No Despertar 2026, Luiz Antônio Simas propõe o encantamento contra a desesperança
Por Iago Cezar — ICL Notícias
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Por Iago FIlgueiras
Neste domingo (20), segundo e último dia do Despertar 2026, Xico Sá chamou o escritor, historiador e colunista do ICL Notícias, Luiz Antônio Simas, ao palco do Vibra São Paulo para responder a uma pergunta cada vez mais urgente: diante da ameaça de interferência estrangeira e de projetos que parecem querer devolver o Brasil à condição de colônia, qual pode ser a resposta da brasilidade?
Descrito por Xico Sá como o “professor que inventou a arte de ensinar nas ruas, aproveitando o corpo e a alma encantadora das esquinas”, Simas tomou o palco para falar sobre a arte de construir vida justamente onde a morte parece ser a única possibilidade.
A vida é uma festa
Para Simas, parte dessa resposta passa pela festa. Não por aquela visão que coloca a festa como um espaço de alienação, distração ou fuga da realidade, mas como um espaço de reconstrução de laços que o individualismo e a financeirização da vida tentam destruir.
“A celebração, a festa, definitivamente não é um elemento de alienação”, afirmou. Para ele, o Brasil é um país cuja cultura “profana o sagrado e sacraliza o profano o tempo inteiro”. Escolas de samba, blocos, terreiros, ruas, praças e botequins aparecem, então, como lugares nos quais sentidos coletivos podem ser reconstruídos.
“A grande resposta que a festa pode dar é essa: a reconstrução de sentido coletivo, de pertencimento ao mundo, em circunstâncias em que as coletividades são dilaceradas por um individualismo tacanho e pela completa financeirização da vida”, disse.
E há nisso um aparente paradoxo. “Em geral, você não festeja porque a vida é boa. Você festeja porque ela não é boa.”
“Como é que, diante de tanto horror, foi possível construir tanta vida?”
O trabalho de Luiz Antônio Simas parte, justamente, dessa contradição. Para o historiador, o Brasil foi construído como projeto de exclusão, concentração de renda e propriedade, domesticação dos corpos e aniquilação de populações e saberes não brancos.
“A exclusão não foi resultado de políticas públicas que deram errado. Foi resultado de políticas públicas que deram certo”, afirmou, defendendo que esse processo esteve incorporado à própria formação histórica brasileira. Mas não é esse Brasil que mais interessa a Simas.
“O que me interessa é responder a uma única pergunta: como é que, diante de tanto horror, foi possível construir tanta vida? Foi possível construir tanta beleza?”
A resposta está justamente nas culturas que sobreviveram apesar de tudo: no maracatu, nas congadas, nos terreiros, nos cortejos, nas escolas e rodas de samba.“Como é que esse país, cujo símbolo mais medonho é um pau de bater no corpo dos corpos que não são brancos, ao mesmo tempo transgrediu esse pau em baqueta de bater no couro do tambor para inventar o mundo como samba?”, questionou.

A brasilidade como resposta
É exatamente aí que a brasilidade entra, não como uma palavra abstrata. Para Simas, ela é “um conjunto material e simbólico de elaboração de sentidos e construções de mundo” a partir das maneiras como brasileiros brincam, dançam, rezam, celebram, cantam, lembram seus mortos e acolhem seus vivos. As culturas populares são, justamente, as responsáveis por fazer da beleza um projeto de vida diante de circunstâncias históricas que sempre apresentaram a morte como possibilidade única.
O samba exemplifica essa ideia. Mais do que ritmo ou dança, Simas o definiu como “um sistema de organização do mundo”, em torno do qual circulam maneiras de comer, beber, lidar com a ancestralidade, com a fé, com as roupas e com os espaços comunitários.
E essas culturas não precisam, segundo ele, ser enxergadas e discutidas apenas por meio de conceitos importados de fora. “As culturas populares são sofisticadas o suficiente para que ofereçam o manancial, inclusive, para que a gente elabore conceitos para estudá-las, pensá-las e refletir sobre elas.”
É preciso encantar o Brasil
Um desses conceitos é justamente o encantamento. “Na tradição da encantaria brasileira, o encantado é aquele que, diante de uma circunstância de morte, driblou a morte e se alterou para continuar vivendo”, explicou Simas. Diferentemente daquele que morreu e retorna, o encantado seria aquele que se transforma — em pedra, folha, areia ou água — para escapar da morte.
A partir dessa tradição, Simas propôs outra forma de enxergar vida e morte. “Para as culturas de terreiro, o contrário da vida não é a morte, é o desencanto. O contrário da morte não é a vida, é o encantamento.” E, nisso, há uma constatação que a vida contemporânea parece impor:
“Tem muita gente que está respirando, trabalhando, pagando conta e morreu. Está cheio de morto por aí. E tem muito morto que está vivo: na memória, na lembrança, no canto, na herança”, afirmou.
Por isso, para Simas, combater o desencanto passa também por recuperar histórias e reconhecer aquilo que sobreviveu quando não deveria sobreviver. O samba foi perseguido. A encantaria foi perseguida. Maracatus, congadas, capoeira e outras manifestações atravessaram projetos que pretendiam apagá-las e continuaram existindo.
Se toda diáspora destrói redes, identidades e sentidos coletivos, argumentou, as culturas diaspóricas também são capazes de reconstruir “pela beleza aquilo que foi aniquilado”. E é justamente olhando para aquilo que resistiu que a resposta de Simas à pergunta feita por Xico Sá no começo da conversa fica nítida: “Nós precisamos disputar passado, porque é disputando o passado que a gente constrói futuro altaneiro.”
“Nós somos filhos da festa. Nós somos filhos da alegria. E ela, a alegria, é a nossa maneira mais bonita de afirmar a vida onde querem que a morte prevaleça.”, concluiu, sendo aplaudido de pé pelo público do Despertar 2026.

Sobre o Despertar
O Despertar 2026 continua neste domingo (20), no Vibra São Paulo. A terceira edição do evento reúne pesquisadores, jornalistas, artistas, educadores e ativistas em debates sobre educação, cultura, democracia, direitos humanos e participação social.
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Fonte: ICL Notícias




