Mortes pela polícia em SP atingem maior número para julho em sete anos
Por Mariana Rosetti — Ponte
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O silêncio da Rua Wagner de Araújo, no Parque São Rafael, foi quebrado pelo som de tiros numa segunda-feira (13/7). O diácono José Carlos da Rocha Sobrinho, de 42 anos, dirigia seu VW Fox pela zona leste de São Paulo quando foi parado por uma viatura da Companhia de Ações Especiais de Polícia (Caep). O que deveria ser uma abordagem de rotina transformou-se em tragédia em questão de segundos. José foi baleado no pescoço, na cabeça e na coxa direita e levado ao Hospital de Sapopemba, onde morreu.
O que se seguiu foi uma disputa de versões. De um lado, os policiais, que saíram ilesos da ocorrência, alegaram que José desobedeceu à ordem de parada e “portava arma de fogo do tipo pistola, Glock, calibre 380, com numeração suprimida”. Os PMs também disseram que não havia testemunhas nem câmeras de segurança no local.
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De outro lado está a versão dos familiares, que preservam a memória de José e contestam o relato policial. Eles afirmam que o diácono não reagiu à abordagem e estava desarmado quando foi morto. Testemunhas disseram ao portal g1 que não houve troca de tiros e que os policiais já estavam no local antes de José passar.
Um elemento que daria conta de esclarecer muitas dúvidas é o vídeo da abordagem. Contudo, segundo o boletim de ocorrência registrado no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), obtido pela Ponte, as câmeras corporais só teriam sido acionadas pelos PMs após os disparos contra José.
O caso, registrado como Morte Decorrente de Intervenção Policial (MDIP), passou a ocupar a linha 10.117 do levantamento mensal feito pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), chefiada por Osvaldo Nico e vinculada ao governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). A pasta reúne dados dessa natureza desde 2013.
O mês em que José foi morto terminou com 66 Mortes Decorrentes de Intervenção Policial (MDIP), o maior número registrado para julho desde 2019. É também o quinto maior resultado para o mês em toda a série histórica, iniciada em 2013, atrás apenas de 2014 (79 mortes), 2017 (77), 2019 (75) e 2018 (68).
Das 66 mortes, nove foram cometidas por policiais de folga e 57 por agentes em serviço. Em 63, os autores eram policiais militares; em três, policiais civis. A capital concentrou o maior número de ocorrências, com 30 motes, seguida pelo interior, com 21; Grande São Paulo, com dez; e litoral, com cinco.
Para Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, os dados mostram que “nós normalizamos um novo patamar [de letalidade], que é esse em torno de 60 mortes cometidas pela polícia todo mês. Quase duas mortes por dia de policiais de serviço e fora de serviço”.
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Segundo o pesquisador, o estado registrou números elevados de mortes em 2023 e 2024 durante as operações Verão e Escudo e, desde então, “estacionou nesse patamar de altíssima letalidade”. Para ele, o cenário é resultado direto do enfraquecimento das políticas de controle da atividade policial.
Ao longo de 2026, os dados de MDIP mostram uma curva de crescimento que começa em março, com 47 mortes, e se acentua nos meses seguintes. Entre junho, quando foram registradas 58 mortes, e julho, com 66, o aumento foi de quase 14%.
Foi também em julho que pelo menos quatro boletins de ocorrência de MDIP apresentaram uma característica comum: a informação de que as câmeras corporais dos policiais foram acionadas somente depois dos disparos. É o que mostra um levantamento da Folha de S. Paulo.
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A reportagem, assinada pelo jornalista Paulo Eduardo Dias, analisou 25 boletins de ocorrência de MDIP registrados na capital. Em cinco registros, houve o acionamento tardio da câmera, contrariando uma diretriz estabelecida pelo Comando-Geral da PM em julho de 2025. Quatro desses casos ocorreram em julho — incluindo a ocorrência envolvendo o diácono — e um em agosto.
Segundo a reportagem, o sistema custa ao Governo de São Paulo cerca de R$ 4 milhões por mês e passou por mudanças significativas durante a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos). “A principal delas foi a alteração do método de acionamento, que deixou de ser contínuo para ser manual, com possibilidade de acionamento remoto pela central”, afirma o texto.
As 66 mortes cometidas por policiais em julho equivalem a 27% do número de homicídios dolosos no estado no mesmo período. É a segunda maior proporção para um mês de julho em toda a série histórica, iniciada em 2013, atrás apenas de 2019, quando o percentual chegou a 28%.
Estudos conduzidos pelo sociólogo Ignácio Cano indicam que, quando as mortes causadas por agentes do Estado ultrapassam cerca de 10% do total de homicídios, isso pode ser um sinal de uso excessivo da força policial. Pesquisas associadas ao trabalho de Paul Chevigny apontam que percentuais superiores a 7% já podem indicar padrões abusivos.
A proporção registrada em São Paulo é quase três vezes superior ao primeiro parâmetro e quase quatro vezes maior que o segundo.
Para Rocha, a fragilidade também se estende à atuação do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), que tem o dever constitucional de exercer o controle externo da atividade policial. Na avaliação do especialista, o órgão “está muito alinhado com o governo de São Paulo, inclusive na questão da letalidade”, define.
“Então, a gente enfraqueceu o modelo de gravação, enfraqueceu as comissões de investigação de risco, a responsabilização dos policiais, o Ministério Público, a investigação. O resultado é esse: a gente está estacionado [em um cenário em que] a polícia mata duas pessoas por dia e é responsável por quase 30% de todas as mortes violentas do estado de São Paulo”, analisa Rocha.
Além da SSP-SP, cujos dados são usados pela Ponte como referência, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), também registra as mortes decorrentes de intervenção policial. Esses casos são contabilizados pelo Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp).
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Em geral, os números do MPSP são divulgados antes dos da SSP-SP — que consolida as estatísticas de letalidade policial apenas ao final do mês seguinte ao período analisado. O Gaesp também registrou 66 mortes cometidas pelas polícias em São Paulo em julho de 2026.
A Ponte enviou a análise dos dados à Secretaria de Segurança Pública (SPP-SP) e questionou os motivos para o aumento da letalidade policial em julho, a elevada proporção de mortes cometidas por policiais em relação ao total de homicídios dolosos e os registros de acionamento tardio das câmeras corporais. Até a publicação da reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto.
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Fonte: Ponte