Zé do Cão: Vinicius Tavares transforma Toritama em paisagem sonora de um agreste cosmopolita
Por SOM.VC — Mídia NINJA

Vinicius Tavares transforma Toritama em criação sonora, misturando aboios, rock, eletrococo e beats em seu EP de estreia
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Sistema Operacional da Música – acelera oportunidades na cena independente.
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SOM.VC
18 de setembro de 2026
16:55
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Sistema Operacional da Música – acelera oportunidades na cena independente.
Por Noé Pires
O EP parte de Toritama, um dos grandes centros da indústria de confecção do país. É desse território de contrastes, trabalho, circulação, invenção e sobrevivência que Vinícius constrói uma obra que olha para o Agreste sem transformá-lo em paisagem exótica. Pelo contrário. O Agreste aparece como centro, como potência, como lugar de criação e como território profundamente conectado ao mundo.
Vinícius Tavares (@Zedocao___) constrói sua trajetória a partir dos imaginários do Agreste e de uma escuta atenta às manifestações populares. À frente do grupo Gema Sonora, reelabora referências nordestinas a partir do encontro entre saxofone, sanfona, guitarra e beats eletrônicos. Sua pesquisa transita entre práticas populares, experimentação sonora e criação contemporânea.
E é justamente nesse cruzamento que nasce Zé do Cão.
Inspirado no personagem homônimo do filme A Noite do Espantalho, de Sérgio Ricardo, lançado em 1973 e ambientado no Agreste pernambucano, o Zé do Cão de Vinícius é uma figura que escapa às definições fáceis.
No filme, ele é o jagunço de um coronel, personagem atravessado por ambiguidades, força e subversão. No disco, transforma-se em arquétipo. É o trabalhador, o caminhante, o motoqueiro, o agricultor, o alquimista, o brincante, o romântico em seu sentido mais radical e político. É aquele que sabe fazer da gambiarra invenção, da dificuldade possibilidade e da paisagem um caminho.
Zé do Cão é agrestino. É um lorde da gambiarra e da brincadeira. Um amor amoroso. Um feiticeiro. Um abridor de portais. Um mensageiro.
É aquele que escolhe ir e também escolhe ficar.
É o sol, o nó em pingo d’água, a sagacidade silenciosa, a subversão sofisticada.
É moderno e popular, antigo e futurista, industrial e ancestral.
Musicalmente, o EP também se constrói a partir desses encontros. A vastidão das serras e dos lajedos de Toritama atravessa a voz de Vinícius, moldada pelo eco das pedras e pela força da oralidade popular. Aboios, emboladas, rock e eletrococo se encontram como retalhos de um mesmo tecido, formando uma paisagem sonora que não pretende caber em uma única definição.
Nas sete faixas de Zé do Cão, Cap. 01, a inventividade é matéria-prima. O EP experimenta, mistura e desloca referências sem perder o vínculo com o chão de onde nasceu.
Essa travessia conta ainda com participações de artistas do Sertão e do Agreste pernambucano, como Jéssica Caitano e Virgínia Guimarães. O disco também incorpora samples de figuras fundamentais para o pensamento e a cultura popular brasileira.
Entre essas presenças, destaca-se a voz do mestre quilombola Nêgo Bispo, que atravessa o trabalho como referência ética e poética. Sua presença funciona como escuta, continuidade e diálogo com os saberes e as lutas populares que estruturam o território agrestino e sertanejo.
Talvez seja essa a chave para compreender Zé do Cão.
Não se trata apenas de um disco sobre o Agreste. É um disco feito a partir do Agreste, por alguém que reconhece naquele território não uma margem, mas um ponto de partida.
Um lugar onde tradição e invenção se encontram.
Onde a pedra também produz eco.
Onde a indústria convive com a oralidade.
Onde o popular pode ser futurista.
E onde sete faixas podem abrir um portal muito maior do que parecem.
Zé do Cão, Cap. 01 é o puro suco da inventividade sonora de Vinícius Tavares.
Um disco para quem vem.
Um disco para quem vai.
E, sobretudo, para quem entende que tudo depende dos olhos de quem olha.
O S.O.M. (Sistema Operacional da Música), o canal de música da Mídia NINJA, bateu um papo com o artista pernambucano Vinícius Tavares.
S.O.M.: Zé do Cão nasce de um território muito específico, Toritama e o Agreste, mas o disco fala de uma experiência que parece ultrapassar as fronteiras desse lugar. O que o Agreste te ensinou sobre invenção, sobrevivência e desejo de mundo, e como isso aparece na sua música?
O local onde o EP foi gerado fica localizado no coração do polo de confecção do estado de Pernambuco. Imagina uma região que é considerada uma das maiores produtoras têxteis do Brasil? Essa região se fundamentou culturalmente em cima de feiras, assim como abriga um dos maiores centros atacadistas do país e também uma das feiras mais conhecidas do mundo, como é a Feira de Caruaru. Crescer nessa região é se deparar com pífanos, orquestras de oito baixos, repente e forró cotidianamente. Essa região é cosmopolita. Eu vejo gente de todo mundo nos visitando para comprar e vender, somos visitados pelo Brasil e pelo mundo inteiro, dá pra perceber os mais diversos sotaques circulando nesta região. É dessa maneira que eu sinto que somos um povo muito inventor, um povo que consegue se desdobrar muito bem com as adversidades da vida. Nada mais justo que trazer essa sagacidade das feiras para Zé do Cão, o desejo de criar uma base sustentável de existência na arte a partir desses temas.
S.O.M.: Você transforma Zé do Cão, personagem inspirado no filme A Noite do Espantalho, em uma espécie de arquétipo do homem agrestino. Quem é esse Zé que você criou e o que ele representa para você hoje?
Zé do Cão é um personagem antigo, ele remonta a histórias desde o cangaço, mas Sérgio Ricardo atribui uma vida a ele em A Noite do Espantalho como ninguém. Quando comecei a pensar em um nome pra me colocar artisticamente, logo me veio “Zé”, por ser um nome muito popular. De alguma maneira, eu gostei porque eu queria que qualquer pessoa se identificasse comigo, eu posso ser qualquer pessoa, inclusive Zé. Existem várias expressões sobre esse nome. Sabe aquela expressão de quando você não conhece alguém e diz da boca pra fora: ele é um Zé. Mas, enfim, Zé acompanhado do Cão me impactou demais, senti que esse nome nunca ia passar despercebido. Eu sou um Zé como qualquer outro, mas eu sou Zé do Cão. E isso não tem nada a ver com essa coisa católica. Todo trabalhador é um Zé do Cão quando sai em busca do pão.
S.O.M.: No EP, aboios, emboladas, rock, eletrococo, instrumentos tradicionais e beats eletrônicos convivem no mesmo universo. Como você entende essa mistura e o que ela revela sobre a própria identidade musical do Agreste contemporâneo?
Eu gosto de pensar que o Agreste é rockeiro em muitos sentidos. Eu sou de uma cidade chamada Toritama, que significa “cidade de pedra” em tupi. Minha cidade é repleta de pedras por toda a paisagem, de alguma maneira eu acho isso muito punk, sabe? Morar nessa região, ser um artista caatingueiro é muito punk. Se a gente for observar, os mandacarus viram spikes, nossa vegetação é extremamente resistente, enfim, isso tudo é tema poético do que a gente conhece como aboio, rock, repente. Minha cidade também é movida economicamente pela indústria do jeans. Imagina que a gente possa andar pelas ruas da cidade e, de vez em quando, encontrar caldeiras abandonadas e que isso, pra Zé do Cão, pode virar uma espaçonave. Tem muita modernidade circulando pela cidade, dessa maneira e por afinidade, eu escolho colocar minha parte criativa a serviço do eletrococo, que é essa mistura musical que está sendo feita em Pernambuco.
S.O.M.: A presença de Nêgo Bispo, assim como as participações de Jéssica Caitano e Virgínia Guimarães, amplia o disco para além de uma experiência individual. Que vozes, saberes e histórias você sente que está carregando quando coloca esse trabalho no mundo?
Jéssica Caitano é uma grande amiga. Eu gosto de dizer que, quando vi ela cantar, eu quis cantar sobre a ruralidade da minha cidade também. Ela é uma das grandes poetas da atualidade e também experimenta dentro desse gênero do eletrococo. Ela é gigante. Nêgo Bispo, pra mim, foi um dos maiores pensadores da atualidade. O que ele fala, qualquer pessoa entende, ele tem um linguajar revolucionário e isso me encantou desde muito tempo. Se o mundo vadiasse mais um pouquinho como ele falava, a gente poderia estar em um lugar muito melhor. Vadiar é uma espada na garganta do capital. A malandragem de Zé do Cão vem desse lugar também. Do mistério e da mandinga de não dar brecha. Virgínia Guimarães é minha amiga e companheira de longa data. Com ela, vivemos e tramamos muitos sonhos a partir das serras, dos lugares mais elevados de visão. Quando a gente quer vadiar, a gente sobe a serra pra deixar a mente correr mundo lá de cima. Ela é a responsável pela direção artística e visual de Zé do Cão, fazemos tudo juntos, inclusive um filho.
Fonte: Mídia NINJA