Secretário americano aparece vestido de “trans”: é a versão mais trabalhada de Nikole, a trans-fake de Nikolas Ferreira
Por Sara York — Brasil 247
Em Quantico, secretário de Defesa dos Estados Unidos transforma corpo, gênero, aparência e comportamento em critérios de pertencimento militar — e a palavra “warrior” passa a funcionar como fronteira entre quem merece pertencer e quem pode ser descartado
Em 30 de setembro, durante seu discurso de State of the Force na Base do Corpo de Fuzileiros Navais em Quantico, na Virgínia, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, condensou em uma frase a arquitetura simbólica de uma política que pretende redefinir não apenas a organização das Forças Armadas, mas também o corpo considerado legítimo para integrar sua imagem de soldado.
“No fatties, no trannies, no beardos, no weirdos, no wimps, no radicals. Just warriors”, afirmou Hegseth. Em tradução que preserva a carga ofensiva dos termos, a formulação pode ser lida como: “Nada de gordos, nada de travecos, nada de barbudos, nada de esquisitos, nada de fracotes, nada de radicais. Apenas guerreiros”. A expressão trannies é uma ofensa dirigida a pessoas trans; sua tradução literal, portanto, não deve ser confundida com a denominação respeitosa de pessoas trans (veja Manifesto Travesti – YORK, 2020).
A frase não aparece isolada: Hegseth a apresentou como uma espécie de “tradução simples” de sua declaração anterior de que o Departamento de Defesa já não seria “woke” nem “weak”. Na mesma intervenção, afirmou que o foco das formações militares deveria estar em treinamento, prontidão, responsabilização, disciplina e letalidade. (The Guardian)
É com essa passagem que o discurso se torna particularmente revelador para uma leitura semiótica. O problema não está apenas no insulto, mas na operação de classificação.
Hegseth organiza uma cadeia de nomes que funciona por exclusão: gordos, pessoas trans, barbudos, “esquisitos”, “fracotes” e “radicais” são colocados de um lado; warriors, os guerreiros, do outro. A palavra “guerreiro” deixa de designar exclusivamente uma função militar e passa a operar como signo de pertencimento.
O guerreiro não é apenas aquele que combate, é aquele que corresponde ao modelo corporal, comportamental e ideológico previamente autorizado — físico de atleta (sic).
A oposição produzida é, portanto, menos entre soldado e civil do que entre corpos reconhecíveis e corpos suspeitos.
“Fatties”, “trannies”, “beardos”, “weirdos” e “wimps” não constituem uma categoria homogênea. Uma palavra remete ao peso corporal; outra, à identidade de gênero; outra, à aparência; outras, ao comportamento ou à suposta insuficiência física e moral.
O que as reúne é a transformação da diferença em marca de inadequação, e o procedimento semiótico é conhecido, porque primeiro se estabelece um modelo positivo — o warrior. Depois, constrói-se uma série de figuras negativas que funcionam como seu avesso, o oposto; assim, o sentido de “guerreiro” passa a depender também daquilo que ele não pode ser.
Nesse arranjo, o corpo deixa de ser somente corpo e torna-se documento de pertencimento. A masculinidade militarizada aparece como uma forma de legibilidade: o corpo adequado precisa parecer forte, disciplinado, controlado, reconhecível e compatível com determinada ideia de masculinidade. O que escapa dessa gramática pode ser convertido em ruído, ameaça, fraqueza ou excesso.
A categoria “corpos descartáveis” ganha força analítica, e não é porque todos os grupos mencionados sejam formalmente expulsos das Forças Armadas por uma única frase, mas porque a linguagem produz uma hierarquia simbólica anterior à própria exclusão institucional: alguns corpos são apresentados como aqueles que encarnam a força; outros, como aquilo que a força deveria eliminar, apagar e evitar.
O discurso também precisa ser compreendido dentro da política anunciada por Hegseth. No mesmo pronunciamento, o secretário confirmou uma redução de 20% nos postos de generais e almirantes. Segundo a cobertura do Washington Post, Hegseth descreveu a redução como parte de uma reorganização da estrutura de comando; o plano combina cortes de posições com a redução de postos existentes.
A dimensão administrativa e a dimensão discursiva se encontram em uma mesma lógica, ou seja, reduzir, eliminar, selecionar, depurar. A linguagem militar fornece uma metáfora particularmente poderosa para esse movimento. Se a organização deve ser mais “forte”, aquilo que não corresponde ao modelo de força passa a ser lido como peso morto. O que não se ajusta é excesso. O que é excesso pode ser removido.
A palavra warrior, nesse contexto, funciona como uma espécie de operador de triagem.
Ela separa, hierarquiza, autoriza pertencimentos e, sobretudo, naturaliza a ideia de que determinados corpos precisam provar continuamente que merecem permanecer.
Quando “tranny” vira instrumento político, a escolha de trannies não é um detalhe linguístico: a palavra não descreve simplesmente pessoas trans. Ela produz uma posição discursiva depreciada. Seu funcionamento é semelhante ao de outros termos historicamente empregados para retirar de determinados sujeitos a possibilidade de nomearem a si mesmos. Há, portanto, uma disputa pela própria capacidade de nomeação.
Quando o Estado — ou um agente que fala em nome de uma instituição estatal — nomeia um grupo por um insulto, a linguagem deixa de ser apenas representação e passa a participar da produção da relação de poder, e, assim, a semiótica encontra a política: nomear é posicionar.
E posicionar é estabelecer quem aparece como sujeito legítimo e quem aparece como desvio.
O curioso caso Nikolas Ferreira
No Brasil, uma operação discursiva diferente, mas estruturalmente relacionada, apareceu em março de 2023, quando o deputado federal Nikolas Ferreira subiu à tribuna da Câmara dos Deputados usando uma peruca loira. Durante o pronunciamento no Dia Internacional da Mulher, afirmou, em tom irônico, que se sentia mulher e se apresentou como “deputada Nikole”. A cena foi registrada pela imprensa como uma manifestação de caráter transfóbico. (YouTube)
A comparação entre os dois episódios exige cuidado porque os acontecimentos possuem contextos e finalidades diferentes. Ainda assim, existe um ponto semiótico comum que é a transformação da identidade trans em objeto de performance para produzir um efeito sobre uma audiência.
No caso brasileiro, uma identidade social historicamente marcada pela vulnerabilidade é mobilizada como fantasia, ironia e recurso retórico. No discurso de Hegseth, a palavra que nomeia pessoas trans aparece como insulto dentro de uma classificação que define quem pertence ao ideal de guerreiro.
Em ambos os casos, a experiência trans é deslocada do lugar de sujeito para o lugar de objeto discursivo, e a diferença é fundamental: para uma pessoa trans, gênero constitui uma dimensão vivida da própria existência; para a performance política que ironiza essa experiência, o gênero pode ser vestido, retirado e devolvido ao armário como adereço retórico.
A peruca, nesse sentido, não produz uma experiência trans: ela reproduz uma cena sobre a experiência trans. Falemos sobre a semiótica do descarte.
Existe algo ainda mais profundo nessa gramática. Veja: “Warrior” é um signo de plenitude e grandeza. “Fattie”, “tranny”, “weirdo” ou “wimp” são signos de insuficiência e estranheza. O primeiro concentra força; os demais concentram aquilo que deve ser corrigido, excluído ou removido. A operação pode ser representada assim:
GUERREIRO → força → disciplina → pertencimento → legitimidade
versus
CORPO MARCADO → diferença → inadequação → excesso → descarte
Essa estrutura produz uma espécie de ontologia militar do corpo; assim, não basta estar dentro da instituição; é preciso corresponder à imagem corporal e moral que a instituição pretende projetar.
É por isso que a questão trans não está localizada apenas na palavra trannies. Ela está na própria arquitetura do enunciado. O insulto é uma peça dentro de uma gramática maior. Uma gramática na qual determinados corpos são apresentados como naturalmente pertencentes e outros precisam ser permanentemente interrogados.
Quem pode ser “guerreiro”?
A pergunta que emerge desde Quantico-USA, portanto, não é simplesmente se Hegseth utilizou uma expressão ofensiva. A questão mais ampla é: quem pode aparecer como sujeito da força?
Se o “guerreiro” precisa ser jovem, forte, masculino, disciplinado, sem marcas consideradas desviantes e ideologicamente alinhado, a categoria deixa de descrever uma função e passa a prescrever um corpo.
É nesse deslocamento que a exclusão se torna semiótica antes de se tornar administrativa.
O corpo trans aparece como problema.
O corpo gordo aparece como problema.
O corpo que não performa determinada masculinidade aparece como problema.
O sujeito considerado “radical” aparece como problema.
A diferença passa a ser lida como falha.
E quando a diferença é convertida em falha, o descarte pode apresentar-se como simples gestão. Talvez seja essa a operação mais sofisticada desse discurso, fazer a exclusão parecer apenas uma consequência natural da eficiência.
A força, porém, nunca é apenas força: ao longo da história, ela é uma linguagem.
E toda linguagem que define quem pode ser reconhecido como “guerreiro” também produz, simultaneamente, aqueles que serão reconhecidos como seu resto. É justamente nesse resto — nos corpos que a norma tenta tornar excedentes, silenciosos ou descartáveis — que se encontra uma das questões centrais para pensar as formas contemporâneas de poder. O arqui(vi)vo vivo, como tenho trabalhado, permite justamente observar como esses corpos não desaparecem quando são excluídos da narrativa: permanecem como memória, marca, testemunho e produção de conhecimento.
Em nossa formulação da transepistemologia, desloco essa posição quando penso que o sujeito trans não precisa ocupar apenas o lugar de objeto sobre o qual outros produzem conhecimento; ele também produz teoria sobre as condições que o tornaram objeto.
A disputa, portanto, não termina quando alguém é chamado de “tranny”.
Ela começa ali, porque, antes de ser eliminado de uma instituição, um corpo pode ser eliminado de sua linguagem, e essa é a função política da palavra “guerreiro” no discurso de Quantico: não apenas nomear aqueles que lutam, mas produzir uma fronteira sobre quais corpos podem ser imaginados como dignos de lutar, pertencer e permanecer.
Fonte: Brasil 247