Violência política no 1º turno das eleições atinge 134 casos e tem mulheres como principais alvos

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Por Guilherme Levorato — Brasil 247

247 – O Brasil registrou 134 casos de violência política nos 50 dias de campanha eleitoral do primeiro turno, iniciados em 16 de agosto e encerrados no último domingo (4), o que equivale a um episódio registrado a cada nove horas no país, apontam dados da 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, produzida pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global.

O total de ocorrências representa um aumento em relação ao primeiro turno das eleições de 2022, quando foram contabilizados 121 episódios. Durante o período eleitoral, a frequência da violência política foi cinco vezes maior do que no período pré-eleitoral: entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, intervalo de 22 meses, haviam sido registrados 354 episódios, resultando em uma média de um caso a cada 44 horas.

“Não se pode admitir a naturalização de episódios violentos que ocorrem com tamanha intensidade e frequência, cujo propósito manifesto é cercear a livre expressão de ideias e propostas de determinados representantes políticos. Esse cenário de hostilidade, além de intimidar, gera rupturas profundas no nosso sistema democrático exigindo do Estado uma resposta firme e proporcional à gravidade da situação”, destaca a coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, Gisele Barbieri.

O estudo indica uma mudança significativa no perfil dos alvos e na dimensão territorial das disputas. Dos 134 episódios do primeiro turno, 102 foram dirigidos a pessoas com candidaturas registradas, correspondendo a 76,1% do total. Os outros 32 casos atingiram pessoas que não disputavam o pleito: 19 vereadores, três prefeitos, um vice-prefeito e dois secretários regionais. Houve ainda quatro ocorrências contra dirigentes partidários e duas contra sedes do PT e a equipe de uma candidata.

Diferente do período pré-eleitoral, no qual 63% dos episódios se concentraram na esfera municipal, a violência no primeiro turno passou a atingir majoritariamente postulantes e ocupantes de cargos federais e estaduais. Ao todo, 54 casos (40,3%) envolveram cargos federais, 48 episódios (35,8%) atingiram cargos estaduais e 25 ocorrências (18,7%) afetaram o âmbito municipal.

Em relação às tipologias registradas, a ameaça foi a violência mais recorrente, somando 64 casos. Na sequência, surgem 33 episódios de ofensa e 19 de agressão física. Foram contabilizados também 11 atentados, cinco casos de criminalização e dois assassinatos — ambos vitimando agentes públicos municipais, sendo um vereador e um secretário municipal. O espaço público refletiu o acirramento das campanhas: 71 casos (mais da metade do total) ocorreram na rua, durante atividades eleitorais ou eventos públicos.

“Os dados trazem importantes achados para identificar os ambientes em que agentes políticos estão mais vulneráveis e pensar medidas de proteção. Quando eleitas, essas pessoas passam a ser vítimas de violências principalmente nos seus locais de atuação, seja no parlamento ou no executivo”, aponta Gisele.

A coordenadora manifestou preocupação com a incidência das agressões no ambiente virtual, que respondeu por 31,3% dos casos registrados no primeiro turno, ante 42,4% no período pré-eleitoral. Segundo a especialista, o número elevado é reflexo da ausência de regulação das redes sociais. “É preciso que as plataformas tenham responsabilidade sobre a circulação desses conteúdos violentos. Nas redes ou nas ruas, a violência está sendo utilizada para intimidar e impedir que determinadas candidaturas e propostas possam se expressar”, avalia.

As mulheres continuam figurando como as principais vítimas da violência política no país. Se no período pré-eleitoral elas somavam 50,6% dos alvos, no primeiro turno o percentual subiu para 52,2%, com 70 casos vitimando mulheres cisgênero e trans. Os homens foram vítimas em 61 casos, enquanto os três episódios restantes envolveram as sedes do PT (em Macapá e Campina Grande) e a equipe de uma candidata.

O recorte fica ainda mais evidente ao analisar apenas os ataques contra candidaturas registradas: dos 102 episódios dirigidos a candidatos, 60 tiveram mulheres como alvos, o equivalente a 58,8%. O dado revela uma desproporção, já que as mulheres representam cerca de um terço do total de candidaturas registradas no pleito. Nas edições anteriores do levantamento, as mulheres representavam 41,3% das vítimas no período pré-eleitoral de 2020 a 2022, 38% no período eleitoral de 2022 e 38,4% entre 2022 e 2024.

A pesquisa detalha divergências nos padrões de agressão sofridos por homens e mulheres. Do total de 32 episódios de violência física (agressões, atentados e assassinatos), as mulheres foram alvos de 21,9% dos casos, enquanto os dois assassinatos, dez dos 11 atentados e todas as 12 ocorrências envolvendo armas de fogo vitimaram exclusivamente homens. Por outro lado, dos 97 episódios de violência simbólica (ameaças e ofensas), as mulheres responderam por 61,9% das ocorrências (60 casos), além de serem as vítimas exclusivas de todas as sete ameaças de violência sexual registradas.

Entre as ocorrências voltadas contra mulheres, 53 dos 70 casos (75,7%) apresentaram marcadores discriminatórios explícitos, sendo 45 associados ao machismo ou misoginia, nove ao racismo e cinco à transfobia. A dimensão racial também apresentou impacto expressivo: pessoas negras (pretas e pardas) somaram 44,8% (60) de todas as vítimas do primeiro turno. Entre as mulheres atingidas, 19 eram pretas. As mulheres negras representaram 24,6% dos episódios de violência política, apesar de constituírem 18,2% das candidaturas registradas. Nos 13 episódios em que o racismo apareceu de forma explícita, oito vitimaram mulheres pretas.

“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira. Quando essas formas de discriminação se cruzam, elas se reforçam e ampliam as barreiras à participação política, tornando ainda mais difícil o acesso e a permanência desses grupos nos espaços de poder”, observa Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global.

O levantamento revela que em 26 episódios (19,4% do total) o autor identificado era um agente público, divididos entre 14 parlamentares ou governantes, sete agentes de segurança e cinco outros servidores. Apesar das identificações, nenhum dos 134 episódios havia resultado em punição efetiva até o encerramento do levantamento. As atuações da Justiça Eleitoral identificadas durante a campanha limitaram-se, em pelo menos oito casos, a medidas de urgência como remoção de conteúdos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas, ações que interrompem a violência em curso, mas não configuram a responsabilização final dos agressores.

Geograficamente, São Paulo lidera o número de ocorrências com 16 registros, seguido por Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10). Regionalmente, o Nordeste somou 48 casos, superando o Sudeste, que registrou 38 episódios.

Ao todo, 114 pessoas foram vítimas diretas no período, sendo que 11 foram atingidas mais de uma vez. A pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil monitora violações contra lideranças e agentes políticos desde 2016 e já contabilizou 2.071 episódios. A metodologia combina checagem diária da cobertura jornalística nacional e regional com o cruzamento de registros oficiais e denúncias públicas. Os dados consolidados das eleições de 2026, incluindo o segundo turno, serão divulgados pelas organizações em novembro.

Fonte: Brasil 247

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