Homenagens e experimentos
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Mônica Salmaso revisita, em diferentes trabalhos, Elizeth Cardoso, Tom Jobim, Gilberto Gil e o grupo Uakti
Com 30 anos de carreira recém-completados, a cantora Mônica Salmaso está em estado de graça. Como uma artesã que borda memórias, afetos e tradições, ela acaba de lançar um dos tributos mais delicados já dedicados ao conjunto da obra de Elizeth Cardoso (1920–1990): o álbum Senhora das Canções e o show homônimo.
Salmaso costura, simultaneamente, homenagens ao centenário de Tom Jobim, grava Gilberto Gil e mergulha em experimentações. Não à toa, quando criou, durante a pandemia, o projeto Ó de Casas, que reuniu mais de 150 gravações de duetos virtuais, artesãos espalhados pelo Brasil produziram bordados para ilustrar cada canção postada no projeto.
Como todo bom rendado, Senhora das Canções foi burilado ao longo de alguns anos. “A ideia de um tributo a Elizeth nasceu antes da pandemia para comemorar o centenário da cantora, que seria em 2020”, contou em entrevista a CartaCapital. O músico e arranjador Paulo Aragão – professor da Escola Portátil de Música e um dos diretores da Casa do Choro no Rio de Janeiro – sugeriu a realização de um show.
“Topei na hora. Toda e qualquer oportunidade de cantar com eles sempre foi motivo de felicidade para mim”, conta ela. A partir de uma grande lista de músicas, foi criado um repertório que mistura canções conhecidas e outras obscuras. “O repertório da Elizeth é imenso, e se estende do LP Canção do Amor Demais (1958), considerado o marco inicial da Bossa Nova, com músicas de Tom e Vinicius, até sambas populares e choros. Ela foi do vinil de 78 rotações ao CD”, conta Mônica.
Na véspera da estreia do show, a pandemia fechou os teatros. No confinamento, a cantora se dedicou ao Ó de Casas, que incluiu uma bela gravação de Lembra-se, de Moacir Santos e Vinicius de Moraes, do repertório de Elizeth, em dueto com Paulo Aragão – presente no novo disco. Com o fim das restrições sanitárias, o projeto foi retomado e o show estreou em 2025, no Teatro Ipanema.
Do show surgiu a ideia do registro em disco. Gravado em um único dia nos estúdios da Biscoito Fino, praticamente ao vivo, o álbum exala frescor: “É coisa de quem faz disco no taxímetro. A gente fez um disco em um dia”.
A participação de músicos da Casa do Choro, como Luciana Rabello e Mauricio Carrilho, que tocaram na banda de Elizeth Cardoso, contribui para uma sonoridade contemporânea, mas que mantém muito do choro e do samba tradicionais. É uma cama perfeita para a voz aveludada e limpa de Mônica.

Com o rigor e a precisão que lhe são peculiares, Salmaso revive o repertório de Elizeth de forma serena, sem medo de enfrentar suas extensões vocais. “Ela era uma escola de canto. Uma voz incrivelmente preparada e educada, realizando coisas superdifíceis parecendo fáceis”, diz. Duas das músicas incluídas no disco nunca foram cantadas ao vivo por Elizeth: Carta de Poeta (Baden Powell e Paulo César Pinheiro) e Valsa Sem Nome (Baden Powell e Vinicius de Moraes).
Segundo relatos de Luciana e Carrilho, Elizeth não as cantava porque “às vezes saía, às vezes não saía”. “Eu canto essas músicas no show, mas aviso o público antes de cantá-las que pode não sair. Mas até agora saiu”, diverte-se Mônica, que atribui a organicidade do álbum e do show ao “diálogo de feras” entre os músicos.
Ao lado de Aragão, Luciana e Carrilho estão outros integrantes da Casa do Choro (Aquiles de Moraes, Marcus Thadeu e Magno Júlio), além do auxílio luxuoso nos sopros de Teco Cardoso – parceiro de vida e música de Mônica – e Nailor Proveta, dois habitués dos projetos da cantora. “Essa sonoridade não existiria sem eles”, diz ela. “Tanto que os nomes de todos estão na capa do disco.”
Ao lado de sucessos como Sei Lá, Mangueira (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho) e Canção do Amor Demais (Jobim e Moraes) está a joia Se as Estrelas Falassem, a única canção conhecida de autoria de Elizeth, que nunca foi gravada por ela.
“O repertório da Elizeth se estende do LP Canção do Amor Demais, considerado o marco inicial da Bossa Nova, até sambas populares”, diz
A letra da música foi confiada a Mônica pelo neto de Elizeth, Paulo César Valdez, mas a melodia e o arranjo foram transcritos de uma rara apresentação da cantora em um programa de tevê de Hermínio Bello de Carvalho. “Ele pede para Elizeth: e aquela música que você fez? E ela, meio tímida, meio sem graça, canta. No show, canto essa música pensando nela, vendo a doçura dela oferecendo aquela música, meio que pedindo licença.”
Senhora das Canções segue em turnê pelo Brasil em 2027 ao mesmo tempo que Salmaso presta homenagem ao centenário de Tom Jobim, com um repertório que reúne clássicos do compositor.
Em outro bordado, a cantora se uniu à regente e arranjadora Gaia Wilmer e sua big band para interpretar a obra de Gilberto Gil. Em Nova York, gravou o álbum Parabólico: Reflections on Gilberto Gil, que mistura jazz, música brasileira e escrita orquestral, e traz clássicos de Gil como Oriente e Eu Vim da Bahia.
De Nova York, partiu para Minas Gerais, onde gravou o experimental Utupê Oficina Sonora, utilizando os instrumentos originais inventados por Marco Antonio Guimarães para o grupo Uakti. “Vi naquelas estruturas sonoras únicas feitas com tubos e cordas mil possibilidades”, conta. Uma das músicas, Cazadero’s March, de Teco Cardoso, recebeu uma indicação ao Grammy Latino na categoria de melhor arranjo.
A artista segue assim alinhavando seu bordado com a consciência de que cada música exige um gesto diferente – firme, delicado, paciente, ousado, cheio de vida. “Eu vejo isso na Elizeth: a fome da vida. Acho que isso é uma das razões de ela ter atravessado tanto tempo.” Mônica Salmaso também atravessa. E, enquanto atravessa, borda. •
Publicado na edição n° 1436 de CartaCapital, em 28 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Homenagens e experimentos ‘
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Fonte: Carta Capital