Um balanço do golpe militar no Chile 53 anos depois
Por José Luís Fiori — Brasil 247
“Aprendam a lição… (porque) muito mais cedo do que tarde, se abrirão novamente as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor… Tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão” — Salvador Allende, às 9h30 da manhã do dia 11 de setembro de 1973.
O golpe militar, a morte de Salvador Allende e o fim do governo da Unidade Popular, na manhã nublada, fria e melancólica de Santiago do Chile, daquele 11 de setembro de 1973, foram um momento trágico da história política da esquerda latino-americana, e foram também um momento de mudança irreversível do pensamento crítico e progressista do continente. Nos anos 60, e até o início da década de 70 do século passado, a América Latina viveu um momento de intensa criatividade intelectual e política. Foi o período áureo da revolução cubana e de sua influência sobre os movimentos de luta armada do continente, em particular no Brasil, Uruguai e Argentina, e, um pouco mais tarde, na América Central.
Foi o tempo do reformismo militar de Velasco Alvarado, no Peru, e de Juan José Torres, na Bolívia; da volta do peronismo e da vitória de Juan Domingo Perón, na Argentina; da primeira experiência reformista democrata-cristã, na Venezuela; e, acima de tudo, do “reformismo cepalino”, de Eduardo Frei, e do “socialismo democrático”, de Salvador Allende, no Chile. Tendo como pano de fundo, como desafio político e intelectual, o “milagre econômico” do regime militar brasileiro.
Neste período, Santiago transformou-se no ponto de encontro de intelectuais de todo o mundo e virou o epicentro do que talvez tenha sido o período mais criativo da história política e intelectual latino-americana do século XX. Revolucionários e reformistas, democratas-cristãos, socialistas, comunistas e radicais, tecnocratas e intelectuais, líderes sindicais, sacerdotes, artistas e estudantes discutiam — a todas as horas e em todos os cantos da cidade — sobre a revolução e o socialismo, mas também sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento, industrialização e reforma agrária, imperialismo e dependência, democracia e reformas sociais, e sobre a própria especificidade histórica do capitalismo latino-americano.
Por que Santiago? Porque o Chile foi o único país do continente onde se tentou — de fato — combinar democracia com socialismo, nacionalizações com capitalismo privado e desenvolvimentismo com reforma agrária, durante o período da Frente Popular, entre 1938 e 1947, e durante o governo da Unidade Popular, entre 1970 e 1973, mas também, de certa forma, durante o governo democrata-cristão de Eduardo Frei, entre 1964 e 1970.
Na década de 1930, os socialistas e comunistas chilenos formaram uma Frente Popular com o Partido Radical, venceram as eleições presidenciais de 1938 e depois foram reeleitos mais três vezes, antes de serem separados pela intervenção norte-americana, no início da Guerra Fria, em 1947.
Os governos da Frente Popular chilena, sob a liderança do Partido Radical, colocaram sua ênfase nos programas de universalização da educação e da saúde pública, mas também na infraestrutura, no planejamento e na proteção do mercado interno e da indústria. Mas foi só em 1970 que o governo da Unidade Popular propôs explicitamente um projeto de “transição democrática para o socialismo”, como estratégia de desenvolvimento e sem destruição da economia capitalista.
Antes de Allende, os democratas-cristãos “chilenizaram” o cobre e começaram a reforma agrária, mas o governo da UP acelerou a reforma agrária e radicalizou a nacionalização das empresas estrangeiras produtoras de cobre. Indo além disso, propôs criar um “núcleo industrial estratégico”, de propriedade estatal, que deveria ser o líder da economia capitalista e o embrião da futura economia socialista.
Este foi, aliás, o pomo da discórdia que dividiu a esquerda durante todo o governo da Unidade Popular, chegando até o ponto da ruptura entre os que queriam limitar as estatizações industriais aos setores estratégicos da economia e os que queriam estendê-las até originar um novo “modo de produção”, sob a hegemonia estatal. Pois bem, este projeto absolutamente original de “transição democrática para o socialismo” do governo da Unidade Popular foi interrompido pelo golpe militar do general Pinochet, com apoio decisivo dos EUA e do governo militar brasileiro.
Mas, como previu Salvador Allende em seu último discurso, “muito mais cedo do que tarde” o Partido Socialista voltou ao governo do Chile em 1989, aliado aos democratas-cristãos. Só que, naquele momento, os comunistas chilenos haviam sido dizimados, e os socialistas já haviam aderido ao consenso neoliberal, hegemônico durante a década de 90, e haviam deixado de lado os seus sonhos socialistas.
Uma década depois, entretanto, no início do século XXI, a esquerda avançou muito mais e conquistou o governo de quase todos os países da América do Sul. E, nesta hora, um grande número de jovens das décadas de 60 e 70, que escutaram as últimas palavras de Allende no Palacio de la Moneda, foram chamados a governar.
Por todo lado, em vários pontos da América do Sul, a esquerda voltou a discutir sobre o socialismo, o desenvolvimentismo, a igualdade e as novas estratégias de transformação social para o século XXI.
Mas, depois de uma década, a esquerda latino-americana se deu conta de que a palavra “socialismo” hoje tem conotações absolutamente diferentes nas Montanhas Andinas, nas Grandes Metrópoles, nos pequenos povoados ou nos vastos campos ocupados pelo sucesso exportador do agrobusiness; que o “desenvolvimentismo” se transformou num projeto anódino e tecnocrático, desprovido de qualquer horizonte utópico; que defender a “indústria” ou a “reindustrialização” virou um lugar-comum da imprensa, que pode significar qualquer coisa segundo o economista de plantão; e que o “reformismo social” foi dissolvido num conjunto de políticas e programas desconexos originários do Banco Mundial, mais preocupado com o seu “custo-efetividade” do que com a luta pela igualdade social.
Somando e subtraindo, hoje, exatamente quarenta e oito anos depois da morte de Salvador Allende, o balanço é muito claro e desafiador: a geração de esquerda dos anos 60 e 70 chegou em muitos países ao poder, mas já não tinha mais do seu lado a força do sonho e da utopia que levou Salvador Allende à resistência, ao silêncio e à morte, naquela manhã violenta e inesquecível do dia 11 de setembro de 1973, na cidade nublada, fria e melancólica de Santiago do Chile.
*Este artigo apenas atualiza a data e reproduz um artigo com o mesmo nome publicado em 11 de setembro de 2013
Fonte: Brasil 247