Lula defende PF e articula resposta à escalada da crise provocada no Supremo
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a atuar diretamente na tentativa de conter a crise instalada no Supremo Tribunal Federal e recompor uma maioria capaz de reduzir a influência do ministro André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master e o INSS.
Segundo a Folha de S.Paulo, Lula entrou pessoalmente nas articulações na noite de terça-feira (8), após auxiliares avaliarem que a escalada do conflito no STF poderia provocar danos à campanha presidencial e contaminar a disputa eleitoral.
A reação ganhou força depois de Mendonça determinar o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal. Lula se reuniu com o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e com Jorge Messias e deixou claro que não aceitava a retirada do diretor-geral da PF.
Na manhã desta quarta-feira (9), o ministro Flávio Dino determinou a reincorporação de Andrei Rodrigues ao cargo. A decisão também trouxe críticas à atuação de Mendonça e, segundo interlocutores do presidente, incorporou argumentos compartilhados pelo próprio Lula.
Articulação levou caso a Flávio Dino
A estratégia para reverter o afastamento envolveu aliados do governo, parlamentares e integrantes do STF próximos ao Palácio do Planalto.
De acordo com pessoas ouvidas pela Folha, foi nesse processo de articulação que se definiu que Andrei apresentaria um pedido de reabilitação em uma investigação sob relatoria de Flávio Dino.
O inquérito trata de suspeitas de irregularidades relacionadas a emendas destinadas à produção do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.
A movimentação permitiu que a permanência de Andrei no comando da Polícia Federal fosse analisada por outro ministro do Supremo, abrindo caminho para a decisão de Dino que desfez a medida tomada por Mendonça.
Planalto vê fracasso de diálogo com Mendonça
Nos últimos meses, integrantes do governo ainda buscavam manter canais de interlocução com André Mendonça. Jorge Messias vinha sendo utilizado como uma ponte entre o Planalto e o ministro do STF.
Essa estratégia, porém, passou a ser considerada esgotada.
Segundo o relato, Lula foi convencido por aliados de que Mendonça estaria atuando de maneira prejudicial à sua candidatura à reeleição e, ao mesmo tempo, favorecendo seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro.
A avaliação levou o presidente a autorizar uma reação política mais explícita ao ministro.
O próprio Lula passou a criticar publicamente o tratamento dado às investigações. Em publicação no X, condenou o que chamou de “vazamentos seletivos que impactam a disputa eleitoral” e defendeu a retirada dos sigilos relacionados ao caso Master.
A campanha presidencial também elevou o tom contra Mendonça.
“O ministro que toca as investigações do Banco Master parece querer proteger Flávio Bolsonaro e não abre o sigilo do seu processo”, afirmou texto divulgado em uma página vinculada à campanha.
Lula tenta conter impacto eleitoral da crise
No entorno do presidente, cresceu a preocupação com os efeitos políticos de uma disputa aberta entre ministros do Supremo durante a campanha.
Até agora, Lula buscava tratar a crise como uma questão interna do Judiciário. O afastamento de Andrei Rodrigues, no entanto, levou o governo a abandonar parcialmente essa estratégia.
Uma das linhas de argumentação discutidas no Planalto é destacar que André Mendonça foi indicado ao STF pelo então presidente Jair Bolsonaro e que afastou o diretor-geral da Polícia Federal sob cuja gestão o ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi preso.
A defesa pública de Andrei, porém, também produz riscos políticos.
Interlocutores do governo avaliam que a movimentação pode ser interpretada por setores do eleitorado como uma aproximação entre Lula e Alexandre de Moraes, hoje principal adversário de Mendonça dentro do Supremo e alvo recorrente do bolsonarismo.
Para reduzir essa associação, a orientação é reforçar o discurso de que todas as pessoas eventualmente envolvidas em irregularidades devem ser investigadas.
Fachin é cobrado, mas ainda é visto como peça de pacificação
As discussões também atingiram o presidente do STF, Edson Fachin.
Uma ala do tribunal crítica a Mendonça avalia que Fachin não reagiu com a rapidez necessária à crise e permitiu que o conflito entre ministros se aprofundasse.
Nesse diagnóstico, a decisão de Flávio Dino de restabelecer Andrei Rodrigues ao comando da PF teria servido para interromper uma escalada institucional que poderia se prolongar por vários dias.
Mesmo assim, Lula considera Fachin importante para uma futura acomodação dentro do Supremo.
Por não ser identificado diretamente nem com o grupo mais próximo de André Mendonça nem com o campo associado a Alexandre de Moraes, o presidente da Corte é visto como alguém capaz de conferir legitimidade a um eventual rearranjo interno.
Entre as hipóteses discutidas está a redistribuição de inquéritos atualmente concentrados nas mãos de determinados ministros.
A prioridade política de Lula, neste momento, é impedir que a disputa dentro do STF continue crescendo e domine o debate eleitoral, ao mesmo tempo em que o Planalto tenta consolidar uma maioria no tribunal capaz de conter novas decisões de Mendonça consideradas prejudiciais ao governo.
Fonte: Brasil 247