No Dia do Cerrado, CPT lança dados parciais sobre os conflitos socioambientais que violentam povos e territórios do bioma

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Por Daniel LeviCombate Racismo Ambiental

A II Romaria Nacional do Cerrado aconteceu em junho, em Corumbá (MS). Foto: Júlia Barbosa (CPT Nacional)

No Dia do Cerrado, CPT lança dados parciais sobre os conflitos socioambientais que violentam povos e territórios do bioma

Contaminação por agrotóxicos lidera os registros de conflitos por terra e água nos territórios cerradeiros no primeiro semestre de 2026

Por Júlia Barbosa, em CPT

“A importância do Cerrado está na nossa biodiversidade”, assim expressou a agricultora Ercilene, do Assentamento Nazareth (MS), durante a II Romaria Nacional do Cerrado. É essa sociobiodiversidade que mantém o Cerrado de pé. São os povos e comunidades originárias, tradicionais e camponesas que, há milhares de anos, com seus modos de vida e sua relação ancestral com a terra-território, co-evoluíram com o bioma (Porto-Gonçalves, 2002).

Os povos do Cerrado preservam e alimentam suas águas, com o cuidado com as nascentes e a vegetação nativa, enfrentando, nesse contexto, diversas violências frente ao hidroagronegócio, agora ainda mais multifacetado, com a mineração e a exploração de gás. Essa realidade reflete a face dos conflitos no campo brasileiro, que, no Cerrado, violentam e ameaçam a continuidade da vida.

Os dados parciais de conflitos no campo, divulgados pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da Comissão Pastoral da Terra (Cedoc/CPT), revelam que, de janeiro a junho de 2026, foram 306 ocorrências de conflitos no campo nos territórios do Cerrado, consideradas áreas contínua e de transição. Esse total reúne os números de conflitos por terra, água e trabalho, que representam principalmente violências contra os povos e comunidades cerradeiras.

Os conflitos por terra no Cerrado somaram 261 ocorrências, sendo a maioria (243 casos) referentes à Violência contra a Ocupação e a Posse. Conflitos no campo, define a CPT, são as ocorrências de violências contra os povos somados aos registros de suas ações de resistência. Dessas, foram identificadas 17 ocupações/retomadas e 1 acampamento no período abordado.

A principal violência registrada nos territórios do Cerrado, no contexto dos conflitos por terra,  foi a contaminação por agrotóxicos, com 133  ocorrências. Desses, 125 ocorreram no estado do Maranhão. “É preciso olhar para o nosso Cerrado. É o nosso meio de sobrevivência, sem veneno, natural, para que nossa juventude, nossos idosos e todo o povo tenha uma alimentação saudável”, reflete Ercilene. 

Outras violências mais recorrentes no período foram a Invasão (27), a Omissão e/ou Conivência (21) – que expressa a negligência governamental sobre os conflitos e as vidas dos povos do campo – além do Desmatamento Ilegal (19) e a Ameaça de Despejo Judicial (18).

Dos conflitos por água, o Cedoc/CPT registrou 27 casos no Cerrado, sendo a Contaminação por Agrotóxicos também a principal violência, com 8 ocorrências. Ainda, foram identificadas as violências Diminuição do acesso à Água (7), Destruição e/ou Poluição (5), Contaminação por Minérios (4), Impedimento do acesso à Água (2) e Reassentamento inadequado (1).

“O rio está gritando, a mata está gritando, os animais estão gritando. Nosso grito é o grito da terra, da dor do nosso território. Nosso rio está pedindo socorro, tenho certeza de que nós, unindo nossas forças, não vamos deixar acabar nossa água, porque a gente está gritando pela natureza e pelos nossos rios, estamos pedindo socorro para somarem nessa luta” – Maria Belizário, anciã Terena da Aldeia Mãe Terra (MS), durante a II Romaria Nacional do Cerrado.

No mesmo período, foram registrados 18 casos de trabalho escravo rural no Cerrado, com 248 trabalhadores resgatados em condições análogas à escrevidão. Ainda, nas ocorrências de conflitos, foram identificados 385 casos de Violência contra Pessoa no Cerrado, contabilizando atos da mais extrema expressão da violência no campo, com 2 assassinatos, sendo as vítimas um indígena Guarani e Kaiowá (MS) e um camponês Sem Terra (MT). 

Além das violências fatais, o Cedoc/CPT registrou, nos casos de Violência contra Pessoa nos territórios do Cerrado, 195 ocorrências de Contaminação por minérios, 42 casos de Contaminação por agrotóxico, além de violências como Ferimento (36), Criminalização (29), Ameaça de prisão (26), Intimidação (23), Ameaça de Morte (9), Morte em consequência (9), Prisão (8), Agressão (5) e Tentativa de Assassinato (1).

A gente passa por uma luta muito grande para poder chegar na conquista. Passamos por lutas de muito enfrentamento, inclusive de ameaças, de colocarem fogo no nosso acampamento, mas nós resistimos. No Cerrado, nós estamos sofrendo muito com o latifúndio, uma invasão enorme dos latifúndios tomando nossos territórios”, expressou Maria Moreira, agricultora Sem Terra do Pré-assentamento Dom Tomás Balduino (GO), também durante a II Romaria Nacional do Cerrado.

As violências são vividas histórica e diariamente, mas também o são as resistências dos povos cerradeiros, resilientes como o bioma. No período de janeiro a junho deste ano, foram registradas 87 ações de Manifestação de Luta no Cerrado. Em atos públicos, como marchas, protestos e romarias, os povos do Cerrado ecoaram reivindicações em torno de questões ambientais, por Reforma Agrária, demarcação de terras indígenas e titulação de territórios tradicionais, em defesa das águas do Cerrado e por soberania alimentar. Ainda, denunciaram a violência no campo, o trabalho escravo rural, o uso de agrotóxicos, a grilagem e os empreendimentos predatórios, entre outros impactos sobre os povos e territórios

Nesse Dia do Cerrado, as vozes dos povos cerradeiros, reverberadas e sustentadas pelos dados que refletem a realidade violenta do campo brasileiro, ecoam resistências e reafirmam o Cerrado de pé, e alertam que a luta também se faz nas eleições:

“A gente tem que pesquisar o históricos desses candidatos, que a gente conhece na nossa base e têm uma história de luta na defesa dos territórios, das quebradeiras de coco, dos povos indígenas, dos quilombolas. A gente não [deve] votar em desconhecidos que não nos representam: enganam, manipulam a população.” – Antônio Veríssimo, liderança do povo indígena Apinajé

Acesse a carta-compromisso e conheça a Campanha Vote pelo Cerrado: votepelocerrado.org.br

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