A derrota foi de Lula, mas a conta será da classe trabalhadora

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Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski

O avanço da extrema-direita expressa uma crise que vai muito além das urnas. Impedir a repetição do cenário argentino exige, agora, derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno

Postei aqui um comentário sobre a guinada que os institutos de pesquisa tiveram de sexta-feira para sábado e deixei as respostas para as urnas. Pois bem, passada a apuração, pode-se dizer que o movimento dos institutos pode ter sido uma correção de previsões que já se mostravam antecipadamente erradas, e seus proprietários resolveram fazer ajustes no último minuto para não saírem ainda mais desacreditados.

Analisando os resultados eleitorais — e muitos estão fazendo isso neste momento —, quero deixar clara a minha posição de que esta foi uma pesada derrota para a classe trabalhadora, e não simplesmente para o governo Lula. Ainda que parcelas importantes dessa mesma classe sejam artífices da derrota ao votarem em candidatos que prometem acabar com a parca estrutura de direitos criada principalmente a partir da Constituição de 1988, é preciso dizer que vivemos um período de retrocesso em escala global, basicamente em função do que se convencionou chamar de crise sistêmica do capitalismo.

A identificação dessa crise pelas classes dominantes dos países centrais tem tido como consequência o encurtamento de direitos e a ascensão de agrupamentos políticos dispostos a barganhar certa ascensão política e econômica em troca de desempenhar o papel de algozes da classe trabalhadora. E me parece que é justamente isso que está posto não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina.

Uma questão inegável é que parcelas significativas da população não se sentem — e nem poderiam se sentir — contempladas por uma estrutura de direitos e privilégios reservada às elites que controlam a riqueza e a estrutura do Estado. É a partir desse estranhamento que ocorre a ascensão da extrema-direita, que, curiosamente, não propõe democratizar esse controle, mas apenas passar a participar dele, sem que isso implique necessariamente ampliar o acesso a direitos para os seus próprios eleitores.

Além disso, no caso brasileiro, há que se ressaltar o fato de que o PT e seus partidos satélites passaram a ocupar o papel de defensores da ordem democrática burguesa, que tem se mostrado insuficiente para atender às necessidades e demandas da parcela da população que hoje prefere apostar na extrema-direita. Com isso, o PT termina associado aos erros e aos limites dessa mesma ordem, atraindo de forma crescente o ressentimento que vem se manifestando nos processos eleitorais recentes.

O horizonte imediato, caso a vitória de Flávio Bolsonaro se confirme no segundo turno, é o de termos algo muito parecido com o que aconteceu na Argentina sob a presidência de Javier Milei, com um amplo desmonte das estruturas que hoje amortecem, mas não resolvem, a miséria que atinge grandes parcelas da população. E, se isso realmente acontecer, é provável que as consequências sociais sejam ainda piores no Brasil.

A questão será, então, como responder a esse processo. Neste momento, entretanto, a quem não deseja assistir à repetição do cenário argentino no Brasil, sugiro que comece a trabalhar hoje para reverter a derrota de Lula e permitir que ele vença o segundo turno, que ocorrerá no dia 25 de outubro.

Simples assim.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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