Sobre cheiros e futuros: o perfume dos livros e a fedentina que insiste em se aproximar

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Por João Victor SampaioCarta Capital

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Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.

Eu mesmo começo a cheirar mal: sinto-me uma carniça e o que não faltam são urubus sobrevoando

Respondi na semana passada ao amigo e grande jornalista Thiago Ney em sua newsletter Margem: gosto muito dos cheiros dos livros. Há momentos em que me sento para ler e gasto um tempo impreciso folheando as páginas, bem perto do nariz, aproveitando o perfume. Os livros novos têm um buquê cheio de frescor, mas os antigos exalam experiência, maturidade, algo igualmente meditativo.

Outro dia, manuseando um livro de receitas, tive a certeza de que cada página cheirava como o prato, em textos e fotos, temperaturas e texturas. Fiz um banquete completo, zero caloria, digestão perfeita.

Sou uma pessoa de cheiros, vê-se logo. As alcachofras no fogo, o manjericão colhido na horta, o abacaxi maduro, as laranjas frescas, o limão, o cravo, a canela, a panela com chá de gengibre. O eucalipto que o vento traz, a terra úmida. O mar, a maresia, a areia, o vento. Sobretudo o mar.

Outro dia ainda: entrou pela janela um cheiro de xixi de gato, odeio cheiro de xixi de gato, e tenho gato. Mas o bichinho não sai de casa nem vai à janela. Uma inspeção mais rigorosa, nariz enfiado nas frestas, descobri que vinha de uma planta que, de tempos em tempos, quando molhada em abundância, libera o odor. Quando uma coisa parece outra, tudo fica mais difícil e perigoso.

O mundo não é perfume, qualquer um sabe. E tem entrado por todos os cantos uma fedentina específica. Um cheiro de desfaçatez, de seletividade de narrativa, de asco pela diversidade, pela igualdade de condições. Sinto todos os dias o fedor de quem vende o discurso de deus e da família e por dentro é uma massa fermentada de preconceito e colonialismo. É o fedor da burrice de sequer saber o que se é.

Minhas portas e janelas vivem cerradas agora, quase não posso respirar. Qualquer um sabe: há uma chance de vivermos inalando a catinga da injustiça por muito tempo. E talvez, possivelmente, sejamos obrigados a dizer que todo cheiro nos agrada. E talvez nem todos os livros possam ser lidos e inalados. E talvez a gente volte ao tempo em que tudo se resumirá às receitas de bolo em textos e fotos.

O mundo não é perfume, mas tomara que não volte a ser a fetidez irrespirável de um passado tão recente. Eu mesmo começo a cheirar mal: sinto-me uma carniça e o que não faltam são urubus sobrevoando.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Ricardo Pieralini

Ricardo Pieralini é escritor. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2024.

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Fonte: Carta Capital

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