Veja cronologia dos contatos e encontros entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – A Polícia Federal reuniu uma sequência de mensagens, ligações e encontros entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, ao analisar a possível atuação do parlamentar na busca por recursos para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
De acordo com o G1, investigadores identificaram contatos diretos entre os dois ao longo de 2025. O documento integra os autos que tiveram o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A apuração sustenta que Flávio Bolsonaro participou diretamente das tratativas sobre o financiamento da produção. Os agentes citam cobranças por repasses, pedidos de reunião, acompanhamento do cronograma de filmagens e contatos realizados quando o projeto enfrentava dificuldades de caixa.
O senador Flávio Bolsonaro negou inicialmente ter solicitado dinheiro a Vorcaro para o filme. Depois, confirmou que buscou recursos junto ao ex-banqueiro. O senador afirma que tratou de uma captação privada de patrocínio, nega ter recebido valores e rejeita qualquer irregularidade.
Primeiro contato direto aparece em agosto de 2025
A PF localizou em 20 de agosto de 2025 o primeiro registro direto de conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O banqueiro sugeriu um horário ao escrever “21 pode ser”, e o senador confirmou. Às 21h47, Flávio informou que estava “a caminho”.
Para os investigadores, a conversa aponta para a realização de um encontro presencial.
Poucas semanas depois, em 8 de setembro, Flávio enviou um áudio no qual cobrou repasses para a produção de “Dark Horse”. Na mensagem, demonstrou preocupação com pagamentos pendentes e com compromissos assumidos com integrantes do projeto.
O senador citou o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e informou que trataria da situação no dia seguinte.
Reuniões e transferência entram na linha do tempo
Em 15 de setembro, o empresário Thiago Miranda comunicou a Vorcaro que Flávio queria encontrá-lo para apresentar imagens já gravadas. Miranda sugeriu que a reunião ocorresse na residência do ex-banqueiro, em Brasília, e Vorcaro concordou.
No dia seguinte, 16 de setembro, os registros analisados pela PF mostram uma ligação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro.
A data coincide com uma transferência de US$ 1,66 milhão feita pela Entre Investimentos para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, segundo dados do Coaf citados pela investigação.
A coincidência temporal integra a apuração, mas os elementos apresentados não demonstram, por si só, que a ligação determinou a remessa.
Em 17 de setembro, uma nova troca de mensagens indica outra tentativa de encontro. Um dos registros menciona “14:30?”. Os investigadores também localizaram novos esforços de agendamento nos dias 23 e 24.
Flávio Bolsonaro alertou sobre falta de recursos durante as filmagens
O relatório aponta que as conversas continuaram quando as gravações já estavam em andamento.
Em 22 de outubro, Flávio Bolsonaro informou a Vorcaro que a produção havia chegado ao terceiro dia de filmagens e estava “no limite” do orçamento. O senador pediu uma definição sobre os recursos e afirmou que precisaria buscar “outro caminho com urgência” caso o aporte não saísse.
Vorcaro respondeu que verificaria o tema e disse que havia liberado outra parcela.
Na mesma data, Flávio Bolsonaro convidou o ex-banqueiro para um jantar em São Paulo com Jim Caviezel e Cyrus Nowrasteh.
Entre o fim de outubro e o início de novembro, Thiago Miranda voltou a procurar Vorcaro e afirmou que valores apontados como pagos ainda não haviam chegado aos destinatários no exterior.
“Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”
Em 7 de novembro, Flávio Bolsonaro enviou a Vorcaro um vídeo relacionado à produção e agradeceu pelo apoio financeiro ao projeto.
“Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc!”, escreveu o senador.
A mensagem aparece entre os elementos usados pela PF para sustentar que a participação de Flávio ultrapassou uma referência indireta ao financiamento e envolveu contato frequente com Vorcaro.
Nove dias depois, em 16 de novembro, Flávio tentou telefonar para o ex-banqueiro e enviou novas mensagens.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu.
Vorcaro respondeu com uma imagem de visualização única. Flávio encerrou a conversa com “Amém”.
Prisão de Vorcaro ocorreu no dia seguinte
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal na noite de 17 de novembro de 2025, quando tentava embarcar em um jato particular com destino ao exterior.
Na manhã seguinte, a PF deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero.
A cronologia elaborada pelos investigadores termina, nesse trecho, na véspera e no momento que antecederam a prisão do ex-banqueiro.
Senador admitiu encontro posterior
Outro encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro veio a público em maio de 2026, mas não consta da cronologia descrita nesse relatório da Polícia Federal.
O senador confirmou que se reuniu com Vorcaro no período em que o ex-dono do Master cumpria prisão domiciliar e usava tornozeleira eletrônica, entre a primeira e a segunda prisão.
O parlamentar afirmou que o encontro serviu para “botar ponto final na questão” relacionada ao filme “Dark Horse”.
Eixos das investigações da PF
A Polícia Federal dividiu a apuração sobre o financiamento de Dark Horse em cinco frentes principais. Os investigadores querem identificar a origem do dinheiro usado na produção, definir a função das pessoas envolvidas, esclarecer as remessas feitas ao exterior pela Entre Investimentos, descobrir quem recebeu os recursos movimentados por fundos nos Estados Unidos e reunir documentos capazes de reconstruir contratos, pagamentos e transferências.
O primeiro eixo acompanha o fluxo financeiro desde a origem. A PF busca saber de onde saíram os valores destinados ao filme, por quais empresas e estruturas eles passaram e como terminaram aplicados na produção.
O caso ganhou dimensão pública depois que o Intercept Brasil revelou conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro.
Os documentos indicam que Vorcaro participou do financiamento e manteve tratativas diretas com Flávio Bolsonaro, que cobrou repasses e acompanhou os pagamentos. A investigação aponta que o ex-banqueiro teria direcionado R$ 61 milhões à produção por meio do fundo Havengate, nos Estados Unidos.
Outro conjunto de documentos, que teve o sigilo retirado na sexta-feira (11), aponta que Flávio Bolsonaro também teria negociado US$ 24 milhões para o filme, montante equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época.
Entre os valores que aparecem na investigação estão R$ 75,1 milhões, soma que a produtora afirma ter desembolsado; R$ 61 milhões, quantia atribuída a Vorcaro por meio do fundo norte-americano; R$ 134 milhões, valor que Flávio Bolsonaro teria negociado antes da prisão do ex-banqueiro; e R$ 108 milhões, cifra referente ao contrato entre a ONG de Karina da Gama e a Prefeitura de São Paulo para instalação de wi-fi na capital.
PF quer definir o papel de cada personagem
A segunda linha de apuração tenta estabelecer a participação de Flávio Bolsonaro, Eduardo Nantes Bolsonaro, Mário Luis Frias, Thiago Miranda Silva, Fabiano Campos Zettel, Paulo Sergio Camin Calixto, Altieres Santana e outras pessoas relacionadas ao caso.
Os investigadores querem delimitar a atuação de cada um tanto na produção de Dark Horse quanto nas operações financeiras associadas ao projeto.
Entre Investimentos entrou no radar pelas remessas ao exterior
O terceiro eixo concentra-se na Entre Investimentos e Participações Ltda. e em Antônio Carlos Freixo Júnior. A PF tenta esclarecer como a empresa e o empresário participaram das transferências realizadas para fora do Brasil.
Freixo Júnior firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. Segundo o material, ele relatou sete aportes classificados como “subscrições de cotas” no fundo Havengate, nos Estados Unidos.
As operações ocorreram entre janeiro e setembro de 2025 e, de acordo com o acordo, partiram de ordens de Daniel Vorcaro. Os repasses somaram US$ 12,333 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 62,8 milhões pela cotação de setembro de 2025.
A subscrição de cotas ocorre quando um fundo cria novas cotas para receber aportes de investidores. Segundo os documentos, os recursos teriam relação com valores solicitados por Flávio Bolsonaro a Vorcaro para a produção.
Flávio Bolsonaro vinha afirmando que o último pagamento de Vorcaro havia ocorrido em maio de 2025. O registro de uma transferência de US$ 1,666 milhão em setembro entra em conflito com essa versão.
O acordo de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, foi celebrado com a PGR em 8 de agosto e homologado pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF).
Freixo Júnior entregou comprovantes de transferências e mensagens de e-mail trocadas com Paulo Calixto, responsável pelo Havengate e advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
A PF busca agora entender a natureza dessas operações e verificar de que forma elas se conectam ao financiamento do longa.
Investigadores querem identificar destinatários nos EUA
O quarto eixo mira as estruturas Havengate Development Fund LP e Havengate Development Fund GP LLC.
A investigação tenta chegar aos beneficiários finais dos fundos e verificar quem controlou ou recebeu os recursos movimentados no exterior.
Esse ponto é considerado central para esclarecer se os valores enviados aos Estados Unidos seguiram efetivamente para despesas relacionadas à produção ou tiveram outro destino.
Contratos e comprovantes devem ajudar a refazer o caminho do dinheiro
A quinta frente busca documentos capazes de reconstituir as operações financeiras do projeto.
A PF pretende analisar contratos, aditivos, comprovantes de pagamento, cronogramas, instrumentos de câmbio, notas fiscais, registros societários e comunicações ligadas ao financiamento de Dark Horse.
Com esse material, os investigadores querem montar uma sequência documental que mostre como os valores foram contratados, enviados e distribuídos.
Financiamento de Dark Horse aparece em dois inquéritos no STF
O caso tramita em duas frentes no Supremo.
Uma delas está sob relatoria de André Mendonça e investiga os repasses atribuídos a Daniel Vorcaro. A apuração trabalha com a suspeita de que parte dos recursos possa não ter chegado à produção do filme. Flávio Bolsonaro integra a lista de investigados nesse inquérito.
A outra investigação tem relatoria do ministro Flávio Dino e apura se a produtora Go Up Entertainment utilizou recursos de emendas parlamentares para financiar o projeto.
As duas apurações procuram esclarecer caminhos distintos do financiamento de Dark Horse, mas convergem na tentativa de identificar a origem, o destino e os beneficiários dos valores ligados à produção.
Fonte: Brasil 247