Trabalhador, olha para cá: estou nas ruas para o seu filho estudar
Por Rodrigo Martins — Carta Capital
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Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais. Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação
Mobilizações lideradas por estudantes conectam educação pública, direitos sociais e soberania em uma disputa que vai muito além das urnas
Por Stella Ferreira Gontijo
Já na segunda-feira, dia 5 de outubro de 2026, estudantes ocuparam as ruas de Niterói naquela que foi a primeira de uma série de manifestações significativas em defesa não apenas da candidatura do presidente Lula, mas de tudo que ele representa em termos de investimento em educação, defesa de direitos sociais e do mundo do trabalho, manutenção da ordem democrática e da soberania brasileira. Articula-se nas ruas a defesa de uma candidatura com a de projetos de País em disputa.
Ao lado das pautas estudantis, de defesa da educação pública e das universidades, e na companhia de movimentos sociais e sindicatos, a mobilização extrapolou a juventude e os grandes centros urbanos, ocupando cidades em todas as regiões do País, nas capitais e no interior. Na Avenida Paulista, em São Paulo, a manifestação chegou a ocupar 12 quarteirões. Já o ato em Copacabana, no Rio de Janeiro, foi comparado aos públicos dos shows da Madonna e da Shakira.
Esse movimento é relevante em várias dimensões. Enquanto a campanha de Lula se reorganizava em Brasília, reunindo-se com apoiadores, partidos e parlamentares, a sociedade civil, impulsionada pela juventude, ocupou as redes e a mídia, especialmente através de coberturas de canais independentes de comunicação. Assim, a campanha de Lula ganhou ainda mais tração popular, o que é historicamente relevante para as lutas políticas progressistas e de avanço em direitos sociais e democráticos.
A ocupação da esfera pública e a ampliação do diálogo corpo a corpo retomam elementos centrais para o exercício da democracia e da cidadania, ao mesmo tempo em que apontam os limites de uma concepção de democracia reduzida exclusivamente ao momento eleitoral. A teoria democrática participativa já vinha chamando atenção para isso, sobretudo por compreender que a participação e a prática democrática se constroem fundamentalmente na associação, na deliberação, na organização coletiva e na ocupação do espaço público.
No contexto atual, em que o espaço do digital é cada vez mais central, o momento também expõe seus limites, marcados pela atuação das grandes empresas responsáveis pelas redes sociais, que utilizam dos algoritmos a serviço de seus interesses políticos, econômicos e imperialistas – perceptível na presença de Elon Musk (X), Mark Zuckerberg (Meta) e Jeff Bezos (Amazon) na posse de Trump. Por isso, a ação digital e a mobilização nas ruas não devem ser vistas como esferas separadas, pelo contrário, devem ser estratégias de resistência articuladas.
Se temos hoje uma juventude forjada nas redes sociais, estudantes que durante a pandemia estiveram restritos às telas, que tiveram sua formação política interrompida na atuação presencial e no diálogo coletivo das ruas, hoje é esta mesma juventude que impulsiona a sociedade a fazê-lo. Para Bianca Borges, presidenta da União Nacional dos Estudantes, “existe uma experiência que a presença física produz e que nenhuma plataforma consegue reproduzir integralmente: a percepção concreta de que você faz parte de uma força coletiva”.
A UNE chama atenção para a presença de jovens que até então não atuavam politicamente de maneira coletiva e que hoje buscam se organizar. Dessa forma, os atos podem ser vistos como potencializadores de uma demanda de atuação que deve reverberar em mobilizações corpo a corpo, de diálogo com a população em busca de “vira voto”, e também como movimento que não se extingue com a disputa eleitoral: “O ato de massa muda a temperatura política; a brigada transforma essa energia em diálogo”.
A construção coletiva do movimento extrapolou os tradicionais polos de participação político-social, expandiu-se para além da alçada de sindicatos, movimentos feministas, movimento negro, movimento estudantil, etc. Para a UNE, a “força estudantil se encontrou com trabalhadores organizados, sindicatos e movimentos sociais. Aquilo que começou como uma mobilização universitária ganha capacidade de se transformar numa força política muito mais ampla.”
Podemos perceber essa dimensão quando observamos a manifestação em São Paulo, que contou com a iniciativa de organização e convocação feita pelos Fandoms – coletivos de fãs – rompendo bolhas de mobilização popular. Esses coletivos têm redes organizadas, capacidade de comunicação, identidade coletiva compartilhada, experiência em mutirões digitais e coordenação, uma estrutura que rompeu com seu uso exclusivamente voltado para a valorização e defesa de artistas e grupos culturais, agora mobilizados para participação política ativa da juventude.
Tradição latino-americana
Observamos esses movimentos com um olhar para a história da América Latina. Há mais de cem anos, em 1918, estudantes argentinos da cidade de Córdoba iniciaram uma movimentação considerada de dimensão latino-americana e que, para muitos estudiosos, se configura como processo em curso contra um modelo de universidade elitista e reprodutor de desigualdades.
Esses estudantes propuseram um outro sentido para essas instituições como locais de formação crítica, com responsabilidade social, de resolução dos prolemas regionais, autônomas e defensoras da região latino-americana contra a lógica colonial, em um contexto de avanço do imperialismo. Em seu principal manifesto afirmaram romper com “o último elo da cadeia que em pleno século XX nos atava a antiga dominação monárquica e monástica”. Assim, o papel das universidades comprometidas com a defesa da democracia, da participação popular, da formação de uma cidadania crítica, de sujeitos comprometidos com os problemas de seu povo e de seu tempo, deve ser compreendido como uma dimensão latino-americana.
Bianca Borges expressa essa compreensão ao afirmar: “A universidade não pode funcionar como uma ilha progressista cercada pela cidade: ela precisa ser um polo que irradia organização para o território em que está inserida. Por isso, a Reforma de Córdoba permanece tão atual, porque aqueles estudantes compreenderam que a discussão sobre universidade nunca esteve separada da discussão sobre a sociedade em que ela está inserida.”
Ao se colocarem como agentes ativos de defesa do País frente ao avanço do projeto político de extrema direita, os/as estudantes e a juventude assumem essa missão da universidade. Fazem isso diante de um diagnóstico palpável do que significaria para a educação o retorno do projeto bolsonarista de poder.
O governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, teve impacto profundo nas universidades brasileiras. Segundo pesquisa da Unifesp, as universidades federais perderam 14,4% de seu orçamento no período. Os repasses para assistência estudantil, fundamental para permanência de jovens de baixa renda, foram reduzidos em 23,2%.
A Andifes atuou sistematicamente diante da ameaça de ausência de verba para pagar contas de água, luz e serviços terceirizados, depois de bloqueios orçamentários no Ministério da Educação. O período também foi marcado por restrições às agências de fomento e pela perda real do valor das bolsas de pesquisa, que não foram reajustadas.
Nessa eleição, além de uma disputa civilizatória, democrática e republicana, devemos olhar para os projetos de educação superior que estão em jogo. Lula e Dilma foram responsáveis pela mudança na cara da educação superior brasileira – com o Reuni, a Lei de Cotas, a expansão e a interiorização, a ampliação da assistência estudantil, dentre outras políticas públicas implementadas.
Lula, ao mesmo tempo em que propõe a continuidade desse projeto de investimento, agora articula o papel das universidades para a soberania brasileira, como instrumento de transformação social e desenvolvimento nacional. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro expressa um modelo de educação voltado as demandas privadas do mercado, em uma perspectiva individualista do mérito, projetando o desfinanciamento das universidades com sua proposta de transferi-las do MEC para o Ministério da Ciência e Tecnologia – ou seja, fora da alçada do orçamento constitucional para a educação.
Soberania em jogo
Assim como em Córdoba, a função da universidade na defesa da soberania segue no centro das lutas protagonizadas por estudantes, pela comunidade universitária e pela sociedade. Para Bianca Borges, a juventude compreende a soberania como “a capacidade de cooperar com os demais povos da América Latina sem subordinação, de decidir coletivamente o destino das nossas riquezas e de utilizar ciência, universidade e desenvolvimento para enfrentar os problemas concretos da população”. Nesse sentido, acrescenta a presidente da UNE, “atualizar o legado de Córdoba significa perguntar quem decide o futuro do Brasil e da América Latina, quem controla nossas riquezas e a serviço de quem serão colocados o conhecimento, a ciência e o desenvolvimento.”
Por isso, essas mobilizações com ampla participação de diversos setores sociais, tem um sentido histórico e potencial de disputar os rumos do país, podendo ou não produzir efeitos mensuráveis nas urnas, mas devendo permanecer os significados políticos ao levar as pessoas as ruas, aproximar gerações, articular redes e ruas e ampliar a atuação política. A universidade não está separada dos conflitos democráticos e sociais de seu tempo e a juventude já compreendeu isso.
*Pesquisadora de pós-doutorado da “Cátedra Darcy Ribeiro: Soberania, Educação e Política” (IEAT/UFMG) e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFMG.
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Fonte: Carta Capital