The Economist: STF salvou a democracia, mas agora ‘sufoca’ o país em corrupção
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O Supremo Tribunal Federal (STF), que assumiu papel central na defesa do regime democrático brasileiro ao responsabilizar Jair Bolsonaro (PL) por tentar articular um golpe de Estado após as eleições de 2022, agora encontra-se no centro de um escândalo de corrupção em rápida expansão. A avaliação severa foi publicada na quinta-feira (10) pela revista britânica The Economist.
De acordo com a publicação internacional, o ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos referentes à trama golpista na Corte Suprema, situa-se no centro desse turbilhão. A revista põe em xeque a atuação contínua do magistrado, citando especialmente a condução do inquérito das fake news e a remoção de perfis de apoiadores do bolsonarismo nas redes sociais. A The Economist destaca que essa investigação prossegue sem prazo para terminar e pontua que é “impossível saber quantas contas o Sr. Moraes censurou ou por quê”, atribuindo ao ministro o suposto uso das atribuições do inquérito para finalidades de ordem pessoal.
A análise da publicação enfatiza a escalada de alegadas irregularidades processuais ao longo do tempo. “Os abusos se tornaram mais comuns: o Sr. Moraes usou a investigação para se proteger e proteger seus colegas de acusações de irregularidades, inclusive perseguindo fiscais da Receita Federal e fontes de jornalistas. O Sr. Moraes também ficou comprometido no caso devido aos seus papéis como vítima, promotor e juiz. Os subordinados do Sr. Bolsonaro planejaram assassinar o ministro, mas ele supervisionou a coleta de provas contra eles e proferiu uma sentença de culpado”, destaca o texto da revista.
O cenário se agravou com as revelações ligadas ao escândalo do Banco Master. A instituição era comandada pelo empresário Daniel Vorcaro, classificado pela The Economist como o “maior fraudador do Brasil”.
A publicação descreve a operação financeira como um esquema de pirâmide associado ao uso de trânsito político. Vorcaro promovia festas luxuosas com a presença de políticos e prestava homenagens a diversos magistrados do Supremo Tribunal Federal, entre eles o próprio Alexandre de Moraes.
Entre os vínculos considerados alarmantes pela investigação e citados pelo periódico britânico, sobressai a contratação do escritório de advocacia pertencente à família de Moraes por parte do banco, por meio de “um contrato incomumente vago e caro”. Adicionalmente, acordos firmados entre as partes concediam aos familiares do ministro o direito de utilizar um avião jato particular e um helicóptero vinculados ao ex-banqueiro.
A apuração indica ainda que Moraes mantinha comunicação direta com Vorcaro por meio do aplicativo WhatsApp, utilizando a ferramenta de mensagens temporárias que apaga os textos após a leitura — combinada com a digitação previa no bloco de notas do aparelho celular. A intensidade desses contatos aumentou nas vésperas da prisão de Vorcaro, quando o empresário tentava deixar o país, o que levantou dúvidas sobre o teor das orientações prestadas ao investigado. O ministro Alexandre de Moraes nega categoricamente qualquer tipo de irregularidade em sua conduta.
A The Economist classificou a proximidade entre um integrante do Supremo Tribunal Federal e o investigado como “decepcionante”. A revista criticou severamente a postura subsequente de Moraes, afirmando que o magistrado “zombou da ideia” formulada pelo presidente do STF, ministro Edson Fachin — qualificado como “íntegro” pela publicação —, no sentido de instituir um código de ética para os membros do tribunal. Paralelamente, Moraes solicitou que o ministro André Mendonça passasse a ser investigado no âmbito do inquérito das fake news.
Ao analisar o embate com Mendonça, a revista pondera que Moraes “pode ter razão”, uma vez que o colega de bancada “ainda não publicou provas contra outros ministros que também tiveram relações com o Sr. Vorcaro”. Contudo, lembra que Mendonça é acusado pela Polícia Federal de interferir na coleta de provas da investigação, tendo inclusive tentado, na terça-feira (8), afastar o chefe da Polícia Federal e barrar a circulação de relatórios de inteligência sobre membros do Judiciário. O histórico de Mendonça também foi relembrado: quando ocupou o cargo de ministro da Justiça no governo Bolsonaro em 2020, o atual magistrado do STF comandou a elaboração de um dossiê voltado a monitorar centenas de policiais e acadêmicos classificados como opositores pelo Executivo da época.
Em suas considerações finais, a reportagem da The Economist adverte que a instabilidade no STF fortalece a base parlamentar aliada a Bolsonaro no Congresso Nacional, que promete encampar processos de impeachment contra magistrados e conceder indulto ao ex-presidente, que se encontra preso.
A revista expressa forte preocupação de que o acúmulo de falhas processuais por parte de Mendonça e as movimentações de autoproteção efetuadas por Moraes forneçam sustentação jurídica para anular e encerrar integralmente as investigações relacionadas ao Banco Master. Esse desfecho favoreceria autoridades do Judiciário e diversos quadros políticos envolvidos com a organização de Vorcaro. Entre eles figura o candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), que teve áudios vazados em maio solicitando aportes milionários ao banqueiro, a despeito de ter negado anteriormente qualquer contato com o empresário.
O diagnóstico final da publicação britânica sinaliza um grave prejuízo para a estabilidade institucional do país: “Esta é a tragédia do Brasil: a corrupção no âmago de suas instituições pode minar a confiança na democracia mais do que Bolsonaro jamais conseguiu”.
Fonte: Brasil 247