Por Carlos Drummond — Carta Capital

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Os rumos da economia sob Lula ou sob Flávio Bolsonaro

Além do significado político, a eleição presidencial do domingo 4 será, para a economia, ainda mais decisiva do que aquela de 2002, quando a vitória de Lula impediu o ingresso do País na Alca e a privatização da Petrobras, acredita o economista Marcelo Manzano, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da mesma universidade. “Muito mais estará em jogo, não apenas porque o projeto de país representado por Lula é radicalmente diferente daquele defendido por Flávio Bolsonaro, mas também porque o cenário internacional nos coloca diante de desafios enormes. Caso a oposição vença, o nosso futuro estará ameaçado.”

Com Lula, ocorrerá o oposto. Reconhecido internacionalmente como hábil negociador e estrategista, o petista terá condições de aproveitar um cenário de grandes transformações na geopolítica mundial para consolidar o Brasil como potência regional e conquistar graus de soberania que nos habilitem rumo a uma sociedade mais desenvolvida, próspera e justa, acrescenta o economista. Com Flávio Bolsonaro, prossegue Manzano, parece evidente, pelas próprias declarações do candidato, que estaremos completamente subordinados aos interesses dos grupos econômicos dos Estados Unidos, que, provavelmente, farão conosco o que têm feito na Argentina de Javier Milei, isto é, “uma profunda desconstrução das instituições nacionais e uma pilhagem de nossos recursos naturais”.

Segundo o diretor do Cesit, o resultado da eleição será decisivo ainda para determinar o papel do Brasil no cenário global. Com Lula, teremos chance de participar do novo mundo que se abre com a emergência da China e os desafios colocados pelas transições ecológica e digital, com altivez e soberania, em condições de conquistar uma posição estratégica. Com Flávio Bolsonaro, abriremos mão das condições de comandar o nosso futuro, delegando aos interesses de uma potência decadente os nossos principais ativos − terras-raras e minerais críticos, petróleo e energia limpa, água abundante −, abandonando de vez os esforços de reindustrialização.

O presidente reeleito enfrentaria limitações para acelar o crescimento da economia. O senador representa a destruição definitiva da Constituição de 1988 e das políticas de inclusão

No cenário doméstico, prevê o economista, haverá com o senador um ataque frontal à Constituição de 1988, que, a duras penas, tem permitido ao Brasil avanços sociais de grande importância, entre eles a consolidação do SUS, a universalização do ensino público, o estabelecimento das cotas raciais e sociais e a política de valorização do salário mínimo. É importante lembrar que nas propostas econômicas do filho 01, elaboradas pela economista Daniella Marques, defende-se a retomada do programa de privatização das estatais e a desvinculação dos orçamentos das políticas de saúde, educação e previdência social, o que significaria um retrocesso brutal, com dramáticas consequências sobre a vida de todos os brasileiros, especialmente os mais pobres. Com Lula, teríamos ao menos a garantia de manutenção dessas políticas e, apesar das dificuldades fiscais, seria possível avançar em outras frentes, como a política nacional de cuidados, a reforma agrária, a expansão das escolas integrais e o avanço da formalização das relações de trabalho.

Em relação à dívida pública, sob o bolsonarismo, a estratégia será cortar despesas fiscais, principalmente por meio do ataque ao financiamento das políticas sociais, com uma nova reforma da Previdência para produzir um grande superávit primário e tentar reduzir a dívida. “O esforço seria, contudo, inglório, como vimos ocorrer em 2015 na desastrosa política de austeridade do ministro Joaquim Levy”, dispara Manzano.

Com Lula, talvez se faça a revisão da meta de inflação, essencial para proporcionar à diretoria do Banco Central justificativas técnicas para transitar rumo a um nível de juros bem mais baixo. “Considerando a hipótese de um cenário externo mais benigno e um governo Lula em condições de acelerar a taxa de crescimento do PIB para um patamar entre 3,5% e 4% ao ano, assistiríamos a uma estabilização da relação dívida ­pública-PIB, equacionando o problema de forma virtuosa, não por meio do sacrifício social, do desemprego e do aumento da desigualdade”, conclui o economista.

Os Correios encabeçam a lista das privatizações de um eventual governo Flávio – Imagem: Joédson Alves/Agência Brasil

Uma recondução de Lula leva também ao confronto com limites da política econômica adotada até agora, diz o economista José Augusto Gaspar Ruas, do Instituto de Pesquisa e Estudos Econômicos e Sociais. “Não acredito que reste muito mais fôlego para continuar com o crescimento puxado por um consumo, diante do tamanho do endividamento das famílias e das empresas.”

A taxa de juros não cairá rapidamente, portanto, um novo governo Lula terá dificuldade em manter o crescimento. Apesar da reconstrução de alguns instrumentos importantes de política industrial, como a organização da Petrobras, restam poucas formas de dinamizá-la diante dos bloqueios para usar o Estado e as receitas fiscais com esse objetivo. “Não se consegue deslanchar um pacote de investimento significativo, mesmo com bons programas como a Nova Indústria Brasil e o Minha Casa, Minha Vida. Tanto que a Formação Bruta de Capital Fixo, principal indicador do investimento, segue muito baixa como proporção do PIB, distante do que foi no fim do segundo mandato, em 2009 e 2010.”

Com o País subordinado aos EUA, em um mandato de Flávio Bolsonaro, é de se esperar a privatização, em primeiro lugar, dos Correios, abertura no setor de petróleo, inclusive na Margem Equatorial, entrega de terras-raras e algum ajuste no Pix, em troca de um punhado de investimentos que não serão capazes de ativar a economia brasileira.

O espelho do Brasil amanhã, na hipótese de o bolsonarismo vencer, é a Argentina hoje, com aumento expressivo da pobreza, compara o economista Saulo Abouchedid, professor da Facamp. Esse efeito ocorre pela revisão, por Milei, de políticas sociais importantes e o resultado é um aprofundamento da recessão. “A única via possível em um governo Flávio Bolsonaro para o crescimento econômico é por meio da concentração de renda. A tendência é repetir o que ocorreu no governo do pai dele, um crescimento não inclusivo no período anterior à pandemia.”

“O espelho do Brasil amanhã, na hipótese de o bolsonarismo vencer, é a Argentina hoje, com aumento expressivo da pobreza”, acredita o economista Saulo Abouchedid

Em relação ao governo Lula, o desafio é acelerar o crescimento econômico “sob a pressão fiscal eterna do mercado”, mas sem deixar de atender as áreas sociais. “Acredito que haverá mais espaço para a queda de juros no Lula 4. E uma tentativa de buscar alternativas na política fiscal, para não abandonar uma política inclusiva e a política industrial”, projeta Abouchedid.

Para o economista André Luiz Passos Santos, sócio da BPCT Consultoria, a julgar pelas políticas econômicas de Jair Bolsonaro e pelas declarações da assessoria econômica de Flávio, é de se esperar um conjunto de medidas fiscais contracionistas, na tentativa de deter o crescimento da relação dívida/PIB, caso ele vença as eleições. O resultado provável será aumento do desemprego e da desigualdade, contração ou o crescimento lento do PIB, queda no consumo das famílias e, contraditoriamente, uma continuidade da expansão da relação dívida/PIB, pelo enfraquecimento do Produto Interno Bruto.

De um eventual novo mandato de Lula, além da continuidade das atuais políticas econômicas que preservam os gastos de natureza social e a manutenção da propriedade das empresas estatais, espera-se que, por se tratar provavelmente de seu último mandato presidencial, o presidente avance em pautas como justiça fiscal, transporte gratuito, revisão das relações entre mercado financeiro e BC e, no limite, revisão das amarras fiscais vigentes, para possibilitar a ampliação do espaço orçamentário ao investimento público em infraestrutura, sublinha Santos. “O caminho seria ampliar a base fiscal, o que sempre foi bastante difícil aos governos, desde Getúlio Vargas, pela resistência organizada das elites econômicas”, destaca. “Em caso de vitória de Lula, a tendência seria tentar manter a ampliação dos mercados de exportação e o equilíbrio precário entre os interesses chineses e estadunidenses, o que a competente diplomacia profissional brasileira tem feito.” •

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sobe-e-desce’


Carlos Drummond

Editor de Economia da edição impressa de CartaCapital

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Fonte: Carta Capital

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