Vitor Ramil: ‘O Brasil está escolhendo entre a democracia e o autoritarismo’

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Por Fabiana ReinholzBrasil de Fato

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Vitor Ramil e o cantor uruguaio Daniel Drexler se apresentam juntos nesta quarta-feira (23), em Porto Alegre, no show de inauguração do Teatro Bancários RS. A apresentação reúne dois artistas ligados à música do Prata e a uma trajetória de aproximação cultural entre Brasil, Uruguai e Argentina. O show terá duas sessões, 18h e 20h.

Em entrevista ao Brasil de Fato RS, Ramil fala sobre as quase três décadas de Ramilonga, trabalho que considera um marco zero em sua trajetória e na construção de uma linguagem própria para abordar o imaginário regional. O músico também comenta a Estética do Frio, tema de um novo livro, sua relação com a literatura, a aproximação com músicos argentinos e uruguaios e a parceria com Mercedes Sosa.

Na conversa, Ramil também aborda o cenário político brasileiro, a relação entre cultura e soberania e o posicionamento político dos artistas. Ao final, deixa uma mensagem aos eleitores: “Pensem no Brasil. Pensem menos em si mesmos, nos seus interesses. Pensem no país. Pensem a longo prazo. Pensem grande. Enfim, pensem com soberania.”

Brasil de Fato RS: A Ramilonga tem quase 30 anos. Como tu vês esse período? O que a obra representa hoje, em termos de estética, e o que mudou ou permanece atual?

Vitor Ramil: O Ramilonga, para mim, foi um marco zero. Eu tenho uma primeira fase no meu trabalho que chamo de precoce. Comecei muito garoto, com 18 anos gravando, e fui tateando, buscando meus caminhos. No Ramilonga encontrei uma linguagem minha, uma maneira de abordar o imaginário regional que não fosse vinculada às coisas do folclore tradicionalista ou do nativismo.

Era bem difícil encontrar esse caminho, mas acho que encontrei ali. E ele teve uma repercussão muito grande para mim ao longo dos anos. Acho que também teve uma repercussão grande para a cena do Rio Grande do Sul, para as pessoas, e essa coisa da Estética do Frio veio em um pacote, vamos dizer assim, na época.

Me fala um pouco sobre a Estética do Frio…

Eu acabei de escrever um livro novo sobre esse assunto, que deve sair no ano que vem. Esse texto agora é um aprofundamento de coisas que, na época, eu mais ou menos pincelei numa palestra que dei em Genebra, na Suíça, num encontro chamado “Porto Alegre à Notre-Brasil”, que um nome um pouco inspirado na ideia de centro de uma outra história.

Eu falo de uma proposição de a gente enfrentar os estereótipos, tanto gauchescos como os de brasilidade. Mas não é uma proposição de um movimento, nem quero, nem nunca pretendi que as pessoas me seguissem em termos do que fazer.

De certa forma, a Estética do Frio é uma proposição de estéticas do frio, convidando as pessoas a olharem o Rio Grande do Sul e abordarem o nosso imaginário de um novo ponto de vista. 

E que ponto de vista seria esse?

Um ponto de vista novo, sem a estereotipada toda, sem o peso, particularmente, do tradicionalismo, que foi basicamente o que me fez reagir.

Na época, eu reagi a um estado de coisas em que o Brasil só nos via como “gauchão a cavalo”. A gente era um grande clichê de nós mesmos. E me dei conta do quanto isso foi incutido nas pessoas ao longo de muitos anos.

Eu me mobilizei contra isso porque acho que acabou afetando negativamente a nossa música urbana no Rio Grande do Sul e a nossa imagem para o Brasil. Dificultou ainda mais a nossa comunicação com o resto do país.

O Ramilonga é uma milonga urbana, então não necessariamente essa música tem que falar do campo, do cavalo, desse ou daquele assunto

E nesse sentido tem essa questão da imagem do gaúcho que está associada ao machismo. Como tu enxergas essa questão?

O machismo é uma das facetas. Tem vários detalhes. O Ramilonga impactou muito porque a instrumentação era totalmente fora do que a música regional costuma fazer. Era a maneira de cantar, tudo foi muito assumido, muito trabalhado.

O tema das canções, por exemplo: o Ramilonga é uma milonga urbana, então não necessariamente essa música tem que falar do campo, do cavalo, desse ou daquele assunto.

Se tu ouve Alceu Valença, Lenine, qualquer artista do Nordeste, eles usam gêneros populares do Nordeste, dos seus estados, das suas regiões, mas tratam isso como canções normais. Eles têm canções de amor, canções existenciais e tudo mais.

E o Rio Grande do Sul, com o peso do legado tradicionalista, foi ficando sempre voltado para o mundo do gaúcho, o vocabulário do gaúcho e tudo mais.

O Ramilonga, então, foi uma mexida forte nessa direção. E essa questão do machismo mesmo: na época, fui bastante zoado por alguns, porque cantava com voz normal, sem cantar assim, entendeu? (como tenor grave) Então, isso é uma das coisas que realmente me marcou bastante.

Entrando no campo da literatura: como a literatura influencia as tuas músicas e como as tuas músicas influenciam o teu fazer literário?

Para mim é uma coisa só, é um pacote, embora eles demandem de mim de modo diferente. Agora mesmo, para fazer esse livro, eu estava fazendo uma ficção e um ensaio, que era a Estética do Frio. Parei a ficção para poder concluir o ensaio. Foram anos de trabalho.

Quando estou viajando, fazendo música, tocando, fazendo show, não consigo escrever. Então era um trabalho em que eu tinha que pesquisar, estar em casa, ler muitos livros. Ele exigiu de mim isso: parar em casa para me dedicar. Mas, em termos do resultado em si, não vejo diferença entre uma coisa e outra, entre a música e o texto.

Essas são coisas que faço desde criança. Me acostumei desde menino a tentar escrever, compor e cantar. Tudo isso veio crescendo junto, embora, claro, eu me dedique muito mais à música, porque é o meu trabalho, meu trabalho de sobrevivência também. E, a cada tanto, lanço um livro, sem urgência, sem nada.

Tens também o teu livro a “Primavera da Pontuação”.

A “Primavera da Pontuação” é a minha última ficção. É um texto divertido, diferente dos anteriores. Um texto em que não há personagens humanos. Quer dizer, tudo no final é humano, mas os personagens são da gramática.

Foi uma experiência incrível para mim. Acho que é o meu trabalho mais legal, o que eu mais gosto de ter feito, o que mais me desafiou.

Eu tomei conta da biblioteca da minha mulher, que é linguista, e lá tomei um banho de linguagem e fiz o livro.

Tu vens de uma família de músicos. Como isso te influenciou?

É um privilégio. Para mim, por exemplo, sexto filho, todo mundo antes de mim tocava, cantava, compunha. Isso foi um grande estímulo desde sempre, muito aprendizado.

Isso faz uma diferença e também mostra que a música, numa educação infantil, numa formação, é um negócio muito importante. Quem tem em casa, opa, se deu bem.

O fato de ir para o Interior me endureceu o cerne, vamos dizer assim, me deu substância

O que é o Sul para ti?

O Sul, no meu caso, profissionalmente, é um pouco uma meta minha, pensando no contexto brasileiro, do grande Brasil tropical, tanto que eu voltei do Rio de Janeiro para viver no Sul. E sempre vi isso como algo que teria que me abastecer, em vez de me dizer: “Ah, eu estou longe do centro do país, é mais difícil trabalhar”.

Não, eu pensei sempre o contrário. E achei que, se eu atuasse dessa maneira, isso poderia repercutir para muita gente daqui, porque através da cultura, mas não de uma cultura restritiva ao lugar.

E eu ainda moro no Interior (Pelotas). O Interior é um lugar de desprestígio. Ninguém quer morar no Interior. O cara que vai para a maior cidade do Brasil, “ó, foi vencer na vida”. Quem vai para o Interior fracassou, não saiu de lá. Tem esses estigmas.

Eu acho que, ao contrário, para mim, o fato de ir para o Interior me endureceu o cerne, vamos dizer assim, me deu substância. Inclusive para olhar o mundo. O fato de estar fora de um centro, a gente toma distância das coisas. Ainda mais hoje em dia, que a gente tem comunicação igualzinha a uma pessoa que está no centro de São Paulo nesse momento. Nós temos a mesma comunicação no interior do Rio Grande do Sul, se a gente quiser, né? E a gente se abastece de outras coisas também.

A gente tem uma relação diferente com o tempo, com a passagem do tempo, com as modas, com aquilo que é relevante e não é relevante. Tem menos açodamento, menos pressão para fazer as coisas. O tempo em que eu morei no Rio de Janeiro, isso me incomodava um pouco. Mas isso vai de cada um. Eu não acho que isso seja uma regra para todos.

Tem gente que vai para os lugares mais centrais e tal e se abastece justamente disso. Eu não. Eu me abasteço do contrário. Eu não gosto de falar de mim representando o todo. Mas eu sempre funcionei dessa maneira.

A gente está, de certa forma, escolhendo entre a democracia e o autoritarismo, entre a soberania e a subserviência aos Estados Unidos

Queria entrar agora no cenário político. Quando entrevistamos a Liliana Herrero, ela falou sobre a realidade da Argentina e o governo Milei. Como tu vês o posicionamento dos artistas neste momento político?

O momento do Brasil é extremamente delicado. A gente está, de certa forma, escolhendo entre a democracia e o autoritarismo, entre a soberania e a subserviência aos Estados Unidos. É basicamente o que está posto. E isso não é nada veladamente posto. Está tudo posto às claras no mundo. Então, o Brasil está dentro desse processo.

A Argentina está sofrendo muito com isso. Conheço vários argentinos, todos se queixam das condições do país. A gente sabe que são muito ruins e a gente ouve aqui economistas defendendo a aplicação das mesmas iniciativas do Milei. Então, realmente, economicamente é muito arriscado. Para a cultura, a gente não eleger o governo do Lula é uma coisa extremamente complicada também.

Eu acho que o Brasil pode despontar para o subdesenvolvimento se o Lula não for presidente. Porque o país precisa se reindustrializar, principalmente isso. Precisa aprofundar uma série de coisas que os adversários do Lula não propõem, nenhum deles.

Tu participaste do projeto La Pampa Grande, que abriu o 33º Porto Alegre em Cena. Poderia comentar sobre essa tua relação com os músicos da Argentina e do Uruguai.

Pois é, eu já tenho de longa data uma relação com eles. E essa relação se aprofundou quando começaram os encontros Porto Alegre em Buenos Aires e Buenos Aires em Porto Alegre, na época de uma das administrações petistas, justamente aqui em Porto Alegre, que foi um dos melhores períodos.

Me custa muito entender a recusa dos gaúchos, dos rio-grandenses. Prefiro dizer aos governos do PT porque eles foram muito bons para a Capital, para o Estado, mas realmente a força contrária foi muito grande, os interesses da oposição.

Acho que foi um período maravilhoso para a nossa cultura, vamos ficar sem falar de todo o resto. Para a cultura foi maravilhoso. A gente se aproximou dos países do Prata.

Eu já tinha essa relação, já conhecia o Pedro Aznar, a Mercedes Sosa e tal. Aí pude aprofundar, tocar, me apresentar, formar algum público lá e tudo mais. E não foi só para mim, para muita gente aconteceu.

Então isso não parou mais. Isso produziu essa minha percepção de que nós estamos no centro de outra história, não à margem de um centro que seria o centro de São Paulo, Rio de Janeiro. Isso se aprofundou muito a partir desse momento em que pude conviver mais com os músicos, os artistas do Prata.

Pensem no Brasil. Pensem menos em si mesmos, nos seus interesses. Pensem no país. Pensem a longo prazo. Pensem grande. Enfim, pensem com soberania

Queria falar também sobre a tua relação com Mercedes Sosa. Como foi essa parceria e o que ela significou para a tua trajetória?

Pois bem, a Mercedes gravou “Semeadura”, uma música que fiz com 17 anos. Ela primeiro gravou com meus irmãos. É uma parceria minha com José Fogaça.

Ela primeiro gravou no disco em espanhol do Kleiton e Kledir. Aí ela gostou muito da música e começou a cantar. A música se tornou um sucesso aqui e no exterior também, eu digo exterior, longe daqui.

Depois de uns anos, ela me ligou um dia querendo cantar “Não É Céu”, uma canção minha que posso dizer que é uma espécie de bossa nova, embora não seja, mas tem mais essa brasilidade e tal.

Achei muito significativo isso, porque ela avalizou a minha primeira milonga e depois avalizou a minha primeira bossa. Ela significa muito para mim também porque a Mercedes era muito exigente com repertório. Muito exigente. Então, nessa ocasião, com ‘Não É Céu”, ela me convidou para ir para a casa dela em Buenos Aires. Fui para lá, fiquei uma ou duas semanas, não me lembro bem.

Foi um período em que, além de versionar “Não É Céu”, fiquei versionando outras músicas, e isso deu no Tambong, primeiro disco que gravei lá. Gravei com o Pedro Aznar produzindo, músicos argentinos e também participações brasileiras. Foi um disco muito, muito bacana.

E a Mercedes… Hoje herdamos da Mercedes a neta dela, Araceli, que já era minha amiga na época e hoje gravou “Estrela Estrela”, minha canção. É uma das amigas mais queridas de lá e agora mora no Rio de Janeiro.

Para fechar, que mensagem tu gostarias de deixar?

Ah, votem bem. Pensem no Brasil. Pensem menos em si mesmos, nos seus interesses. Pensem no país. Pensem a longo prazo. Pensem grande. Enfim, pensem com soberania.

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Fonte: Brasil de Fato

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