Por J. Carlos de Assis — Brasil 247

O jornal O Estado de S. Paulo, conhecido como Estadão, representa entre os meios de comunicação no Brasil a mídia escrita mais conservadora – porém, uma das melhor informadas. No editorial do último dia 23, “Flávio e a Sombra dos Milicianos”, o Estadão sustentou que a eventual vitória de Flávio Bolsonaro em sua corrida para alcançar a Presidência constitui  um “risco da ascensão das milícias ao topo do poder” na República. É a voz da razão que, embora vindo da direita, reflete o medo do afundamento total do Brasil na pocilga da corrupção política e da total submissão do País ao crime organizado.

Trata-se do inesperado que faz uma surpresa, lembrando um dos mais bonitos trechos da canção Eu e a Brisa, composta por Johnny Alf (nome artístico de Alfredo José da Silva) e lançada em 1967. Esse editorial inesperado  pode decidir a eleição neste ano. Ninguém esperaria que um jornal conservador como o O Estadão atacasse de forma tão vigorosa, bem fundamentada  e irrespondível o principal candidato presidencial da direita fascista, atingindo principalmente um eleitorado decisivo nas eleições, a saber, os idosos  e as idosas com mais de 60 anos, em geral inclinados para posições conservadoras.  

O Estadão cita ligações do Senador Bolsonaro com milicianos e traficantes, desde 2023, quando era deputado estadual na ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro).  Entre os bandidos com quem se relacionava distinguia-se  o Peixe, chefão do tráfico na favela da Maré, no Rio, ao qual destinou quase 200 mil de reais de emenda parlamentar, cuja motivação não conseguiu explicar. O jornal  apontou conexões desse bandido com  Domingos e Chiquinho Brazão, mandantes dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Todos foram condenados. 

“É extremamente preocupante, para dizer o mínimo, que um candidato à Presidência da República tenha mantido vínculo tão próximo com um criminoso de sangue até pouco tempo atrás”, afirma o editorial. O jornal recorda que, em 2007, Flávio defendeu a milícia na ALERJ como um “novo tipo de policiamento” e classificou crimes cometidos por integrantes desses grupos como “casos isolados”.Em outro discurso citado pelo editorial, o então deputado estadual afirmou que “não se importaria” em pagar mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” a grupos dessa natureza para “ter mais segurança”.

O texto também recupera a relação do gabinete de Flávio na ALERJ com familiares de Adriano da Nóbrega, ex-policial militar apontado como uma das principais lideranças do Escritório do Crime. Adriano morreu em 2020, durante uma operação policial na Bahia. Segundo o editorial, a trajetória e as conexões políticas construídas no Rio por Flávio integram um histórico que precisa ser considerado diante de sua candidatura presidencial. Na mesma linha, o editorial sustenta que as relações de Flávio Bolsonaro com o crime organizado não podem ser consideradas um desvio pontual. Pode-se dizer, digo eu, que são sistêmicas. 

Finalmente, o Estadão dirige-se aos eleitores que dentro de cerca de um mês vão às urnas para escolher o presidente que governará o Brasil nos próximos quatro anos. O exercício livre do voto está garantido constitucionalmente, adverte o editorial.  “Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”, concluiu. 

Fonte: Brasil 247

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