Por Washington AraújoBrasil 247

Na manhã desta terça-feira, 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal abriu uma sessão inédita em sua história: pela primeira vez, o plenário foi convocado para decidir se autoriza uma investigação contra um de seus próprios ministros. Alexandre de Moraes chegou ao julgamento atingido pelas revelações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master; André Mendonça, responsável por parte da apuração que produziu o material, também entrou sob fogo dos colegas. Em poucas horas, a crise saiu dos autos, ganhou voz, rosto e temperatura.

Assisti às primeiras horas tomando notas. As câmeras mostraram semblantes crispados, mãos inquietas e vozes por vezes claudicantes. Jornalismo sério não transforma expressão facial em prova, mas seria covardia profissional fingir que a linguagem humana desaparece sob a toga. Ali ninguém é amador. São homens treinados durante décadas para controlar palavra, gesto e emoção. Justamente por isso, chamou atenção aquilo que escapou ao controle.

Kassio Nunes Marques declarou-se impedido. Dias Toffoli, suspeito por foro íntimo. Nos dois, procurei a serenidade de quem simplesmente cumpre uma regra processual. Minha percepção foi outra: tensão, olhares pouco firmes, hesitação. A sombra da culpa rondava aqueles semblantes. Não prova coisa alguma. Registrei o que vi.

Então o plenário incendiou.

Gilmar Mendes acusou André Mendonça de condução político-eleitoral e atacou sua atuação. Mendonça reagiu:

— Não aponte o dedo para mim, ministro Gilmar! O senhor não está falando com qualquer um!

Gilmar devolveu:

— Quem não se dá respeito não merece respeito!

Fachin precisou intervir.

Moraes levou o confronto a outro patamar. Acusou Mendonça de atuação partidarizada e de tentar envolver a Polícia Federal numa ofensiva contra ele. Disse possuir testemunhas.

— Mentira! Mentira! Mentira! — reagiu Mendonça.

— Tenho testemunhas. Vamos chamá-las! — respondeu Moraes.

Mendonça afirmou que elas mentiriam e prometeu responder na sua vez.

Ali desapareceu a liturgia. Dois ministros da mais alta Corte brasileira passaram a acusar um ao outro, diante do país, de condutas gravíssimas.

Gilmar ainda perguntou:

— Quem é o vazador-geral da República?

Mendonça sustentou que vazamentos levaram a investigações. Gilmar voltou à carga e criticou duramente o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal.

Flávio Dino também enfrentou Fachin. Advertido após interromper Toffoli, contestou a interpretação do Regimento e disparou:

— Em nenhum tribunal do país um presidente pode destituir um relator.

Gilmar apoiou Dino. De repente, o Supremo discutia publicamente seus próprios limites de poder enquanto tentava arbitrar sua crise.

Luiz Fux abriu outra ferida ao mencionar, ao lado de Mendonça, uma Polícia Federal “paralela” destinada ao acompanhamento de ministros. O quadro tornou-se extraordinário: alguns acusavam Mendonça de tentar instrumentalizar a PF; outros descreviam uma estrutura policial agindo além de suas fronteiras institucionais.

A cobertura também mereceu atenção. Malu Gaspar pareceu assistir a outra sessão: sua leitura favoreceu Mendonça e carregou contra Moraes. Octavio Guedes ficou no ponto, entregando jornalismo sem vestir camisa. Andréia Sadi, Valdo Cruz e Camila Bomfim preferiram relatar o espetáculo que as imagens ofereciam.

Merval Pereira foi devastador. Comparou a sessão à reunião ministerial de Jair Bolsonaro marcada por gritos e balbúrdia e concluiu: “Esse é o pior Supremo que o Brasil já teve.”

Depois do intervalo, Fachin terá quatro questões concretas diante da Corte.

A primeira é decidir se os casos Moraes e Mendonça serão reunidos e levados conjuntamente ao julgamento previsto para 23 de setembro. A segunda envolve a redistribuição dos processos relacionados ao Banco Master e ao INSS enviados à Presidência do Supremo. A terceira será estabelecer como magistrados de tribunais superiores citados no material do Master serão oficialmente cientificados. A quarta decidirá sobre a suspensão dos julgamentos enquanto essa reorganização processual estiver em curso.

Qualquer uma delas pode alterar relatorias, prazos, composição da votação e calendário. Um novo relator poderá pedir tempo para estudar o material e empurrar a decisão para depois das eleições.

São quatro questões processuais.

A quinta surgiu diante das câmeras.

Depois de impedimentos, suspeições, dedos em riste, acusações de mentira, denúncias envolvendo a Polícia Federal e ministros questionando publicamente a conduta dos próprios colegas, o Supremo terá de responder a algo muito maior que Moraes ou Mendonça: quem julga os juízes quando os próprios juízes já parecem partes da crise que deveriam julgar?

Agora o primeiro parágrafo entrega a notícia antes de entregar sua impressão. Essa era a peça que estava faltando.

Fonte: Brasil 247

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