Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

Menu

Já é assinante?
Acesse sua conta e leia agora mesmo

Assine e contribua com a reconstrução democrática do Brasil

Assine e contribua com a reconstrução democrática do Brasil

Melhor oferta!

assine e leia

Um conjunto de artigos mostra, por meio da evolução do direito ao voto, a fragilidade da democracia brasileira

Qual o significado do voto em uma democracia? Como a prática do sufrágio foi se transformando ao longo da história? E, acima de tudo, como tais questões se apresentam no Brasil – país no qual, para usar a expressão de Sérgio Buarque de Holanda, a democracia por muito tempo pareceu um “mal-entendido”?

É esse o desafio enfrentado pelos autores e autoras do livro Pela Mão do Povo. Voto e Democracia no Brasil. Organizada pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia Antunes Rocha e pelas historiadoras Heloísa Starling e Nayara Corrêa Henriques Pinto, a obra reúne textos de pesquisadores do Projeto República, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em conjunto, os capítulos reconstituem a trajetória acidentada do direito ao voto no Brasil. Do Império aos desafios atuais à democracia, passando pelos primórdios da República, proclamada em 1889, pelas reformas eleitorais da década de 1930, pela Constituição de 1946, pelo regime militar e pela Nova República, quase nada escapa à análise dos autores.

O livro traz ainda capítulos sobre os “modos de votar” – das cédulas de papel às urnas eletrônicas – e sobre a utilização dos jingles nas campanhas eleitorais.

Responsável pela introdução e pela conclusão do livro, Cármen Lúcia repassa a história milenar do voto. Ela argumenta que, embora a democracia representativa e o voto nos moldes atuais sejam fenômenos historicamente recentes, diferentes formas de “poder do povo” existiram há muito mais tempo, desde pelo menos a Grécia antiga.

Imagem: Antonio Cruz/Agência Brasil

Para a ministra do STF, que não esconde certo otimismo histórico-antropológico, a democracia pode ser interrompida, mas nunca completamente apagada. “O ser humano – escreve ela – é sempre o mesmo em seu anseio de liberdades iguais e justas.” Assim, “enquanto houver humanidades, haverá democracias”.

No caso brasileiro, como sabemos, a conquista e, em especial, o exercício da democracia seguiram um roteiro muito mais complicado. Mecanismos como o voto censitário, a exclusão de analfabetos e outros obstáculos deram a tônica das eleições brasileiras, inclusive nos momentos de maior abertura à participação popular.

Como se observa no primeiro capítulo, esse cenário não sofreu alterações estruturais com a Proclamação da República. Além das exclusões formais, foram tempos marcados pelo “coronelismo” e por recorrentes fraudes eleitorais.

Um salto importante foi dado com o Código Eleitoral de 1932, que instituiu o voto obrigatório e secreto, além de assegurar a participação das mulheres nos pleitos. Seria somente em 1946, entretanto, que o País veria a emergência de uma Carta democrática.

Como se vê em um dos textos do livro, é nesse contexto que as camadas populares se tornam – ainda que sob os limites da representação “populista” – agentes de fato dos processos político-eleitorais. O golpe de 1964 foi a resposta dos dominantes a essa ascensão política das classes trabalhadoras.

A partir de então, foram necessários longos 25 anos para que a população brasileira voltasse a escolher o presidente da República por meio do voto direto, nas eleições de 1989. No ano anterior, havia sido promulgada a nova Constituição, a primeira a ratificar o direito de voto aos analfabetos.

Pela Mão do Povo. Voto e Democracia no Brasil. Cármen Lúcia Antunes Rocha, Heloísa Starling e Nayara Corrêa Henriques Pinto (orgs.). Bazar do Tempo (448 págs., 104 reais)

Visto de forma retrospectiva e tendo como horizonte a Constituição de 1988, esse processo histórico talvez explique a confiança de Cármen Lúcia no avanço contínuo do que denomina “processo civilizatório democrático”. No entanto, como se lê no quinto capítulo, as conquistas não afastam o risco de retrocessos: “a história dos direitos políticos não é uma linha reta e ininterrupta rumo ao progresso”.

Nesse mesmo capítulo, por exemplo, vemos como certos grupos sociais – as mulheres, a população negra e os povos indígenas – foram historicamente relegados “à margem do voto”.

São grupos que, embora não enfrentem mais barreiras legais para votar e ser votados, continuam desproporcionalmente alijados das estruturas partidárias e, por consequência, da possibilidade de participação em igualdade de condições no processo eleitoral.

Nesse sentido, a tensão que atravessa o livro – entre o otimismo jurídico de Cármen Lúcia e os capítulos dedicados à história concreta da democracia e do direito ao voto no Brasil – é significativa, uma vez que expressa um dilema ­real dos regimes que se dizem democráticos: o descompasso entre as normas jurídicas e os conflitos sociais.

Embora importante e por vezes decisiva, a lei não garante, por si só, o pleno exercício da democracia, que vai além do voto em eleições periódicas. Para alcançá-lo, é preciso democratizar a própria sociedade, o que requer, mais do que democracia política, uma transformação profunda das formas de produção e de distribuição da riqueza social.

A tarefa não é simples, tanto mais no atual contexto, marcado pela ascensão eleitoral da extrema-direita no Brasil e no mundo.

Sem democracia social, a democracia política e as instituições jurídicas tornam-se vulneráveis ao domínio de forças bem pouco democráticas. O direito pode muito, mas não pode tudo, especialmente para setores da população para os quais a exceção muitas vezes se torna a própria norma.

Construir uma nova “normalidade” democrática exige, portanto, lutar por outra sociedade. •

*Fabio Mascaro Querido é professor de Sociologia da Unicamp.

Publicado na edição n° 1436 de CartaCapital, em 28 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Trajetória acidentada’


Fábio Mascaro Querido

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.


Desenvolvido por OKN Technology Agency

Fonte: Carta Capital

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *