Vitória de Flávio Bolsonaro pode consolidar domínio de Trump na América Latina, diz The New York Times
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – A eleição presidencial brasileira pode representar um passo decisivo para a estratégia do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ampliar sua influência política, econômica e militar sobre a América Latina. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno marcado para 25 de outubro, colocaria o maior país da região sob o comando de um aliado declarado da Casa Branca.
A avaliação é apresentada em reportagem do jornal americano The New York Times, que analisa o avanço de governos de direita na América Latina e suas consequências para a política externa dos Estados Unidos. Segundo a publicação, o Brasil representa a principal peça que ainda falta na estratégia de Trump para consolidar uma rede de aliados políticos no continente.
Nos últimos 18 meses, candidatos de direita conquistaram a Presidência em sete países latino-americanos. No Brasil, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, enquanto partidos e candidatos de direita ampliaram sua presença no Congresso Nacional e nos governos estaduais. O resultado fortaleceu as expectativas de uma mudança na orientação diplomática brasileira.
A importância do Brasil nesse cenário está relacionada ao seu peso econômico, territorial e demográfico. Como maior economia e país mais populoso da América Latina, uma aproximação do governo brasileiro com Washington poderia alterar significativamente o equilíbrio político regional.
Aliança com Flávio Bolsonaro ampliaria influência americana
O New York Times destaca que Flávio Bolsonaro mantém uma relação de alinhamento político com Trump, seguindo a orientação adotada por seu pai, Jair Bolsonaro, durante o primeiro mandato do presidente americano.
O senador já manifestou disposição de integrar o Brasil ao Escudo das Américas, iniciativa liderada pelos Estados Unidos para coordenar ações de combate a organizações criminosas na região. A proposta prevê o fortalecimento da cooperação entre governos latino-americanos e autoridades americanas, especialmente nas áreas de inteligência e segurança.
Flávio também defendeu uma aproximação com Washington no enfrentamento ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho. Segundo a reportagem, o parlamentar pressionou o governo americano para que as duas facções brasileiras fossem classificadas como organizações terroristas.
O jornal lembra ainda que, em publicações nas redes sociais no ano passado, o senador chegou a sinalizar apoio à possibilidade de uma intervenção militar americana no Brasil. Posteriormente, em entrevistas, negou defender essa medida e afirmou que a cooperação com os Estados Unidos ficaria restrita ao compartilhamento de informações de inteligência.
A posição de Flávio contrasta com a orientação adotada pelo governo Lula, que tem defendido a preservação da soberania nacional e manifestado preocupação com a crescente disposição de Washington de interferir em assuntos internos de países latino-americanos.
Trump amplia presença militar e pressão sobre governos latino-americanos
A reportagem relaciona o avanço eleitoral da direita a uma estratégia mais ampla de Trump para reforçar o protagonismo americano no continente.
O governo dos Estados Unidos tem recorrido a tarifas comerciais, sanções econômicas, restrições de vistos, operações militares e pressões diplomáticas para ampliar sua influência regional. Entre as medidas mencionadas estão o bloqueio ao petróleo de Cuba e a captura de Nicolás Maduro, na Venezuela.
Essa política é apresentada como uma versão mais agressiva da Doutrina Monroe, formulada em 1823, que estabeleceu as bases históricas da reivindicação americana de predominância sobre o Hemisfério Ocidental.
Um dos principais instrumentos dessa estratégia é o combate ao narcotráfico. O governo Trump passou a tratar grandes organizações criminosas latino-americanas como ameaças comparáveis a grupos terroristas internacionais.
De acordo com os números apresentados pela reportagem, o Departamento de Estado classificou 21 organizações criminosas da América Latina como terroristas. Paralelamente, o Pentágono realizou 71 ataques contra embarcações em águas próximas ao continente, provocando a morte de quase 240 pessoas apontadas pelas autoridades americanas como narcotraficantes.
A legalidade dessas operações, entretanto, é contestada por especialistas em direito internacional.
No mês passado, militares americanos também participaram de uma operação policial contra um cartel no Equador, em mais uma demonstração da ampliação da presença militar dos Estados Unidos na região.
Coalizão reúne 18 países e prevê operações militares conjuntas
O Escudo das Américas já conta com a adesão de 18 países latino-americanos. Pelo menos quatro deles — Colômbia, Guatemala, Honduras e Equador — concordaram em desenvolver operações militares conjuntas com o Pentágono.
Em agosto, o Departamento de Defesa americano anunciou a criação de uma força-tarefa voltada ao Hemisfério Ocidental, concebida para centralizar informações de inteligência e coordenar operações entre países aliados.
Além disso, 14 países acompanharam Washington na classificação de diferentes cartéis como organizações terroristas.
Especialistas ouvidos pela publicação avaliam que a cooperação internacional pode contribuir para identificar fluxos financeiros ilícitos e enfraquecer estruturas de lavagem de dinheiro utilizadas pelo crime organizado.
As maiores organizações do narcotráfico operam em diferentes países, movimentam recursos através das fronteiras e mantêm redes financeiras complexas. Nesse contexto, sanções coordenadas poderiam ampliar a capacidade dos governos de atingir o patrimônio dessas organizações.
Durante discurso a representantes latino-americanos nas Nações Unidas, no mês passado, Trump apresentou a iniciativa como uma mudança na relação dos Estados Unidos com seus aliados.
“Vocês estavam por conta própria”, afirmou o presidente americano. “Agora, não estão mais.”
Apesar das promessas, permanecem dúvidas sobre a eficácia da estratégia. Especialistas apontam que os ataques americanos contra embarcações não produziram uma redução significativa no fluxo de cocaína. Também faltam informações sobre o funcionamento operacional da coalizão e sua continuidade após o término do mandato de Trump.
Lula alerta para riscos à soberania da América Latina
A possibilidade de uma vitória de Flávio Bolsonaro também ganha relevância diante dos conflitos diplomáticos entre os governos brasileiro e americano.
O New York Times recorda que Trump tentou pressionar o Brasil durante o processo judicial contra Jair Bolsonaro, acusado de envolvimento em uma tentativa de golpe de Estado.
Na ocasião, Washington impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, em uma iniciativa interpretada como tentativa de interferência no funcionamento das instituições nacionais. A pressão não impediu a condenação do ex-presidente.
O governo americano também restringiu a concessão de vistos a integrantes da Polícia Federal brasileira, em meio ao agravamento das tensões diplomáticas.
Desde então, Lula tem ressaltado a necessidade de os países latino-americanos preservarem sua autonomia política diante das pressões externas, especialmente em questões relacionadas à segurança e ao funcionamento das instituições democráticas.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, sustenta que a principal ameaça à soberania brasileira não está na influência americana, mas na atuação das facções criminosas.
O senador também declarou que pretende buscar referências na política de segurança pública de Nayib Bukele, presidente de El Salvador. O governo salvadorenho registrou uma forte redução dos índices de criminalidade, mas enfrenta denúncias de violações de direitos humanos e de práticas autoritárias.
Avanço da direita redesenha cenário político regional
A análise do jornal americano aponta que a expansão de governos alinhados a Trump está alterando as relações de poder na América Latina.
Na Colômbia, a eleição de Abelardo de la Espriella representou mais uma vitória da direita, após um período de tensões entre Washington e o governo de esquerda anterior.
O México, embora permaneça sob um governo de esquerda, ampliou a cooperação em segurança com os Estados Unidos. A relação bilateral, no entanto, apresenta características próprias, especialmente pela extensa fronteira compartilhada e pela integração econômica entre os dois países.
Nesse cenário, Brasil, México e Uruguai são apresentados pela reportagem como as três democracias latino-americanas ainda governadas pela esquerda.
O resultado do segundo turno brasileiro, portanto, terá repercussões que ultrapassam as fronteiras nacionais. Uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia aproximar Brasília da estratégia regional de Trump, particularmente na segurança pública e na cooperação militar, enquanto a reeleição de Lula manteria no comando da maior potência latino-americana um governo que defende maior autonomia diante de Washington.
Fonte: Brasil 247