Vorcaro ordenou ataque para “moer” ex-diretor do BC e tentou rastrear seu celular

0

Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, determinou a realização de uma campanha de ataques contra Renato Dias de Brito Gomes, então diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central (BC), e tentou descobrir sua localização por meio do celular. As mensagens também revelam que o banqueiro buscou informações sobre a vida pessoal do dirigente, incluindo endereços e eventuais antecedentes criminais, em meio às articulações para impedir o veto à venda do Master ao Banco de Brasília (BRB).

As informações foram divulgadas pela coluna da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, com base em mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF). Os diálogos mostram que Vorcaro recorria a Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, para reunir dados sobre Gomes e organizar uma ofensiva contra o diretor, que defendia a intervenção no Master diante das irregularidades identificadas nas operações da instituição financeira.

Vorcaro pediu ataque de mídia para “moer” diretor do Banco Central

Uma das conversas mais reveladoras ocorreu em 31 de agosto de 2025, quando Vorcaro solicitou a Mourão a organização de um “ataque de mídia ao Renato”, utilizando o site Diário do Centro do Mundo (DCM).

O pedido ocorreu em um momento decisivo para o futuro do Master. Gomes era um dos principais defensores do bloqueio à operação de compra pelo BRB, enquanto Vorcaro tentava obter a autorização do Banco Central para concretizar o negócio.

Ao receber a orientação, Mourão respondeu: “Me passa tudo como quer, que já deixo preparado e pronto”.

Vorcaro então especificou o objetivo e a duração da ofensiva: “É para moer ele a partir de amanhã durante uma semana”.

Segundo a reportagem, o banqueiro também havia articulado pagamentos ao DCM como parte de uma estratégia para enfrentar publicações jornalísticas consideradas prejudiciais aos interesses do Master.

A troca de mensagens ocorreu apenas três dias antes de o Banco Central anunciar, em 3 de setembro de 2025, o veto à aquisição do banco de Vorcaro pelo BRB.

Mensagens indicam tentativa de rastrear celular de Renato Gomes

No próprio dia em que a decisão do BC seria divulgada, Vorcaro voltou a procurar Mourão para descobrir onde estava o diretor da autoridade monetária.

Na manhã de 3 de setembro, o banqueiro enviou a seguinte mensagem: “Consegue checar no celular Renato [sic] onde ele está? Rio ou Bsb (Brasília)?”

Mourão respondeu imediatamente: “Vou pedir isto aqui para a turma. Agora”.

A conversa sugere que o grupo ligado ao empresário poderia ter meios de monitorar a localização de Gomes por seu aparelho telefônico. No entanto, as mensagens divulgadas não comprovam que o celular tenha sido efetivamente grampeado ou que Mourão tenha conseguido identificar sua localização.

Também não consta, no material encontrado no aparelho de Vorcaro, uma resposta posterior com o resultado da solicitação.

De acordo com a agenda pública do Banco Central, Gomes cumpriu compromissos internos no Rio de Janeiro naquele dia.

A tentativa de localização ocorreu quando o diretor representava um obstáculo importante aos planos do controlador do Master. Desde pelo menos julho de 2025, Gomes defendia uma intervenção na instituição, diante dos problemas de liquidez e dos indícios de fraude nas operações envolvendo o BRB.

Sicário tentou levantar endereços e histórico de pedidos no iFood

A atuação de Mourão para reunir informações sobre Gomes havia começado semanas antes. Em 7 de agosto de 2025, Vorcaro determinou que seu auxiliar levantasse dados sobre o então diretor do Banco Central.

Cerca de uma hora depois, Mourão encaminhou um dossiê com informações pessoais, mas reconheceu que não havia encontrado elementos comprometedores.

“Tem pouca informação sobre ele. Não tem nenhum veículo registrado no nome dele, emprego só no Banco Central mesmo. Nenhum processo criminal contra ele, nada. Muito limpo”, escreveu Mourão.

O resultado não satisfez Vorcaro, que insistiu na obtenção de informações mais detalhadas: “Precisava endereço Brasília [sic]. E dados mais atualizados”.

Diante da cobrança, Mourão afirmou que Gomes aparentemente não possuía residência fixa em Brasília e apresentou uma alternativa para descobrir os locais frequentados pelo dirigente.

“Se quiser que (eu) faça uma visita no Rio, só falar. Pelo histórico, ele fica em hotel, mas vou pegar o histórico de pedidos dele no Ifood, aí te informo todos os endereços em que ele faz pedido”, escreveu.

A mensagem indica a intenção de utilizar dados de aplicativos de entrega para identificar endereços associados ao ex-diretor do BC. O material divulgado, porém, não demonstra que Mourão tenha efetivamente obtido esses registros.

Vorcaro não respondeu à oferta de uma visita ao Rio de Janeiro, segundo os diálogos apresentados pela reportagem.

Procurado pela equipe de O Globo, Renato Gomes não se manifestou sobre o caso.

Polícia Federal aponta atuação de grupo de intimidação

As mensagens fazem parte do conjunto de informações reunidas pela Polícia Federal nas investigações sobre as atividades de Vorcaro e seus colaboradores.

Segundo a PF, Mourão coordenava um grupo conhecido como “Turma”, responsável por monitorar pessoas consideradas adversárias dos interesses do banqueiro. As atividades atribuídas à organização incluíam vigilância, intimidação e ameaças presenciais.

A tentativa de obter informações sobre Gomes, assim como a proposta de visitá-lo pessoalmente, aparece nesse contexto de atuação do grupo.

Mourão morreu em 6 de março de 2026, dois dias depois de ser preso e atentar contra a própria vida em uma cela da Superintendência da Polícia Federal em Belo Horizonte.

Diretor defendia intervenção no Master antes do veto à venda

O interesse de Vorcaro em acompanhar os movimentos de Renato Gomes estava diretamente relacionado à posição do dirigente nas discussões internas do Banco Central.

À frente da Diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução entre 2022 e 2025, Gomes defendia uma resposta mais rigorosa às irregularidades encontradas no Master.

O banco enfrentava dificuldades recorrentes de liquidez e estava sob escrutínio de técnicos da autoridade monetária, que analisavam tanto sua situação financeira quanto os termos da operação de aquisição pelo BRB.

Entre 2024 e 2025, o Master transferiu ao banco estatal de Brasília carteiras de crédito consignado avaliadas em aproximadamente R$ 12 bilhões.

Durante a análise das operações, técnicos do Banco Central identificaram indícios de que os contratos utilizados para lastrear parte desses créditos eram falsos. As descobertas foram comunicadas à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal (MPF).

As suspeitas contribuíram para ampliar a resistência à aprovação da compra e fortaleceram a posição dos integrantes do BC favoráveis a uma intervenção no Master.

O posicionamento de Gomes também provocou divergências na cúpula da autoridade monetária, especialmente com o diretor de Fiscalização, Aílton Aquino.

Vorcaro buscava apoio para viabilizar negócio com o BRB

Enquanto enfrentava obstáculos técnicos e regulatórios, Vorcaro mantinha contatos com advogados, profissionais de comunicação e interlocutores políticos para tentar preservar a operação.

Entre os nomes mencionados nas conversas analisadas pela reportagem estão o advogado Walfrido Warde, o publicitário Thiago Miranda e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega.

Os diálogos indicam preocupação com o avanço das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, além da repercussão das suspeitas de irregularidades na imprensa.

Segundo O Globo, as mensagens também sugerem que Vorcaro discutiu com Warde a possibilidade de recorrer ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A coluna afirma ainda que, conforme sua apuração, Moraes chegou a procurar o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para pressionar pela autorização da compra do Master pelo BRB.

A operação havia sido anunciada em março de 2025 e mobilizou diferentes setores políticos. Parlamentares de diversos partidos atuaram nos bastidores em defesa da aquisição, enquanto uma tentativa de instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o negócio não avançou.

Apesar dessas articulações, o Banco Central rejeitou a operação em setembro de 2025.

Fraudes investigadas levaram à liquidação do Banco Master

As irregularidades identificadas nas carteiras de crédito negociadas com o BRB deram origem a investigações que avançaram sobre a atuação dos dirigentes envolvidos nas operações.

O trabalho resultou em uma operação policial que levou à prisão de Vorcaro e de outros seis executivos ligados ao caso, além de contribuir para o processo que culminou na liquidação do Banco Master.

O episódio também provocou o afastamento de Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB.

Gomes esteve entre os dirigentes que defenderam a liquidação da instituição de Vorcaro, considerando os problemas financeiros e as suspeitas de fraude identificadas nas análises do Banco Central.

Após deixar a autoridade monetária, o economista assumiu, em outubro de 2026, a presidência da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), entidade que representa instituições financeiras de médio porte.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *