Dona Flor precisou de um fantasma. Em Xizang, ela teria encontrado irmãos, por Iara Vidal
Por Observatorio de Geopolitica — GGN
Dona Flor precisou de um fantasma. Em Xizang, ela teria encontrado irmãos
Entre Jorge Amado e antigas formas de organização familiar, uma conversa sobre amor, desejo, patrimônio e a velha dificuldade de aceitar mulheres fora da regra
No Brasil, para uma mulher ter dois maridos, Jorge Amado precisou matar um deles. É uma solução literária genial. Em Dona Flor e Seus Dois Maridos, publicado em 1966, Florípedes Paiva vive entre dois homens que encarnam quase tudo aquilo que ensinaram às mulheres que elas deveriam encontrar — e, de preferência, reunido na mesma pessoa.
De um lado está Teodoro, o marido correto, estável e respeitável, capaz de oferecer segurança e tranquilidade. Do outro, Vadinho, o marido da desordem, do desejo e do prazer, aquele que faz o corpo de Dona Flor pegar fogo. O inconveniente é que Vadinho morre. Jorge Amado, que entendia algumas coisas sobre desejo e certamente não estava disposto a obrigar sua personagem a escolher entre uma coisa e outra, resolve o problema trazendo o morto de volta.

Dona Flor pode, assim, ficar com os dois: o homem da estabilidade e o homem do desejo, o marido que a sociedade aprova e aquele que satisfaz uma parte dela sobre a qual essa mesma sociedade prefere não conversar. Há algo profundamente brasileiro nessa solução: quando a moral não permite, chama-se o sobrenatural. No cinema, Sônia Braga eternizou essa mulher entre o marido vivo e o marido morto — ou, quem sabe, não exatamente dividida, mas finalmente inteira.

Mas a história fica ainda mais curiosa quando percebemos que a solução de Jorge Amado não pertence apenas à fantasia. A vida real também encontrou maneiras próprias de lidar com mulheres que escapavam da ideia de que um corpo feminino deveria estar ligado a um único homem.
Quando a ficção encontra a vida real
Algumas décadas depois, Eu, Tu, Eles, de Andrucha Waddington, lançado em 2000, bagunçou ainda mais essa conversa. No filme, Regina Casé interpreta Darlene, uma mulher do sertão nordestino que acaba vivendo com três homens. Desta vez, Jorge Amado e seus fantasmas não podem ajudar: os três estão vivíssimos, dividindo a mesma casa, a rotina e, cada um à sua maneira, a vida daquela mulher.

A história fica ainda melhor porque não nasceu apenas da imaginação de um roteirista. O filme foi inspirado na vida de Maria Marlene Silva Sabóia, uma mulher do Ceará que viveu com três companheiros. Nesse caso, a ficção apenas organizou cinematograficamente aquilo que a vida real já havia resolvido por conta própria.
E talvez esteja aí a primeira provocação desta história. Nós crescemos cercadas de homens com várias mulheres. Eles aparecem como reis e imperadores, coronéis e fazendeiros, homens com amantes, concubinas, “segundas famílias” e filhos espalhados pelo caminho. Às vezes isso é tratado como demonstração de poder; em outras, como simples característica de determinada época. Em muitos casos, nem sequer paramos para dar um nome ao arranjo. Chamamos apenas de história.
Quando a equação se inverte e é uma mulher que aparece acompanhada de mais de um homem, tudo parece exigir explicação. Surgem a curiosidade, o escândalo, a piada e o exotismo. De repente, aquilo que passava quase despercebido quando os protagonistas eram homens ganha contornos de fenômeno social extraordinário.
História em uma mesa de bar
Foi justamente essa pergunta que atravessou uma noite minha em Beijing e me levou até uma história que eu não esperava encontrar.
Por intermédio da minha amiga querida Dani Tassy, que interpreta a astronauta brasileira do filme Terra à Deriva 2, conheci recentemente um grupo divertidíssimo de chineses. Naquele dia, tínhamos acabado de assistir ao concerto da Orquestra Filarmônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com direito a forró e samba — uma combinação que, por si só, já justificaria a noite. Depois, fomos a um bistrô cujo proprietário fazia parte da turma e seguimos entre comida, baijiu, conversa e novos amigos.
Em algum momento da noite, uma chinesa belíssima contou que era da Região Autônoma de Xizang, que você deve conhecer como Tibete, e começou a falar sobre uma tradição existente em partes da região: famílias em que uma mulher podia ter mais de um marido.
Foi aí que, inevitavelmente, Dona Flor, Darlene e aquelas mulheres de Xizang começaram a conversar dentro da minha cabeça.
Quando os maridos são irmãos
Antes de seguir, vale uma pequena pausa para organizar os nomes dessa conversa. Eles parecem complicados, mas a lógica é simples: monogamia é quando existe um único cônjuge; poliginia, quando um homem tem mais de uma esposa; poliandria, quando uma mulher tem mais de um marido; e poligamia é o termo mais amplo usado para diferentes formas de casamento com múltiplos cônjuges.
É justamente a poliandria que nos interessa aqui. Em algumas comunidades de Xizang, uma configuração historicamente documentada era aquela em que uma mulher se casava com dois ou mais irmãos.
Mas a palavra, sozinha, pode enganar. Ela não significa automaticamente liberdade sexual ou maior poder feminino. Como quase tudo que envolve família, esses arranjos precisam ser entendidos dentro do contexto histórico e social em que surgiram.
Uma das formas tradicionais conhecidas em algumas regiões de Xizang é chamada de 兄弟共妻 — xiōngdì gòngqī, algo como “irmãos compartilhando uma esposa”. Antes que alguém imagine uma versão tibetana de Dona Flor, porém, é preciso olhar além da fantasia.
Esses arranjos não surgiram necessariamente como uma revolução sexual feminina. Em muitos casos, estavam ligados a questões bastante concretas: terra, patrimônio, trabalho e sobrevivência familiar.
Um documento histórico do distrito de Dazi, em Lhasa, registra a existência de diferentes modelos familiares, incluindo famílias monogâmicas, poligínicas e poliândricas. Entre elas, uma configuração recorrente era aquela em que uma mulher se casava com dois ou três irmãos.
Uma das razões para esse tipo de organização estava ligada à preservação da propriedade familiar. Em regiões onde a terra era um recurso limitado, manter irmãos dentro da mesma unidade doméstica ajudava a evitar a divisão do patrimônio e preservava a força de trabalho da casa.
Aquilo que, à primeira vista, pode parecer apenas uma história sobre desejo revela outra camada: era também uma estratégia econômica, uma forma de organizar herança, trabalho e sobrevivência dentro de um determinado contexto social.
No fim, a conversa não é apenas sobre quantos homens podem estar na vida de uma mulher, mas sobre como diferentes sociedades encontraram maneiras próprias de organizar família, patrimônio e existência.
E há um detalhe curioso nessa documentação: em alguns registros, uma mulher capaz de manter a harmonia entre os irmãos podia ser socialmente valorizada. Além de esposa, ela também exercia uma função de mediação dentro da família.
Pensei imediatamente em algo que atravessa muitas culturas: o trabalho emocional feminino. A tarefa de administrar conflitos, manter relações e sustentar a harmonia de uma casa continua sendo frequentemente atribuída às mulheres, independentemente do modelo familiar em que estejam inseridas.
O corpo que incomoda
A parte mais interessante dessa história, para mim, está no desconforto que essa possibilidade provoca. Quando falamos de poliandria, a primeira reação costuma ser imaginar uma inversão de papéis: “e se fosse o contrário?”. Como se a grande surpresa estivesse apenas em trocar os personagens de uma história que durante séculos foi contada quase sempre do mesmo jeito.
Mas talvez essa não seja a questão central. O que realmente chama atenção é por que uma mulher que não organiza sua vida a partir da exclusividade masculina parece causar tanto estranhamento.
Quando uma mulher aparece fora dessa lógica, a reação costuma mudar. Surge a necessidade de explicar, justificar ou enquadrar aquilo que escapa da regra. A curiosidade aumenta, o julgamento aparece e uma escolha feminina que não se encaixa no modelo esperado passa a ser tratada como exceção, desvio ou curiosidade.
Talvez isso aconteça porque existe algo profundamente político na ideia de uma mulher cujo corpo não pertence exclusivamente a um único homem. Mesmo quando a origem de uma determinada forma de poliandria está ligada à economia, à preservação da propriedade familiar e à organização do trabalho, ela toca em uma questão muito mais antiga: a ideia de que o corpo feminino deveria estar submetido a uma lógica de exclusividade, controle e pertencimento.
É justamente nesse ponto que essa história deixa de ser apenas uma curiosidade sobre modelos familiares e passa a conversar com algo maior. O que está em jogo não é simplesmente quantas pessoas podem formar uma família, mas quem tem o poder de definir as regras que organizam os corpos, os desejos e as escolhas das mulheres.
Dona Flor e a difícil arte de não escolher
Talvez seja por isso que Dona Flor continue sendo uma personagem tão poderosa quase sessenta anos depois de sua criação. O que torna sua história fascinante não é apenas o fato de ela ter dois maridos, mas a possibilidade de existir inteira diante de uma sociedade que espera que as mulheres escolham uma parte de si e abandonem a outra.
Teodoro representa a estabilidade, o cuidado e a respeitabilidade. Vadinho representa o desejo, a paixão e aquilo que escapa ao controle. Ao devolver o morto à vida, Jorge Amado cria uma solução fantástica para um conflito profundamente real: a dificuldade de aceitar que uma mulher possa desejar coisas diferentes ao mesmo tempo.
A literatura permite aquilo que a sociedade muitas vezes proíbe imaginar. Mas a pergunta permanece quando saímos da ficção: o que acontece quando uma mulher real organiza sua vida fora daquilo que aprendemos a chamar de normal?
Foi justamente essa pergunta que ficou comigo depois daquela conversa em Beijing. Porque as mulheres de Xizang, Darlene e Dona Flor não contam a mesma história. Elas pertencem a tempos, lugares e contextos completamente diferentes. Mas todas elas revelam algo em comum: as regras sobre amor, casamento e família nunca foram tão naturais quanto parecem.
Elas foram construídas — e tudo aquilo que é construído também pode ser questionado.
Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
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Fonte: GGN