorvete na praia, bala no trem.
Lembra nomes, apelidos, festas juninas, amigos que morreram cedo. Nesses cruzamentos entre as memórias do passado e a consciência crítica do presente, a escrita ganha força. “Antes de mais nada, isto é um livro”, escreve em O Direito Penal do Inimigo. “Mas é também o livro de um preso, e a prisão é sempre obstáculo.”

Com a “voz embargada pelo cimento”, ele diz que “a maior parte dos presos brasileiros é analfabeta”. Há exagero no diagnóstico. Dados do Infopen próximos ao ano da publicação do seu primeiro livro apontavam cerca de 3% de analfabetos entre os presos. Confirmavam, porém, o problema de fundo. Mais da metade, 51,3%, não havia concluído o Ensino Fundamental. Em 2024, dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais apontavam 2,2% de presos analfabetos. A baixa escolaridade seguia como característica marcante da população carcerária.
Marcinho afirma não fazer apologia do crime nem querer se colocar como vítima. “Errei e pago até os dias de hoje pelas escolhas equivocadas que fiz no passado”, escreve na nota de abertura. Ao mesmo tempo, desde a primeira obra aparece uma figura que atravessaria as seguintes, a ideia do “inimigo”. Do Direito Penal, Marcinho toma emprestado um conceito que desloca o olhar do crime para a forma como o Estado escolhe quem punir e como punir.
Quatro anos depois do primeiro livro, em 2021, o autor encarcerado buscou na ficção outra forma de tratar os mesmos temas. Preso de Guerra (Umanos) acompanha João Grandão, personagem que atravessa três décadas de prisão enquanto sua história se mistura a episódios reais da ditadura. O “inimigo” muda de contexto. Se, no primeiro livro, aparecia como categoria do Direito Penal, no romance ganha contornos históricos, associados à perseguição política e à tortura.
Muda o gênero, mas a escrita segue orbitando o mesmo lugar, o cárcere. Marcinho dedica o livro a William da Silva Lima, o Professor, fundador do Comando Vermelho e autor de Quatrocentos Contra Um – Uma História do Comando Vermelho (Vozes/Iser), a quem chama de “mentor literário”. Publicada em 1991, a autobiografia ganhou uma segunda edição dez anos depois e virou filme em 2010, 400 Contra 1 – Uma História do Crime Organizado, de Caco Souza, com Daniel de Oliveira no papel de William.
Em Preso de Guerra, a influência do “mentor” aparece numa trama que embaralha experiência carcerária e história política. É a tentativa de aproximar violências de Estado separadas pelo tempo, a repressão da ditadura e a brutalidade de um sistema penitenciário cujas entranhas Marcinho conhece há décadas.
Mas é importante destacar que ele nem sempre parece escrever sozinho. Os dois primeiros livros tiveram a participação do jornalista Renato Homem. Juristas também aparecem com frequência em sua obra, seja em prefácios e apresentações, seja dividindo a autoria, como no terceiro livro, de 2023, Execução Penal Banal Comentada (Tirant), escrito com os advogados criminalistas Luciano Tourinho e Paloma Gurgel.
Marcinho ocupa a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Letras do Cárcere, criada em 2024 por iniciativa do desembargador aposentado Siro Darlan para reunir e estimular autores presos e egressos
Esse projeto, iniciado em 2019 a partir de cartas enviadas aos coautores, apresenta um contraste que chama atenção. Um homem que deixou a escola ainda menino assina, ao lado de dois especialistas em Direito, um livro sobre execução penal, dignidade humana, isolamento e o sistema penitenciário federal.
Aliás, a distância entre o saber produzido sobre a prisão e o de quem a experimenta por dentro já havia sido apontada pelo desembargador Luís Carlos Valois no prefácio do primeiro livro de Marcinho VP.
Em A Cor da Lei, o mais recente, Marcinho retorna à ficção. Ao longo de centenas de páginas, põe advogados, policiais, traficantes, políticos e moradores de favela no meio de uma trama sobre justiça, dinheiro, raça e poder. O plano, pelo tamanho, é contar uma grande história. Mas a construção literária ainda deixa a desejar. Há momentos em que Marcinho explica os personagens antes que eles tenham tempo de se revelar ao leitor.
Para ficar em um exemplo, logo no primeiro capítulo, Vera, noiva do protagonista, reclama de chegar de ônibus a uma festa. “Odeio pobreza!”, dispara. Poucas linhas depois, para evitar qualquer ambiguidade, Marcinho entrega a personagem pronta: “frívola, interesseira, ambiciosa”.
Marcinho, qualidade literária à parte, já conquistou, com sua produção, um lugar na Academia Brasileira de Letras do Cárcere, criada em 2024, por iniciativa do desembargador aposentado Siro Darlan, para reunir e estimular autores presos e egressos.
Mentor. Marcinho dedica Preso de Guerra a William da Silva Lima, o Professor, fundador do Comando Vermelho e autor do livro que deu origem ao filme 400 Contra 1 – Imagem: Globo Filmes, Lereby e Destiny International
São, ao todo, 40 cadeiras, e Marcinho ocupa a nº 1, cujo patrono é Graciliano Ramos, autor de Memórias do Cárcere, clássico de 1953 sobre o período em que o escritor alagoano esteve preso, entre 1936 e 1937, durante o governo de Getúlio Vargas.
As circunstâncias que levaram ambos à prisão são diferentes. Mas Graciliano Ramos não é a única companhia notável que Marcinho viu posta perto de si.
Na apresentação de A Cor da Lei, o desembargador Darlan o coloca ao lado de Dostoievski, Gramsci e William da Silva Lima, e chega a aproximar o romance de Charles Dickens. A comparação talvez diga mais sobre o escritor que Marcinho ambiciona ser do que sobre aquele que é. Mas, entre uma coisa e outra, ele continua escrevendo. •
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Memórias do cárcere’
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Fonte: Carta Capital