Muito será decidido no primeiro turno das eleições. A direita deve vencer em estados importantes, e o “Congresso mais à direita da história” do Brasil pode ser substituído por outro ainda mais conservador. Nesse caso, a presidência permaneceria como a última fortaleza nas mãos de Lula e do PT.
Mesmo que o atual presidente esteja liderando a maioria das pesquisas, o simples fato de que uma figura de sua estatura histórica esteja correndo o risco de perder para alguém tão desprovido de credenciais quanto Flávio Bolsonaro dá a dimensão do quanto as coisas estão ruins para a esquerda.
Isso, claro, depõe sobre algumas das falhas do terceiro mandato de Lula como presidente, que não teve o mesmo brilho de seus governos entre 2003 e 2010. Enquanto aqueles governos tiraram cerca de 20 milhões de pessoas da pobreza e ampliaram drasticamente o acesso ao ensino superior, seu retorno a Brasília em 2023, por outro lado, não trouxe nenhuma conquista importante para ostentar, nem uma narrativa coerente para oferecer sobre si mesmo.
Sua conquista mais importante, a ampliação da faixa de isenção do imposto de renda, que tornou a tributação mais justa para os mais pobres, é o tipo de coisa que dificilmente desperta paixões, e a melhoria das condições econômicas não se refletiu na vida de muitas pessoas, que ainda lutam contra os subempregos, as dívidas, e uma epidemia de apostas online. (No mês passado, Lula assinou uma medida provisória proibindo sites de apostas no Brasil, uma medida bastante popular que a oposição chamou de eleitoreira.)
Claramente, porém, as falhas de seu governo não explicam o alcance que o bolsonarismo mantém. O bolsonarismo pode ser mais bem compreendido como ponto de convergência entre tendências que já estavam muito disseminadas por várias classes no Brasil: um desejo de militarização do conflito social; o conservadorismo social; o empreendedorismo neoliberal; o anticomunismo; e uma preocupação um tanto seletiva com a corrupção, entre outros fatores.
Embora já estivessem se unindo desde a campanha de 2015 pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, foi a campanha de Jair Bolsonaro à presidência em 2018 que deu a essas tendências convergentes uma liderança política e uma identidade em comum pela primeira vez. Como resultado, o ex-presidente ainda é o principal gestor desse capital político, e mesmo assim o bolsonarismo pode muito bem seguir sem ele.
Ás falhas de seu governo [Lula] não explicam o alcance que o bolsonarismo mantém’.
Uma das formas de entender a aliança de classe que se organizou em torno desse projeto é pensar nela como o encontro entre aqueles que nunca desistiram de esperar que as promessas de modernização se realizassem, e aqueles que pararam de fingir que as promessas que fizeram eram reais.
De um lado, estão aqueles que se desdobram em vários empregos, trabalhando na informalidade ou nas plataformas, lidando com a recessão econômica do período após 2015, os serviços públicos sucateados e as instituições inimputáveis.
Para eles, o bolsonarismo oferece, senão vantagens materiais claras, a promessa de que, se não podem contar com o estado, o estado pelo menos sairá do seu caminho, deixando que fiquem livres para assumir os próprios riscos como preferirem.
O bolsonarismo também oferece o exercício irrestrito de qualquer pequeno poder que tenham, em qualquer mínima esfera – mesmo que seja apenas fazendo piada com minorias.
‘O bolsonarismo também oferece o exercício irrestrito de qualquer pequeno poder que tenham, em qualquer mínima esfera – mesmo que seja apenas fazendo piada com minorias’.
Para as elites brasileiras, por outro lado, e especialmente para as do agronegócio e dos setores extrativistas, Bolsonaro oferece o mesmo, mas em grande escala: capitalismo predatório fora de qualquer controle.
Entre esses dois grupos, há uma classe média amargurada por perder marcadores de diferenciação social em relação aos pobres emergentes; desse meio surgem alguns dos bolsonaristas mais fervorosos, e muitos dos novatos políticos que fizeram carreira promovendo o tumulto da extrema direita.
Resta saber como Lula, caso vença o provável segundo turno no final de outubro, decidirá conduzir seu último mandato: evitando conflito, como fez desta vez, correndo o risco de ver um triunfo completo da extrema direita em 2030; ou arriscando fazer o que precisa ser feito não apenas para impedir que ela avance ainda mais, mas para fazê-la recuar.
Este artigo foi publicado originalmentena North South Notes, a nova newsletter de Vincent Bevins, dedicada ao jornalismo investigativo de qualidade sobre questões globais.