Vale vê mais de 100 milhões de toneladas de minério de ferro sob pressão e aposta no cobre
Por Luis Mauro Filho — Brasil 247
247 – A Vale estima que mais de 100 milhões de toneladas da oferta global de minério de ferro estejam sob pressão econômica nos níveis atuais de preços e custos e mantém o cobre como seu principal vetor de crescimento. Relatórios do BTG Pactual e da XP Research, elaborados após reuniões com a administração da mineradora, mostram que a companhia espera uma racionalização da oferta de minério e concentra parte relevante de sua expansão na Vale Base Metals (VBM).
As estimativas variam de acordo com as premissas utilizadas. A XP calcula que mais de 100 milhões de toneladas da oferta mundial enfrentam dificuldades econômicas com o minério perto de US$ 95 por tonelada e o petróleo Brent em torno de US$ 90 por barril. O BTG, considerando preços à vista e custos de frete, aponta mais de 120 milhões de toneladas operando com prejuízo. Na própria Vale, porém, apenas cerca de 5 milhões de toneladas anuais de produção estariam sob pressão. O principal ajuste potencial estaria nos aproximadamente 30 milhões de toneladas por ano comprados de terceiros.
A companhia não planeja, por enquanto, fechar capacidade própria. Se o cenário adverso persistir, porém, parte das compras externas poderá deixar de fazer sentido econômico. A administração vem revisando esses volumes com o objetivo de preservar margens e melhorar a composição dos produtos comercializados pela mineradora.
A Vale considera que a configuração atual do mercado de minério não é sustentável no longo prazo e espera que produtores de maior custo reduzam oferta. A China permanece como a principal incerteza: segundo o BTG, a administração ainda não identifica evidências relevantes de estímulos ou de cortes na capacidade siderúrgica, enquanto as exportações chinesas de aço continuam funcionando como uma saída para a produção. Ao mesmo tempo, a demanda incremental no Sudeste Asiático, especialmente no Vietnã, vem crescendo.
A qualidade do minério também é vista como uma vantagem competitiva. A Vale avalia que a deterioração dos teores e o aumento da alumina em parte da oferta mundial ampliam o valor de seus produtos de maior qualidade e de sua capacidade de mistura. Os primeiros volumes de Simandou, na Guiné, apresentaram alumina acima do inicialmente esperado, segundo a administração, enquanto os novos produtos de teor intermediário de Carajás tiveram boa absorção pelo mercado.
Cobre no centro da expansão
O cobre ocupa o centro da estratégia de crescimento da Vale Base Metals. A XP aponta que Bacaba avança antes do cronograma, o projeto CPF se aproxima da decisão final de investimento e Alemão aparece na sequência da carteira. Os projetos 118 e Cristalino estão em fase de viabilidade, enquanto Paulo Afonso está em pré-viabilidade.
No caso de Hu’u, projeto de cobre de grande porte, a Vale avalia buscar um parceiro estratégico, principalmente para incorporar conhecimento técnico e reduzir riscos de execução. A companhia, porém, prioriza ativos que já estão sob seu controle e não inclui Hu’u no atual roteiro principal de expansão.
A expansão da VBM poderá ser financiada com recursos próprios, segundo a administração. Uma eventual oferta pública inicial de ações continua entre as alternativas estratégicas, mas não aparece como prioridade de curto prazo nem como uma necessidade para financiar os projetos atuais. A XP informa que a divisão mira aproximadamente dobrar sua produção até 2035.
Para a Vale, o avanço no cobre também pode alterar a percepção do mercado sobre a companhia. A administração atribui parte do desconto de avaliação em relação a concorrentes globais à elevada exposição ao minério de ferro e à participação ainda menor do cobre no portfólio. O crescimento da VBM é apontado, nesse contexto, como uma das principais possibilidades de redução dessa diferença.
Frete reduz exposição ao choque de custos
A estratégia de frete oferece uma camada adicional de proteção em um momento de custos elevados. Segundo o BTG, entre 70% e 75% da movimentação marítima da Vale está estruturalmente coberta por contratos de longo prazo ou embarcações dedicadas. A XP acrescenta que a exposição de 2026 está integralmente contratada e cerca de 75% da exposição a afretamentos por tempo em 2027 já está protegida.
Para 2027, a mineradora também já protegeu aproximadamente 70% de sua necessidade de combustível marítimo, com referência equivalente a cerca de US$ 78 por barril de petróleo. Pelos cálculos apresentados ao BTG, caso o bunker permaneça próximo de US$ 750 por tonelada, o frete da parcela contratada no longo prazo ficaria ao redor de US$ 23 por tonelada, abaixo dos aproximadamente US$ 42 observados no mercado à vista no momento do relatório.
Capital e portfólio
A Vale pretende esperar o fechamento do ano antes de decidir sobre eventuais distribuições adicionais de recursos aos acionistas. A postura mais cautelosa está relacionada às incertezas nos preços das commodities, no frete e na resposta da oferta mundial de minério.
A estratégia de portfólio permanece concentrada em minério de ferro, cobre e níquel. No níquel, a prioridade é elevar a eficiência dos ativos existentes, e não acelerar aquisições ou grandes expansões. A administração também indicou que terras raras não estão atualmente entre as áreas consideradas para diversificação. Na Samarco, a expectativa apresentada ao BTG é de avanço da capacidade para cerca de 28 milhões de toneladas anuais.
Fonte: Brasil 247