Bernie Sanders e 30 deputados dos EUA cobram explicações de Trump sobre tentativa de interferir nas eleições no Brasil
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – Um grupo de parlamentares dos Estados Unidos cobrou do governo Donald Trump explicações sobre ações recentes de Washington em relação ao Brasil, citadas pelos congressistas como sinais de uma possível tentativa de interferência na eleição presidencial brasileira de outubro.
Segundo a Folha de São Paulo, que obteve o documentoa carta é assinada pelo senador independente Bernie Sanders e por 30 deputados democratas. O texto foi enviado ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e pede que o governo dos EUA se comprometa explicitamente a respeitar o processo eleitoral brasileiro e a reconhecer o resultado certificado pelas urnas, “independentemente de qual candidato seja escolhido pelos eleitores”.
“As ações mais recentes da administração apontam para uma aparente tentativa de interferir e potencialmente minar as eleições gerais do Brasil em outubro”, afirmam os parlamentares no documento.
A iniciativa foi articulada por deputadas como Delia Ramirez e também tem entre seus nomes Pramila Jayapal e Chuy Garcia. A lista de signatários inclui integrantes de comissões relevantes da Câmara dos Representantes, como a Comissão de Relações Exteriores e a Comissão de Supervisão, responsável por fiscalizar a atuação do Executivo.
Entre os parlamentares que assinam a carta estão Jayapal e Jonathan Jackson, da Comissão de Relações Exteriores, além de Greg Casar e Maxwell Frost, da Comissão de Supervisão. Também subscreve o documento a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, conhecida como AOC, uma das principais figuras da ala progressista do Partido Democrata.
Os congressistas pedem respostas do Departamento de Estado sobre sete pontos até 30 de setembro. Entre as cobranças estão os critérios usados para sancionar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, com base na Lei Global Magnitsky; os fundamentos para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras; e a justificativa para a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.
A carta também questiona a metodologia adotada pelo governo norte-americano para avaliar pedidos de sanções apresentados por estrangeiros e cobra explicações sobre medidas comerciais e diplomáticas adotadas por Washington contra o Brasil.
No documento, os parlamentares citam uma série de episódios ocorridos desde o início do segundo mandato de Trump. Para eles, esses fatos indicam uma escalada de pressão diplomática, econômica e política sobre o país às vésperas da eleição presidencial.
Um dos pontos destacados é o encontro entre Donald Trump e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, na Casa Branca. Segundo a carta, Flávio pediu durante a reunião que os Estados Unidos classificassem o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. Dois dias depois, o Departamento de Estado anunciou a inclusão das facções na lista norte-americana.
Para os signatários, a sequência dos acontecimentos ampliou preocupações no Brasil sobre possíveis consequências extraterritoriais da medida. A carta afirma que autoridades brasileiras temem que a designação seja usada como base para sanções, punições financeiras ou outras medidas contra pessoas e instituições do país. O documento também menciona receios relacionados ao eventual uso da força pelos Estados Unidos na região.
Outro episódio citado é a tentativa de visita ao Brasil de integrantes do Departamento de Estado. De acordo com reportagens mencionadas pelos congressistas, a delegação pretendia levantar dúvidas sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro. A entrada do grupo foi barrada, e, posteriormente, o governo Trump revogou o visto da embaixadora brasileira nos EUA.
Os parlamentares classificam a revogação como uma escalada incomum nas relações entre os dois países. Em agosto, após a medida, o Departamento de Estado afirmou que respeitaria a escolha feita pelo povo brasileiro por meio de eleições “livres e justas”.
“Nós respeitamos e mantivemos relações com governos dos dois lados do espectro político brasileiro e tivemos relações muito bem-sucedidas com eles”, disse a pasta na ocasião.
A porta-voz do Departamento de Estado, Amanda Roberson, também comentou à Folha, após os discursos de Lula e Trump na Assembleia Geral da ONU, os temores de interferência norte-americana nas eleições brasileiras.
“Sabemos que o Brasil é um país independente e democrático. Quem vai ser o próximo presidente do Brasil é decisão dos brasileiros e vamos estar sempre trabalhando com o Brasil, independente de quem seja o próximo presidente. Queremos ver eleições livres e justas no Brasil, mas, no final, é decisão do povo brasileiro”, afirmou.
A cobrança dos congressistas ocorre em meio a uma ampliação das preocupações no Brasil sobre a atuação dos EUA no processo eleitoral. A Folha revelou que um relatório reservado da Abin, a Agência Brasileira de Inteligência, sobre “ameaças ao processo eleitoral de 2026” elevou a possibilidade de influência e interferência externa norte-americana a um “nível de criticidade”.
Nesta quarta-feira, a campanha de Lula acionou o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral por possíveis interferências dos Estados Unidos na eleição brasileira.
Na avaliação dos signatários, a postura atual de Washington contrasta com a adotada pelos EUA durante a eleição brasileira de 2022, quando o governo norte-americano reconheceu rapidamente a vitória de Lula. A carta também menciona o apoio dos Estados Unidos às instituições brasileiras após os ataques de 8 de janeiro de 2023.
Agora, porém, os parlamentares afirmam que Washington vive uma “realidade fundamentalmente diferente” e acusam o governo Trump de agir como um “agente de interferência e desestabilização” por meio de pressão diplomática, econômica e política sobre o Brasil.
O documento sustenta ainda que o caso brasileiro faria parte de um “padrão mais amplo e profundamente preocupante de interferência” em processos eleitorais na América Latina, com risco de “erodir progressivamente a confiança” nas instituições democráticas da região.
Bernie Sanders, um dos signatários da carta, esteve com Lula nesta semana, à margem da Assembleia Geral da ONU. No encontro, segundo auxiliares, Sanders perguntou ao presidente brasileiro sobre a possibilidade real de interferência nas eleições no Brasil. Lula teria respondido que o governo está vigilante, mas que não acredita que haverá interferência.
Pramila Jayapal também já havia declarado à Folha, em agosto, que via uma tentativa de Trump de interferir na eleição brasileira e afirmou que democratas agiriam. Caso o partido conquiste a maioria da Câmara nas eleições legislativas de novembro, integrantes das comissões citadas na carta poderiam ampliar a fiscalização sobre a política do governo Trump para o Brasil, inclusive por meio de audiências, investigações e condicionamentos orçamentários relacionados à política externa.
Fonte: Brasil 247