The Guardian: Flávio Bolsonaro, “que caiu em desgraça”, tem desempenho surpreendente
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – A corrida presidencial no Brasil avançou para o segundo turno após Flávio Bolsonaro (PL) superar o presidente Lula (PT) na votação do primeiro turno, sem alcançar, contudo, a maioria absoluta necessária para liquidar a disputa, analisa o jornal britânico The Guardian.
Com 99,9% das urnas apuradas, o filho de 45 anos de Jair Bolsonaro (PL) obteve 47% dos votos válidos (56,1 milhões de votos), garantindo sua ida ao segundo turno no dia 25 de outubro contra o atual mandatário, de 80 anos, que registrou 45,1% (53,8 milhões de votos).
De acordo com o jornal britânico, Flávio Bolsonaro entra na etapa decisiva como o favorito e deve ser impulsionado pela migração de votos de outros candidatos do campo da direita, como Ronaldo Caiado, que obteve 2,1%, e Renan Santos, com 2,2%. A extrema-direita brasileira demonstrou uma força além das expectativas, elegendo uma sucessão de políticos alinhados ao bolsonarismo em disputas estaduais e no Congresso Nacional. Entre os eleitos para o Senado estão o segundo filho de Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro (PL), e sua esposa, Michelle Bolsonaro (PL). O filho mais novo, Jair Renan (PL), conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados, enquanto o ex-ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas (Republicanos), obteve a reeleição como governador de São Paulo, o estado mais populoso e de maior peso econômico do país.
O avanço conservador também se refletiu no Poder Legislativo, onde das 54 cadeiras em disputa para o Senado Federal, 34 foram conquistadas pela direita ou extrema-direita. Em discurso para apoiadores na capital federal, Brasília, Flávio Bolsonaro declarou que o resultado marcava “o fim de uma era” para o Partido dos Trabalhadores. “Lula disputou sete eleições presenciais. Ele está preocupado com o poder. Eu estou preocupado com o futuro do Brasil”, afirmou.
Em São Paulo, Lula buscou demonstrar otimismo após a noite difícil para o campo progressista. “Acabamos de ter uma lição de democracia brasileira”, declarou o presidente. “O resultado costuma ser inesperado. Nunca conseguimos obter tudo o que queríamos. Confesso a vocês que estava convencido de que venceria a eleição no primeiro turno… Mas temos um segundo turno”.
Lula ressaltou que o “passado sombrio” de Bolsonaro ficará mais evidente para os eleitores durante o período de propaganda eleitoral. “A partir de amanhã lançaremos uma nova campanha: e numa campanha com apenas dois candidatos seremos capazes de mostrar a diferença entre as nossas propostas para o Brasil”, acrescentou. Mais cedo, ao votar, o presidente havia destacado a escolha crucial que se impunha ao país, lembrando as ligações documentadas de seu adversário com integrantes do crime organizado no Rio de Janeiro, incluindo o emprego de parentes próximos de um conhecido matador de aluguel.
Primeiro presidente operário eleito em 2002 e reeleito em 2006 e 2022, Lula busca seu histórico quarto mandato presidencial. Aliados do veterano líder de esquerda classificaram a disputa como um combate decisivo contra um movimento de extrema-direita que, há menos de quatro anos, promoveu o caos em Brasília durante uma tentativa frustrada de reverter o resultado da eleição de 2022.
A vitória de Flávio Bolsonaro é vista por ele como um meio para libertar seu pai, Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de prisão por articular um golpe de Estado após recusar a derrota eleitoral anterior. Antes da votação, o candidato fez apelos pelo voto útil de conservadores não alinhados ao bolsonarismo, mas desejosos de retirar o PT do poder.
A mobilização da militância conservadora no Senado atendeu a uma prioridade estratégica, visto que cabe aos senadores o julgamento de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal — uma exigência central dos apoiadores do ex-presidente desde sua prisão.
Em Laranjeiras, bairro do Rio de Janeiro com forte presença de eleitores de esquerda, centenas de apoiadores reuniram-se na esperança de celebrar a vitória de Lula ao som de samba, mas a atmosfera mudou à medida que a vantagem de Flávio Bolsonaro se sustentava nas apurações.
“É muito triste que o povo brasileiro… tenha optado por tanto retrocesso”, lamentou Marcelo Mac, de 46 anos, coproprietário do bar Miolo, em Laranjeiras. Mac manifestou perplexidade diante do favoritismo do filho do ex-presidente envolvido na tentativa de golpe. “Ele é um cara tão abominável que consegue ser ainda pior do que o pai”, desabafou.
A reta final da campanha mostrou forte impulso para a candidatura de Flávio Bolsonaro, alimentado pela insatisfação popular com o custo de vida e a violência urbana, fatores que as pesquisas de opinião não conseguiram mensurar com precisão na dimensão do resultado das urnas.
O eleitor Italo Andrade dos Santos, de 31 anos, balconista de farmácia, comemorou com contenção no trabalho durante o plantão de domingo. “Fiquei um pouco decepcionado porque esperava que o Flávio ganhasse no primeiro turno. Mas estou feliz por ele estar à frente”, afirmou Santos, ressaltando ter votado “mais para tirar o Lula do que pelo Flávio em si”.
A política externa também esteve no centro do debate eleitoral, com acusações de Lula de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou interferir no pleito em favor de Bolsonaro para “colonizar” o Brasil e apropriar-se de seus recursos naturais. Flávio Bolsonaro, por sua vez, prometeu estreitar laços com o líder norte-americano, que busca consolidar a influência de Washington na América Latina diante da eleição de governantes alinhados em países como Chile, Colômbia e Peru.
Fonte: Brasil 247