Terras raras no Brasil atraem 18 grupos estrangeiros e R$ 17,5 bilhões

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Ao menos 18 empresas estrangeiras mantêm projetos de pesquisa ou exploração de terras raras no Brasil, com investimentos realizados e estimativas de implantação que somam R$ 17,5 bilhões.

Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo mostra uma expansão do interesse internacional por esses minerais, enquanto o governo federal tenta assegurar que o país também abrigue etapas industriais de maior valor.

A Folha cruzou dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) com documentos societários, estudos técnicos e comunicados empresariais. Das 18 companhias identificadas, 11 são australianas, três canadenses, três americanas e uma foi constituída nas Ilhas Marshall. Os empreendimentos vão de pesquisas iniciais à produção comercial, e parte expressiva dos recursos previstos depende de licenciamento, financiamento e comprovação de viabilidade técnica.

A movimentação mais recente foi a compra da australiana Meteoric Resources pela também australiana Lynas, anunciada no fim de setembro por R$ 3,5 bilhões. O negócio envolve o Projeto Caldeira, voltado à exploração de terras raras no sul de Minas Gerais, na região de Andradas, Caldas e Poços de Caldas.

A transação ocorreu menos de um mês depois de a americana USA Rare Earth concluir a aquisição da Serra Verde, em Goiás, a primeira mina do país a produzir terras raras comercialmente. Os negócios refletem a busca de grupos internacionais por fornecedores fora da China, que lidera a extração e o beneficiamento desses minerais.

As terras raras são utilizadas na fabricação de ímãs de alto desempenho empregados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa. O desafio brasileiro é transformar a disponibilidade mineral em uma cadeia industrial que vá além da produção e da exportação de concentrados.

Industrialização ainda depende de decisões empresariais

Após a obtenção do concentrado, os elementos precisam ser separados e transformados em metais, ligas e produtos industriais. Essas etapas exigem tecnologia e concentram a maior parcela do valor da cadeia. O governo pretende atrair essas atividades para o Brasil e reduzir a dependência da venda de matérias-primas.

O Projeto Caldeira será um teste para essa estratégia. Depois do anúncio da aquisição da Meteoric, o Ministério de Minas e Energia (MME) afirmou que “o Brasil irá receber a primeira grande planta industrial de separação e processamento de minerais críticos e estratégicos”.

Até o momento, entretanto, a operação não estabelece um compromisso formal de instalação dessa indústria no país. A Lynas manifestou a intenção de “avaliar o potencial para o desenvolvimento de atividades de separação de terras raras no Brasil”.

O ministério informou que mantém diálogo com as empresas e que o ministro Alexandre Silveira recebeu representantes da Meteoric em 16 de setembro. Segundo a pasta, eles apresentaram o objetivo de implantar uma unidade de separação no Brasil com a tecnologia utilizada pela Lynas na Malásia.

“Esse plano evidencia que os investidores internacionais já estão respondendo às premissas de agregação de valor local e soberania consolidadas pela nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos”, declarou o MME.

Nova política prevê garantias e incentivos fiscais

Sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos autoriza a criação de um fundo garantidor com participação da União de até R$ 2 bilhões. O mecanismo busca facilitar o financiamento de projetos considerados prioritários.

A legislação também prevê até R$ 1 bilhão por ano em créditos fiscais entre 2030 e 2034 para atividades de processamento, transformação e recuperação de minerais presentes em resíduos.

Para Alessandra Cardoso, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), a regulamentação será determinante para definir como esses instrumentos funcionarão.

“A nova política de minerais críticos vem com a promessa de que serão acionados novos instrumentos, governança e medidas para que esse minério não seja apenas extraído e exportado, mas realmente sirva para estimular o adensamento da cadeia de valor”, afirmou.

Na avaliação de Cardoso, a política tende a atuar principalmente por incentivos à industrialização. A especialista considera difícil estabelecer exigências abrangentes para um setor que já opera de forma altamente internacionalizada.

Serra Verde produz, mas não definiu unidade de separação

O empreendimento mais avançado é a Serra Verde, em Minaçu, no norte de Goiás. A mina obteve licença ambiental de operação em 2023 e iniciou a produção comercial em 2024. Segundo a USA Rare Earth, os investimentos já ultrapassam o equivalente a R$ 5 bilhões, pela conversão apresentada na reportagem.

A Serra Verde afirmou à Folha que “já agrega valor no Brasil”, porque “não exporta minério bruto e opera, em Minaçu, uma mina e uma planta integrada de processamento, onde produz Carbonato Misto de Terras Raras”.

A companhia condiciona a incorporação de novas etapas à disponibilidade de tecnologia, capital e escala, além de regulamentação favorável e condições econômicas competitivas.

“Por meio da combinação com a USA Rare Earth, esperamos acessar tecnologias de separação de terras raras ao longo do tempo. A localização de uma eventual instalação de separação será definida após uma análise técnica e econômica completa, e o Brasil permanece como uma possível opção.”

Outros empreendimentos também combinam atividades no Brasil com estruturas industriais no exterior. A canadense Aclara mantém uma planta-piloto em Aparecida de Goiânia e estima cerca de R$ 3,9 bilhões para seu projeto em Nova Roma, em Goiás. A empresa dispõe de unidades próprias nos Estados Unidos para separar os elementos e produzir metais e ligas.

Na Bahia, a australiana Brazilian Rare Earths prevê aproximadamente R$ 4,8 bilhões para o empreendimento integrado Monte Alto–Camaçari até a primeira produção de óxidos. As duas estimativas em reais seguem a conversão de referência utilizada na reportagem.

Em setembro, a companhia anunciou que a primeira etapa da planta-piloto em Camaçari entrou em operação e produziu concentrado mineral. A fase seguinte, dedicada ao tratamento químico e à separação, está prevista para 2027.

Em Poços de Caldas, a australiana Viridis obteve licença prévia para seu projeto e teve aprovado financiamento de R$ 77,5 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para um centro de pesquisa e processamento de terras raras.

Pesquisas e licenciamento condicionam expansão

Há ainda empresas em etapas de mapeamento, coleta de amostras, sondagens e testes em Minas Gerais, Goiás, Bahia, Amazonas, Tocantins e Piauí. Esses trabalhos precisam demonstrar se os depósitos comportam exploração comercial e definir como o material será processado. O levantamento também registra críticas aos impactos ambientais e sociais dos empreendimentos.

O MME defende uma combinação de incentivos e instrumentos regulatórios para ampliar as atividades industriais no país. Segundo a pasta, o Conselho Nacional dos Minerais Críticos deverá contribuir para estimular o beneficiamento, o processamento, a separação, o refino e a transformação desses recursos.

“Isso não significa que cada mineradora precise necessariamente realizar, sozinha, todas essas etapas. O objetivo é criar condições para que os projetos avancem na cadeia de valor, seja diretamente, seja por meio de parcerias com empresas que detenham tecnologia e capacidade industrial”, afirmou o ministério.

Fonte: Brasil 247

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