Presidência chinesa do BRICS em 2027 deve priorizar pagamentos locais, inteligência artificial, energia limpa e maior influência do Sul Global
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – A presidência chinesa do BRICS em 2027 deverá ampliar a cooperação entre os países do bloco em pagamentos com moedas locais, inteligência artificial, energia limpa e reformas destinadas a fortalecer a influência do Sul Global. A avaliação é da especialista em relações entre China e África Farhana Paruk, em entrevista publicada nesta sexta-feira (18) pela agência Xinhua.
Segundo a Xinhua, a pesquisadora sul-africana acredita que a liderança de Pequim poderá acelerar projetos conjuntos em setores como agricultura, infraestrutura digital, segurança alimentar, financiamento do desenvolvimento e transição energética. A China assumirá o comando rotativo do grupo em um momento de expansão do BRICS e de crescente pressão dos países em desenvolvimento por mudanças na governança internacional.
“O BRICS evoluiu de um fórum de diálogo de alto nível para uma plataforma de cooperação prática”, afirmou Paruk.
A especialista destacou que o bloco já criou instrumentos próprios para impulsionar a integração econômica e reduzir vulnerabilidades financeiras. Entre eles estão o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês), o Acordo de Reserva Contingente e programas voltados ao comércio, às finanças, à infraestrutura pública digital e aos intercâmbios entre as sociedades dos países integrantes.
Apesar dos avanços, Paruk considera que o BRICS ainda pode aprofundar mecanismos capazes de transformar sua dimensão política em resultados econômicos mais concretos.
“No entanto, ainda há muito espaço para aprofundar a colaboração, particularmente na liquidação em moeda local e na interoperabilidade de pagamentos transfronteiriços, na resiliência da cadeia de suprimentos, no financiamento ampliado de projetos do NDB e na cooperação estruturada em governança de IA, padrões e desenvolvimento de habilidades”, declarou.
Moedas locais e financiamento
A ampliação dos pagamentos em moedas nacionais é apontada como uma das frentes estratégicas para a próxima presidência chinesa. A medida permitiria reduzir custos cambiais e facilitar operações comerciais entre os integrantes do bloco, embora dependa da compatibilidade entre sistemas financeiros, regras de compensação e plataformas de pagamentos.
Paruk também defendeu o aumento da capacidade de financiamento do NDB. Criado pelos países do BRICS, o banco tem como finalidade apoiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em economias emergentes e países em desenvolvimento.
A pesquisadora afirmou que a China poderá estimular a criação de novas plataformas tecnológicas voltadas à produção agrícola, à irrigação e ao armazenamento de alimentos. A cooperação nessa área teria potencial para fortalecer a segurança alimentar e reduzir perdas nas cadeias produtivas.
“Sob a presidência da China em 2027, há espaço para aprofundar a cooperação tradicional por meio de plataformas conjuntas de tecnologia agrícola, sistemas acessíveis de irrigação e armazenamento de alimentos, além de conhecimento especializado em energia solar, baterias, redes elétricas e hidrogênio verde”, disse.
Inteligência artificial e economia digital
Outra prioridade deverá ser a definição de mecanismos conjuntos para a inteligência artificial e a economia digital. Segundo Paruk, os países do BRICS podem coordenar princípios de governança, padrões tecnológicos, fontes de financiamento e programas de capacitação.
A especialista mencionou a possibilidade de criar ambientes compartilhados para testes de tecnologias, fundos destinados a startups e parâmetros comuns para atividades digitais. Essas iniciativas poderiam facilitar a circulação de soluções desenvolvidas nos países membros e diminuir diferenças regulatórias dentro do bloco.
O avanço poderia ocorrer por meio da “ampliação dos diálogos sobre governança de IA, plataformas de teste compartilhadas, fundos para startups e padrões de economia digital”, afirmou Paruk.
Na área ambiental, ela apontou como caminhos possíveis a expansão de programas relacionados à biodiversidade, ao combate às mudanças climáticas, às finanças verdes e à pesquisa tecnológica. A proposta seria articular desenvolvimento econômico, inovação e transição para fontes de energia com menor emissão de carbono.
Aproximação entre as sociedades
A presidência chinesa também poderá ampliar os intercâmbios entre jovens, universidades, instituições culturais e organizações de mídia dos países do BRICS. Para Paruk, esse movimento ajudaria a aproximar a atuação do bloco da população e a tornar suas iniciativas mais conhecidas fora dos círculos diplomáticos.
A pesquisadora considera que a consolidação do BRICS depende não apenas de acordos entre governos, mas também da criação de vínculos permanentes entre instituições acadêmicas, empresas, pesquisadores e organizações sociais.
No plano internacional, a expectativa é que Pequim articule com os demais membros uma agenda de reforma das instituições multilaterais. O objetivo seria elevar a participação dos países em desenvolvimento nas decisões financeiras e políticas globais.
“Paralelamente, espera-se que a China trabalhe com outros membros do BRICS para promover um sistema de governança global mais justo e equitativo, defendendo a reforma multilateral, maior representação do Sul Global nas instituições financeiras e políticas e regras que apoiem o financiamento do desenvolvimento, a ação climática e a inclusão digital”, afirmou Paruk.
Fonte: Brasil 247