Trump contém discurso após 1º turno, mas interferência segue no radar
Por Vivian Oswald — JOTA
O resultado das urnas no primeiro turno do pleito presidencial recebeu uma sinalização positiva de Donald Trump nesta segunda-feira (5/10). Menos de 24 horas depois do anúncio oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o americano foi a público elogiar o sistema eleitoral brasileiro e a rapidez da apuração.
Depois do silêncio ensurdecedor — e calculado — da Casa Branca e, sobretudo, de seu sempre tão vocal segundo escalão, a manifestação de hoje mostra que os Estados Unidos devem monitorar ainda mais de perto o que está por vir daqui até o dia 25 de outubro.
Ao JOTA , na semana passada, aliados de Flávio Bolsonaro já haviam dito que havia “zero chance” de o republicano manifestar abertamente apoio ao senador. Eles e seus interlocutores no entorno de Trump sabem o impacto que isso poderia causar à campanha do bolsonarista.
De acordo com o agregador do JOTA , o cenário calculado pelo modelo é mais desfavorável a Lula no segundo turno. Mas uma vitória do presidente não está descartada. Nesse contexto, é bem provável que Washington mantenha a estratégia atual de conter as palavras. Afinal, sabe que a distância entre os dois candidatos é maior do que se imaginava, mas, ainda assim, curta.
A calibragem do discurso será feita em sintonia fina, segundo a necessidade. Diferentemente do que fizeram nas eleições de outros países, seguem todos comedidos. Na semana passada, Trump já havia dito que a eleição no Brasil é muito importante e que acompanha o processo de perto.
É por isso que uma manifestação da Casa Branca que se temia não vir após uma eventual vitória do incumbente no segundo turno apareceu rapidamente depois do primeiro — justamente após um resultado favorável a seu oponente. Trump não mencionou os candidatos, mas elogiou a rapidez da apuração brasileira e usou o sistema eleitoral do país para atacar o americano, que chamou de corrupto.
Segue entre interlocutores do governo o temor em relação a tentativas de interferência no pleito. A preocupação já não é com tarifaço, sanções ou manifestações de Trump ou de integrantes do governo pelas redes sociais.
Há, neste momento, uma investigação em curso sobre recursos estrangeiros usados na campanha de Flávio. A PF confirmou a abertura do processo. Na semana passada, o jornal britânico The Guardian afirmou que o governo do republicano destinaria US$ 1 milhão em dinheiro público a grupos contrários ao STF por considerar que a Corte extrapola suas atribuições judiciais e impõe censura no Brasil.
Uma possibilidade que não pode ser descartada agora, aliás, é a aplicação de sanções com base na Lei Magnitsky ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Essa é uma medida que continua a causar grande expectativa entre os bolsonaristas, mas cujos efeitos vinham sendo calculados. No entanto, diante do resultado das urnas neste domingo, que mostrou a força que o discurso antijudiciário ganhou no pleito e o número de cadeiras que garantiu no Congresso, pode sair antes do que se imagina. Até mesmo como impulso adicional.
A estridência do discurso político coube a nomes já esperados. Javier Milei, da Argentina, foi o primeiro a comemorar em público o desempenho de Flávio, a quem veio apoiar pessoalmente no lançamento da campanha no Brasil. O episódio, somado às duras críticas ao presidente da República e às instituições brasileiras, acabou levando à retirada dos embaixadores dos dois lados da fronteira e mergulhando a relação na pior crise das últimas décadas.
Abelardo de la Espriella, recém-eleito na Colômbia, também se manifestou: “Hoje meu coração está com o Brasil; que Deus se compadeça do país irmão, assim como fez com a Colômbia. A verdadeira mudança é derrotar a esquerda.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que também passará pelo teste das urnas em breve, parabenizou Flávio e disse esperar que o Brasil e seu país retomem a “extraordinária amizade”.
Fonte: JOTA