Quem está usando Karina Gama?
Por Joaquim de Carvalho — Brasil 247
A denúncia feita pela produtora Karina Ferreira da Gama de que estaria sofrendo pressões para fazer uma delação premiada contra Flávio Bolsonaro acrescentou mais um capítulo político a uma investigação que já envolve cifras milionárias, o filme Dark Horse e suspeitas sobre a origem e o destino dos recursos utilizados no projeto.
Karina registrou em cartório uma declaração na qual relata abordagens de três pessoas: o empresário Fernando Sarney, um pastor evangélico e um jornalista. Segundo sua versão, os contatos teriam como pano de fundo a possibilidade de que ela fizesse uma delação premiada. O documento, porém, é uma declaração da própria produtora: registra formalmente sua narrativa, mas não constitui, por si só, prova de que tenha ocorrido coação.
Conheço uma parte dessa história por ter conversado diretamente com um dos personagens mencionados por Karina: o pastor citado por ela.
Meu contato com ele começou depois de um encontro casual em um evento em Brasília, quando lhe passei meu telefone. Alguns dias depois, ele me ligou. O assunto da conversa era justamente Karina.
O pastor disse estar preocupado com ela. Contou que a conhecera em reuniões religiosas, num período em que a produtora enfrentava dificuldades pessoais. Fez orações com ela e, a partir daí, estabeleceu-se uma relação de amizade.
Desde nossa primeira conversa, o relato que ouvi foi diferente da ideia de alguém empenhado em conduzi-la a uma delação. O pastor dizia considerar interessante que Karina desse uma entrevista. E argumentava justamente que uma delação não lhe parecia o melhor caminho, porque não tinha segurança de que os agentes públicos envolvidos no caso atuariam com a necessária independência.
Na visão dele, seria melhor que Karina apresentasse publicamente sua versão dos fatos a um jornalista que considerasse sério. Disse que me incluía nesse grupo.
Respondi que faria a entrevista. Independentemente de qualquer avaliação sobre Karina ou sobre os demais envolvidos, havia evidente interesse público em ouvir uma personagem central de uma investigação dessa dimensão e permitir que ela respondesse às suspeitas levantadas contra si.
Um dia depois, o pastor voltou a entrar em contato. Disse que havia procurado Karina, mas encontrara resistência. Segundo ele, ela considerava distorcida a cobertura da imprensa e sustentava que não havia cometido irregularidades.
Foi então que me disse:
“Penso que ela ainda acredita que esse pessoal do Flávio Bolsonaro vai protegê-la. Acredito que ela está iludida, porque a corda arrebenta do lado mais fraco, e eu me preocupo com ela. Vou ser sincero: eu gosto dela, acho que ela foi usada.”
É uma declaração importante para compreender o contexto em que ocorreu aquela aproximação.
Na declaração registrada em cartório, entretanto, o episódio ganhou outra dimensão. Karina afirmou que o pastor teria mencionado proximidade com integrantes do governo e ministros do Supremo Tribunal Federal. A imprensa noticiou o relato como parte da suposta pressão para que ela fizesse uma delação.
Ao tomar conhecimento da interpretação de que teria “entrada” no Supremo, o pastor reagiu com espanto:
“Que eu tenho entrada no Supremo, coitado de mim… Que loucura.”
Essa divergência de versões precisa ser investigada, naturalmente. Mas também exige que se faça uma distinção elementar: uma ata ou declaração registrada em cartório documenta que determinada pessoa fez determinada afirmação. Não transforma automaticamente essa afirmação em fato comprovado.
O contexto é especialmente relevante porque Karina não é uma personagem periférica do caso. Ela é dona da Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, e preside o Instituto Conhecer Brasil. Investigações da Polícia Federal examinam movimentações financeiras relacionadas à produção e possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos. Karina e sua defesa sustentam a regularidade de sua atuação e dizem colaborar com as autoridades.
Há, portanto, duas questões distintas que não deveriam ser artificialmente misturadas.
A primeira é legítima e precisa ser apurada: alguém efetivamente coagiu Karina Gama a produzir uma delação contra Flávio Bolsonaro ou qualquer outro investigado? Se houve ameaça, promessa indevida de proteção ou utilização do nome de autoridades para constrangê-la, os fatos precisam ser esclarecidos e os responsáveis, identificados.
A segunda é saber se a narrativa de pressão está sendo usada politicamente para deslocar o centro do debate.
Porque existe um risco evidente de inversão de papéis: uma pessoa investigada por suspeitas graves passa a ocupar, de repente, o lugar de vítima de uma grande conspiração, enquanto as questões sobre movimentações financeiras, origem de recursos e relações entre os envolvidos ficam em segundo plano.
Até a gênese da declaração cartorial merece esclarecimento. Se, como sustentam pessoas que acompanharam os acontecimentos, a iniciativa de produzir o documento não partiu espontaneamente de Karina, é relevante saber quem sugeriu sua elaboração, com qual orientação e em que circunstâncias. Sem essa comprovação, porém, não é possível afirmar como fato que a ata tenha sido concebida por terceiros ou como parte de uma estratégia política.
O mesmo cuidado vale para a atuação institucional provocada pelo documento. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, tem sob sua relatoria uma das frentes relacionadas ao financiamento de Dark Horse. Qualquer utilização da declaração de Karina para fundamentar providências destinadas a investigar uma suposta pressão sobre ela precisa ser examinada com rigor, justamente para que uma alegação ainda não comprovada não adquira, pela simples intervenção do Estado, aparência de verdade estabelecida.
O paradoxo do episódio é esse.
Karina pode, de fato, estar sendo usada. Mas talvez não exatamente da maneira sugerida pela narrativa que agora circula.
Uma mulher que está sob investigação e tem todo o direito de se defender pode também estar sendo transformada em personagem de uma disputa política maior do que ela.
A extrema direita brasileira já demonstrou habilidade para transformar investigações em narrativas de perseguição e para deslocar o debate dos fatos investigados para supostos abusos dos investigadores. Se a declaração de Karina estiver sendo empregada dessa maneira, o resultado será produzir ruído suficiente para que o público deixe de discutir a questão original – de onde veio o dinheiro e, principalmente, para onde foi dinheiro que Flávio Bolsonaro pediu a Daniel Vorcaro.
Nesse cenário, o pior serviço que as instituições poderiam prestar seria antecipar conclusões. Se uma declaração unilateral passar a ser tratada como comprovação de uma trama antes que seus personagens sejam ouvidos e as conversas sejam confrontadas com evidências, o Estado terá ajudado a produzir exatamente a inversão que deveria evitar: transformar automaticamente uma investigada em vítima e uma alegação em fato.
Karina tem direito à presunção de inocência. Tem direito de denunciar qualquer pressão que considere indevida. E tem direito de contar sua versão.
Mas os brasileiros também têm direito de saber quem sugeriu a ata, o que efetivamente foi dito nas conversas mencionadas por ela e, sobretudo, o que aconteceu com o dinheiro que está no centro das investigações.
É essa história — e não a narrativa mais conveniente — que precisa ser esclarecida.
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Procurei Karina Gama, mas ela ainda não respondeu a meu pedido de entrevista.
Fonte: Brasil 247