“Temos que garantir uma fila única e regulada”, diz Nísia Trindade

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Por Dafne AshtonBrasil 247

247 – A ex-ministra da Saúde Nísia Trindade defendeu a implantação de uma fila única e regulada no Sistema Único de Saúde (SUS) como instrumento para organizar o acesso a consultas, exames e procedimentos especializados. Para ela, o enfrentamento das filas não depende apenas da ampliação da oferta, mas de uma rede capaz de acompanhar o paciente desde a atenção básica até os serviços de maior complexidade.

“Temos que garantir uma fila única, regulada, para que as pessoas tenham acesso a especialistas”, afirmou Nísia em entrevista ao Bom Dia 247, da TV 247. A proposta, segundo ela, deve combinar transparência sobre a demanda existente, definição de prioridades de acordo com critérios clínicos e integração entre as diferentes estruturas que compõem o SUS.

O ponto central é substituir um sistema fragmentado, no qual o paciente muitas vezes precisa percorrer diferentes serviços em busca de atendimento, por uma lógica de regulação capaz de identificar a necessidade de cada pessoa e encaminhá-la ao serviço adequado. Nesse modelo, a posição na fila não seria determinada apenas pela ordem de chegada, mas também pela gravidade e pelo risco de cada caso.

A fila única, portanto, não significa simplesmente reunir todos os pacientes em uma mesma lista. Ela pressupõe uma estrutura pública de regulação que conheça a demanda, a capacidade disponível e as prioridades clínicas. Isso permite, por exemplo, que um paciente em situação de maior risco seja encaminhado com maior rapidez, enquanto outros casos possam continuar sendo acompanhados na atenção básica até a realização do procedimento necessário.

Para Nísia, esse processo depende do fortalecimento da atenção primária. As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) funcionam como porta de entrada do sistema e precisam estar conectadas às policlínicas, aos centros especializados e aos hospitais. Sem essa articulação, a ampliação isolada do número de consultas ou procedimentos não resolve os gargalos de acesso.

A ex-ministra relacionou essa estratégia ao programa Agora Tem Especialistas, concebido para enfrentar um dos principais pontos de estrangulamento do SUS: o intervalo entre o primeiro atendimento e o acesso à atenção especializada. A lógica é reduzir o tempo de espera por consultas, exames, diagnósticos e tratamentos sem romper o vínculo do paciente com a rede pública que acompanha seu caso.

Nesse desenho, a regulação assume papel central. Em vez de fazer com que o cidadão seja responsável por encontrar sozinho onde realizar um exame ou conseguir uma consulta, cabe ao sistema organizar o percurso do paciente. A unidade básica identifica a necessidade, o caso entra na estrutura de regulação e o atendimento é direcionado conforme disponibilidade, necessidade clínica e grau de urgência.

“É preciso ter transparência e prioridade por risco”, defendeu Nísia. O princípio altera a própria compreensão da fila: ela deixa de ser apenas uma sequência cronológica e passa a funcionar como instrumento de gestão da demanda do SUS.

A integração também é necessária porque uma consulta com especialista raramente encerra o atendimento. O paciente pode precisar de exames, cirurgia, acompanhamento hospitalar ou retorno à atenção primária. Sem comunicação entre esses diferentes níveis, há risco de repetição de exames, perda de informações e interrupção do tratamento.

Nísia citou a área de transplantes como exemplo da importância da regulação pública. Nesse tipo de atendimento, a existência de critérios definidos, acompanhamento da demanda e organização nacional permite estabelecer prioridades a partir de parâmetros médicos. Para a ex-ministra, a mesma concepção de transparência e regulação deve orientar outras áreas da assistência especializada.

O fortalecimento da atenção básica integra essa estratégia. A expansão e modernização das UBSs, inclusive com investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), pode ampliar a capacidade de diagnóstico e acompanhamento dos pacientes antes que eles precisem chegar aos hospitais. Agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias também ocupam posição importante nesse processo por estabelecerem a ligação entre os serviços públicos e os territórios.

A discussão sobre as filas, dessa forma, não se resume ao número de médicos especialistas disponíveis. Envolve a capacidade do Estado de organizar uma rede que acompanhe o cidadão durante todo o tratamento e distribua os recursos existentes segundo as necessidades de saúde da população.

Ao defender uma fila única, Nísia sustenta que o acesso à atenção especializada deve obedecer a critérios públicos e verificáveis, reduzindo a fragmentação entre serviços e impedindo que a capacidade individual de procurar atendimento determine quem consegue chegar primeiro a um especialista.

“A questão é garantir o acesso e organizar esse acesso”, resumiu. Na concepção apresentada pela ex-ministra, reduzir as filas significa transformar a regulação em parte do cuidado: identificar quem precisa de atendimento, estabelecer a prioridade clínica e assegurar que cada paciente consiga avançar dentro da rede do SUS até receber o tratamento necessário.

Fonte: Brasil 247

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