Dieta da miséria impressiona e comove Lula. Por Zuenir Ventura
Por Ana Paula Cavalcanti — Combate Racismo Ambiental
Como homenagem ao jornalista e escritor recém-falecido, postamos um texto publicado em 1993 no “Jornal do Brasil”, sobre “A Caravana da Cidadania”, liderada por Luís Inácio Lula da Silva
Águas Belas, PE – No trevo que leva da BR-423 a Águas Belas, a 95 quilômetros de Garanhuns, Lula encontraria a personagem mais impressionante da primeira etapa da travessia do Sertão – desta vez uma mulher. O grupo que parou o ônibus parecia mais disposto e organizado do que o anterior, aquele que exibiu para a caravana a fila da seca: latas vazias à espera de um carro-pipa.[i]
Em lugar de latas, muitos agora carregam na mão ou mastigavam uma planta que os habitantes do Sul Maravilha só conhecem de foto. Era a palma, um tipo de cactos com menos espinho, que os animais apreciam, mas que Lula, quando teve que provar, achou com gosto de “pneu velho”, como se o novo fosse mais saboroso.
Calango
Aquelas pessoas comendo palma diante dos fotógrafos lembrava outra cena de alguns anos atrás – a do camponês segurando pelo rabo o alimento então na moda por aqui: o calango. Nesse calvário, só os símbolos mudam. Durante esta seca descobriu-se também outra forma de alimento animal. É o chupa-pedra, um peixinho que se agarra ao fundo dos açudes até a última gota d’água – um correspondente animal da palma.
“É a descoberta de sobreviver por meio do que sobrevive na lama”, explica o geógrafo Aziz Ab’Saber, que está acompanhando a caravana. Ele conhece tudo da região. O Professor, como todos os chamam, funciona como assessor de Lula e como sábio dessa tribo mambembe. Tudo se pergunta a ele.
Uma das preocupações na viagem é com a degenerescência dessas formas mais resistentes de alimento, vegetais e animais. Normalmente sereno, Aziz Ab’Saber fica indignado: “Daqui a pouco esses miseráveis vão ser obrigados a comer cadáveres”.
Até os jornalistas, que são pagos para deixar a emoção em casa, se arrepiaram quando numa elevação onde há um cruzeiro assistiram ao nascimento de uma líder. Ali, fora improvisado um palanque com a ajuda do carro de som da caravana. A primeira voz feminina que saiu do alto-falante tinha uma determinação incomum: “Nóis num tá aqui por boniteza. A gente tamus passando fome”.
O vocabulário era de subsistência, como a vegetação daqui, onde nada é desperdiçado. A gramática era estropiada como a roupa que a oradora usava. A semântica era às vezes tão difícil quanto o sentido dessas vidas. Mas aquele discurso – aquele começo de fala principalmente, introduzindo um toque inesperado de agressiva ironia – foi um choque.
Os jornalistas, que em geral aproveitam a hora dos discursos para relaxar – porque são repetitivos – se voltaram para o improvisado palanque.
“O discurso dela é superior ao discurso dos grandes líderes”, disse mais tarde o professor Aziz Ab’Saber, desafiando: “Não sei se o presidente da República é capaz de articular tão bem o seu raciocínio”.
Grande parte da assistência trazia a cabeça coberta de panos como proteção contra o sol das 10 horas da manhã. Pouco antes, esse sol e a fome haviam derrubado uma das participantes, Sebastiana, socorrida pelo próprio Lula.
Mesmo quem estava atrás podia perceber a firmeza e dignidade do tom daquela voz. Sua dona era uma mulher baixa, de 32 anos, nove filhos, a cor de um índio e a bravura de uma mãe coragem.
Em poucos minutos, Maria do Socorro Lira Feitosa resumiu sua história, a história de sua comunidade, feita de miséria, desemprego e fome. Quando soube da passagem da Caravana da Cidadania, ela resolveu reunir mais de 100 companheiros e formou sua própria “caravana”. Às 11 horas da noite anterior, começaram a descer as oito léguas, ou 24 quilômetros, de serra.
Juntaram folhas de palma, um resto de farinha, alguns tocos de velas e se puseram na estrada, “recebendo o relento da noite”, como ela diz parecendo uma personagem saída de Morte e vida severina. Pararam algumas vezes, descansaram um pouco, mas às 7 horas da manhã já estavam na luta. Foram primeiro à prefeitura, mas o prefeito enxotou-os. Dirigiram-se então para o trevo, onde barrariam a Caravana da Cidadania.
Agora, Maria do Socorro segurava o microfone pela primeira vez e anunciava que, além de providências, como mais vagas nas Frentes de Trabalho, ela “exigia” imediatamente comida e um caminhão para conduzi-los de volta: “Nóis num vorta de apés”, garantiu e ninguém duvidou, inclusive Lula, que improvisou logo uma comissão, nomeando como integrantes o senador Eduardo Suplicy e o deputado Alcides Modesto. Socorro, claro, faria parte também. O pessoal ficaria ali à espera. A Caravana seguiria porque tinha hora marcada em Canapi, a próxima parada.
Os soldados do 9º Batalhão da PM (que “acompanharam” a caravana de Maria do Socorro até o trevo) iam permanecer por mais algum tempo em tensão. O cabo Climério dizia: “O Lula precisa fazer alguma coisa”. Alguma coisa era uma coisa só: que evitasse o saque.
Maria do Socorro – “quem tem fome tem pressa”[ii]
Naquela manhã, o prefeito José de Julião, do PFL, podia esperar tudo, até o saque da feira-livre ali perto da prefeitura. Cada vez mais isso estava acontecendo nas cidades vizinhas. Ele só não podia contar com aquela cena: Maria do Socorro invadindo seu gabinete.
Acompanhada de um senador, de um deputado e da imprensa, Maria do Socorro não era esperada. A mesa do prefeito estava cheia de papéis e ele assinava o que parecia ser receitas médicas, uma atrás da outra. Na verdade, eram mesmo receitas. Ele estava autorizando o aviamento, enquanto umas 50 pessoas esperavam em fila do lado de fora.
Quando viu Maria do Socorro entrar, levantou-se surpreso. Dessa vez não havia hostilidade em sua atitude. Mas é possível que o rosto daquele nordestino moreno tivesse ficado mais claro naquele momento.
Percebendo que a situação estava tensa, Eduardo Suplicy assumiu os trabalhos em seu ritmo arrastado, capaz de aplacar qualquer turbulência, o que acabou sendo providencial. Disse que a missão era de paz e falou de seu projeto de renda mínima – um plano complexo cuja explicação ali aumentou a fome mesmo de quem não estava, como Maria do Socorro, por 12 horas sem comer.
O prefeito reclamou da insuficiência de recursos, da dimensão da miséria que o cercava, de uma cidade que, chamada de “a capital do feijão”, há dois anos importava o produto do Paraná. Pelo jeito, não ia resolver nada.
A situação era de fato a que no Sul virou moda chamar de emblemática: a autoridade chorando miséria de barriga cheia na frente da própria miséria. Tive vontade de interrompê-lo: “prefeito Zé de Julião: vosmicê me adesculpa, mas nóis num tá aqui por boniteza”. A frase viraria um bordão politicamente incorreto da caravana de jornalistas. Contra a lentidão baiana, havia sempre um gaiato para dizer: “garçom, nóis num tá aqui por boniteza”.
Como político, Eduardo Suplicy sabia que havia uma providência imediata a tomar: arranjar o caminhão e comprar a comida. Passou uma nota de Cr$ 500 mil a Luiz Haroldo, da comissão: sua contribuição para o fubá. Que outros dessem sua parte.
Na difícil situação de mediador entre a miséria e o poder, o senador Suplicy era o retrato de que, por menos que, por menos que o Brasil tenha mudado, mudou alguma coisa. Há 100 anos, um Matarazzo não ia atrás de Socorro nos cafundós do sertão. Imagine o que diria o senhor conde.
Ninguém pessoalmente aceitou o repto do senador do PT, mas o prefeito não podia recusar uma contribuição insignificante. Determinou então que se comprassem 300 pães para aqueles incômodos famintos.
O prefeito impunha uma condição salomônica: a compra tinha que ser dividida entre as duas padarias da cidade: 150 em cada uma. Depois se soube a razão da equanimidade. Um dos presentes era o dono de uma padaria – o sujeito que ficara no canto, rápido nas contas, tantos pães divididos por tantos miseráveis, tanto; tantos quilos de fubá, tanto. Além de, digamos, padeiro, Evilásio Galego é o secretário de finanças. Zé de Julião não queria mais confusão – a oposição não o acusaria de beneficiar um auxiliar.
Pão-duro
Evilásio Galego não se coçou. Enfiar a mão no bolso ou dar pão de graça não era com ele. Quando já no carro se soube quem era ele, tive vontade de intervir uma segunda vez: “Ô seu padeiro pão-duro”. Às 11.30 da manhã, Maria do Socorro deixa a prefeitura. Apesar do cansaço e da fome, não explicava por que não aceitara o café e o copo de água que lhe foram oferecidos insistentemente no gabinete. Passaria de novo pela feira-livre e não ia aceitar nem uma fruta. Podia ser orgulho, timidez, pudor. Mas podia ser a decisão de não comer enquanto os companheiros não comessem. Ela não disse.
Lá dentro, Maria do Socorro se comportara com moderação. Teve a delicadeza de não cobrar a expulsão de antes e de explicar ao prefeito que queria apenas ser recebida porque estava lutando por um direito.
Alguém mais xiita poderia acusá-la de um certo abrandamento diante da autoridade – até compreensível porque o senador, o deputado e o repórter daí a pouco iam embora e ela ficaria. Mas não era isso. Maria do Socorro foi respeitosa em meio àquela liturgia de poder, mais quando foi preciso, numa hora crítica, teve a altivez de dizer ao prefeito no mesmo tom decidido do discurso do trevo: “A gente temus pressa porque quem tem fome tem pressa”.
Quando a comissão voltou para prestar contas, os 200 famintos – os 100 de Maria do Socorro mais outros 100 que se agregaram – continuavam lá sob o sol. “O prefeito nos recebeu muito bem”, começou. Mas estava emocionada. O senador pegou o microfone e, como demorasse a anunciar o resultado, houve impaciência. “Num tou aguentando mais”, desabou Sebastiana, a que desmaiara. “Sem nada, num vorto não”, disse um velho seco como um galho de caatinga.
Abandono
A caravana teve que se retirar antes da chegada dos pães e do fubá. Parece que tudo correu bem, se é que se pode achar que tudo correu bem quando a fome de 12 horas de um cidadão é saciada com pão e fubá.
Não houve tempo para se saber mais de Maria do Socorro. Na volta, ela contou que em criança fora abandonada, mas uma freira a recolhera. Pôde assim estudar um pouco até se casar. “O que aprendi tá dentro, aplico fora”, informou no banco de trás da camionete. Com o pouquinho que estudou, Maria do Socorro Lira Feitosa pôde fazer tudo aquilo naquela manhã: a barriga estava vazia, mas a cabeça não.
A Caravana da Cidadania, liderada por Luís Inácio Lula da Silva, está refazendo o caminho que o presidente do PT percorreu quando, ainda criança, migrou de Garanhuns, em Pernambuco, para São Paulo.
*Zuenir Ventura (1931-2026) foi jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras Autor, entre outros livros de 1968: o ano que não terminou (Ed. Planeta).
Notas
[i] Edição e notas de Paulo Henrique Fernandes Silveira. Esse texto de Zuenir Ventura foi publicado em duas partes pelo Jornal do Brasil: VENTURA, Zuenir (1993a). Dieta da miséria impressiona e comove Lula, Jornal do Brasil, 3 de maio de 1993, p. 3. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_11&p796asta=ano%20199&pagfis=110262; VENTURA, Zuenir (1993b). Maria do Socorro, líder que o sertão forjou, Jornal do Brasil, 4 de maio de 1993, p. 10. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_11&id=21866008325702&pagfis=110317
[ii] Dias antes de publicar esses artigos sobre a Caravana da Cidadania, Zuenir Ventura acompanhou Herbert José de Souza, o Betinho, numa visita à Favela do Lixão, em Duque de Caxias, RJ. Lá eles foram recebidos por Dom Mauro Morelli. Esse era o início da Campanha contra a Fome, que teve como lema a frase de Maria do Socorro: “quem tem fome tem pressa”. VENTURA, Zuenir (1993c). Brasil da miséria dá lição de esperança, Jornal do Brasil, 25 de abril de 1993, p. 16. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=030015_11&id=1835002199298&pagfis=109441 No período da pandemia, essa frase também foi utilizada como lema na campanha do MTST em auxílio às comunidades carentes.
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Fonte: Combate Racismo Ambiental